A cidade onde nasceu Portugal esteve transformada por estes dias numa incubadora musical, com a quarta edição do festival Westway Lab. Entre residências artísticas, conferências e conversas com os artistas, o destaque vai, como não podia deixar de ser, para os concertos que agitam o Centro Cultural Vila Flor (CCVF), em Guimarães.  Na sexta-feira (7 de abril) e ao terceiro dia do evento subiram ao palco os Quest, duo português composto pela pianista Joana Gama e pelo artista sonoro Luís Fernandes. A fechar a noite, o café-concerto revelou-se prazerosamente pequeno para a grandeza do músico polaco Buslav.

O Westway Lab não é apenas mais um festival. É um espaço de criação, com vários espetáculos germinados ou encomendados especificamente para ali assumirem forma. Trata-se de um ponto de encontro entre vários artistas nacionais e internacionais; um local privilegiado onde a partilha é sempre protagonista, numa simbiose criativa entre vários géneros musicais.

Exemplo disso mesmo é o desafio que a organização lançou a Joana Gama e Luís Fernandes para se juntarem à Orquestra de Guimarães e desenvolverem uma performance única, onde as atmosferas sonoras experimentais e minimalistas dos Quest convergem harmoniosamente com a eloquência de uma ensemble de 13 músicos, dirigida por Vítor Matos.

Um verso do poema “Burnt Norton”, de T. S. Eliot, dá nome a este trabalho colaborativo: “at the still point of the turning world”. Mais do que um simples título, ganha contornos de presságio. Como um olhar sublimemente lânguido sobre a frenética realidade quotidiana, ainda com as notícias do horror vivido em Estocolmo e da destruição que os mísseis norte-americanos espalharam em Homs, na Síria, a povoarem-nos o pensamento.

«At the still point of the turning world. Neither flesh nor fleshless»

O espetáculo abre com a composição “Lucid stillness” e com as notas espaçadamente pungentes de Joana Gama, uma pianista ciente da expressividade dos silêncios delongados, capaz de nos conduzir com mestria até uma quietude apenas aparente. Entram as texturas eletrónicas de Luís Fernandes e a tensão aumenta. É apenas o início do concerto do desassossego. Um autêntico carrossel entre um caos trepidante, entrecortado por momentos de maior harmonia conferidos pela orquestra, também ela desafiada em vários momentos a sair da sua zona de conforto.

«At the still point, there the dance is, but neither arrest nor movement»

Instala-se no público uma guerra e paz de trazer por dentro do corpo. Por vezes, o ritmo assemelha-se a uma marcha militar. Arrebata-nos. Domina-nos. Noutros momentos, tudo parece abrandar e tornar-se subitamente mais etéreo. Acima de tudo, é uma viagem sensorial e introspetiva pelo incerto.

Westway Lab

Westway Lab

«Neither ascent nor decline»

Os sete temas, todos eles com alusões ao referido poema de Eliot, serão posteriormente editados num novo álbum da dupla portuguesa, que de Guimarães viajou para Lisboa, com um concerto agendado este sábado no Teatro Maria Matos. Ainda sem palavras, sobretudo por não serem necessárias, o público abandona o Grande Auditório e dirige-se diretamente para o café-concerto do CCVF, sem tempo para digerir a grandiosidade daquilo a que acabou de assistir. Já passa das 23h e no palco há um polaco, ainda desconhecido para muitos, que já vai tocando as primeiras músicas.

Chama-se Buslav e rapidamente conquista a plateia com a sua eletrónica, polvilhada com elementos delicados de um universo pop e com apontamentos mais acústicos. Depois do concerto elegantemente denso e desconcertante de Quest, Buslav transforma-se no bálsamo perfeito, como um elemento apaziguador para fechar a noite. A simplicidade, sem nunca cair no óbvio, é o cartão-de- visita do artista.

Há concertos que se assemelham a um agradável diálogo. Mesmo nas canções com letras em polaco – tido como um dos idiomas mais complexos em termos de aprendizagem -, a linguagem musical revela-se, como sempre, universal e acaba por prevalecer, favorecendo uma bela procura ininterrupta entre o público e o autor de “Searching for You”.

Westway Lab Buslav

Westway Lab Buslav

No derradeiro dia do Westway Lab, concertos também não faltaram, com destaque para as atuações de Serushiô, Lince, You Can’t Win Charlie Brown, XIXA e :papercutz.