'What is Left of Blue Whirlwind' ou o mapa da arqueologia folk da misteriosa Abigail Lily O'Hara
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Canções de madrugadas, canções de horas da noite em que os relógios não podem trabalhar porque os espectros e os elementais sobem ao mundo dos vivos e envolvem as realidades em esferas de neblinas e energias de outras realidades. A identidade de Abigail Lily O’Hara turva-se nestas névoas, nesta incógnita. Nem uma referência a quem é, de onde vem, sem um rosto a quem ligar as canções. Todas as pesquisas terminam onde começaram; numa tela em branco translúcido, tão translúcido como a songwriter. Alimento para a imaginação e para a abertura de espaço para ficcionar… Será O’Hara real ou será um desses elementais abraçados a árvores esqueléticas com os olhos de brilhos foscos que buscam alimento energético nos mortais que se arriscam na noite?

Enquanto se atravessa o território mapeado por Abigail neste What Is Left Of Blue Whirwind, permite-se sonhar e sonhá-la. Uma visão induzida por ayahuasca numa tenda de vapores xamânicos em que se assiste a Lilly a escrevinhar, tomada pelos espíritos ancestrais, este Blue Whirlwind – ou o anterior Meander. Ao que se conseguiu, descobrir a cantora sem nacionalidade definida mas que edita na francesa The Eagle Stone Collective, tem estes dois trabalhos editados, compostos com uma pena de águia e tinta de cor cinza azulada no seu livro de feitiços de capa de pele de lobo cinza de neve.

É impossível traçar a árvore genealógica de Abigail colocando-a numa ponte entre um passado que pode nunca ter existido e uma filha da folk, mãe da folk, senhora de folks lúgubres, góticas e naturalistas a um extremo onde se deixa sentir o cheiro dos musgos orvalhados, onde se deixa ouvir o estalar das cascas das árvores. Em What Is Left Of Blue Whirwind, O’Hara brinca com o drone como instrumento de corte para uma americana ambiental amaldiçoada, povoada de princípios e conclusões perfeitamente aninhadas na identidade étnica gaélica e interligada a um imaginário nativo americano. Um exercício de estilo emocionalmente arrasador, tétrico a espaços e com uma extensão e grandeza em termos musicais quase arqueológicas. Uma irmã de clã de Emma Ruth Rundle, Chelsea Wolfe, Anna Von Hausswolff e Marissa Nadler com o toque demoníaco de David Eugene Edwards.

There is no home for me, there is no man for me, I choose to leave. Abigail Lily O’Hara parte como chega sem pertencer a nada, a ninguém e a lado algum.