Em plena tournée pela Europa, e agora nas suas últimas datas, o C.C.B. testemunhou o regresso dos White Lies a Portugal, após a presença dos britânicos no festival (então) Optimus Alive, em 2011. Secundados pelos conterrâneos The Ramona Flowers, apresentaram-se no Grande Auditório perante uma plateia que, longe de estar cheia, se revelava possuídora de uma vontade enorme de os acolher.

Nas cadeiras do recinto e nos balcões, ainda modestamente povoados, observava-se um público expectante. Aqui e ali, viam-se grupos de amigos e conhecidos a passar os minutos até o esperado concerto começar; no oceano de almas ali presentes, eram trocados beijos, segredos, desejos. Foi um concerto precedido, note-se, por uma inspirada selecção musical e que tornou a espera bastante mais fácil de aguentar. Talvez tenha sido o frio da noite que tenha contribuído para que, e tal como notado, a afluência não tenha sido maior mas, com o aproximar da hora do concerto, acabou por se compôr o público que assistiu a este enorme concerto. Pela altura em que a banda de suporte – The Ramona Flowers – entrou em palco, já se via o Grande Auditório com uma massa humana bem mais assinalável.

E falando dos The Ramona Flowers, eles que são oriundos de Bristol – cidade que já nos deu bandas como Massive Attack, Portishead, Kosheen ou Mesh -, esta foi a sua primeira visita ao nosso país. Donos de uma sonoridade com características próprias das grandes bandas que saíram da mesma zona, mas também virados para as guitarras, tanto eléctricas como acústicas, foram denotando ao longo do concerto alguma influência do synth-pop made in eighties à la A Flock Of Seagulls. E foi com esta mesma energia que rapidamente fizeram saltar quem estava sentado, com o vocalista Steve Bird fazendo, de certa maneira, jus ao sobrenome, pulando do palco e juntando-se ao público, sentando-se entre alguns dos espectadores, cantando alegremente. Há, na atitude da banda, algo que faz tudo parecer certo e natural. E não surpreendeu ninguém quando a meio de “Run Like Lola”, vocalista e teclista tenham saltado para fora do palco e tenham dado uma volta de glória em torno de toda a plateia, retornando ao seu lugar natural e terminando, assim, o seu curto, mas intenso, concerto em grande.

Trinta minutos; foi esse o tempo do intervalo que nos separava do regresso dos White Lies aos nossos palcos. Trinta minutos que pareceram uma longa eternidade, mas que valeram – e de que maneira! – todo o tempo que se tivesse esperado. A entrada da banda em palco, acolhida com um gigantesco entusiasmo por parte de todos sem excepção, não foi nada menos que triunfal. E se dúvidas houve quanto ao que os White Lies nos iriam oferecer, rapidamente se dissiparam: “Take It Out On Me”, primeiro single do mais recente álbum da banda Friends, seguido de um tema de eleição da banda, “There Goes Our Love Again”, e do icónico “To Lose My Life”, que deixam o Grande Auditório em delírio. Não é exagero algum dizer que os White Lies são daquelas bandas que têm uma energia absolutamente contagiante com seguidores dedicados e apaixonados, e com uma capacidade impressionante em rapidamente meter todos em pé, a saltar, a bater palmas, a cantar em conjunto, com toda a força que têm. A ajudar a tudo isto, temos a presença quase messiânica em palco de Harry McVeigh, magnético e charmoso, sempre muito comunicativo e a manifestar uma enorme gratidão por quem se deslocou até ao C.C.B. – gratidão, inclusive, por estarem ali naquele local a tocar. O próprio confessa que será, certamente, das melhores salas por onde passaram.

“Hold Back Your love”, do novo trabalho dos White Lies, revela-nos que estão agora mais dançáveis, com umas camadas electrónicas que lhes caem muito bem. E o que caiu muito bem em todos, foi a enorme qualidade musical – de tal modo que um bom número de admiradores da banda não se conteve e em frente ao palco dançaram como se amanhã não houvesse, enquanto que pelo resto da sala todos saltavam, pulavam, gritavam, e os braços mexiam-se num frenesim de movimento, para baixo e para cima, para a esquerda e para a direita, ondulantes, extasiados. É nada mais que a celebração de um ritual musical, uma união entre público e banda quase a roçar o religioso. Naqueles momentos, corpo algum ousava – ou conseguiria -, ficar impávido face à energia emitida.

White Lies @ CCB - Centro Cultural de Belém

White Lies @ CCB – Centro Cultural de Belém

Não contentes por apresentarem temas no novo trabalho, também os White Lies percorrem pelos trilhos de outrora: “The Price Of Love” – tema não tocado pela banda há anos -, foi então ressuscitado, e agradavelmente acolhido pelo público. Sob um jogo de luzes que se revelava frenético, “Fairwell To The Fairground”, indubitavelmente um dos maiores momentos da noite, continuou o périplo pelos temas mais antigos. Outro momento de assinalar vem deste novo Friends, com “Is My Love Enough?” a revelar-se ser um tema de excepção ao vivo, com ele regressando a cadência mais electrónica, toda ela influenciada pelo synth-pop dos anos ’80. Passamos então da euforia a uma escuridão primordial: o rufar da bateria, pesada, ritmada, marcial, quase como uma marcha fúnebre anuncia “E.S.T.”, e entre temas novos e antigos, rapidamente se aproxima o fim do concerto. Mais uma vez demonstrando uma grande gratidão para com quem lá esteve, e para com quem teve paciência e carinho pela banda após um interregno de três anos, os White Lies despediram-se com “Death”, um dos grandes temas do primeiro álbum, To Lose My Life. Mas que fique bem claro – aqui celebrou-se a vida, e foi imensa, naquela noite de Novembro; celebrou-se a vida e a paixão, e celebrou-se a união e a memória. Assim se despediram os White Lies, com uma promessa de um regresso.

Mas concerto sem encore não é a mesma coisa, disso sabemos. E, sob um impressionante coro retirado do refrão de “Fairwell To The Fairground”, todos chamaram a banda de volta ao palco, todos cantaram por ela, e para ela :

Keep on running
Keep, keep on running
There’s no place like home
There’s no place like home.

De regresso ao palco, os White Lies encerram com um tema que justamente diz como todos se sentiram; não foi um mero concerto de uma banda, não foi uma mera colecção de bons momentos, foi algo grande, algo maior, algo maior que nós. “Bigger Than Us”, a verdade cantada pelos White Lies e aprovada por todos.

White Lies @ CCB - Centro Cultural de Belém

White Lies @ CCB – Centro Cultural de Belém