Will Varley - As The Crow Flies
90%Overall Score

Will Varley tem 26 anos, deixou Londres em 2010 e mudou-se para Deal (uma vila de pescadores em Kent bem junto ao Canal da Mancha) e, juntamente com alguns outros talentosos músicos, fundou a Smugglers Records. Varley não se fica pela música e a sua estreia literária Sketch of A Last Day atingiu o primeiro lugar do top Kindle na categoria de ficção política.

As The Crow Flies é o seu segundo disco. E um grande disco. Não me lembro de um último álbum que prendesse tanto desde a primeira palavra. A voz de Will Varley é algo de surpreendente, principalmente quando percebemos que tem apenas 26 anos. E digo “apenas” porque transmite uma maturidade semelhante à de Dylan na casa dos 60. É fácil referir Bob Dylan quando falamos de Will Varley; não o interpretem como uma imitação, mas sim uma (louvável) equivalência. Ainda mais quando sou eu a fazê-la – Dylan é, para mim, Deus-todo-poderoso, intocável e insuperável.

Mas As The Crow Flies é muito mais que isso. É uma viagem, uma retrospetiva da vida. De quão belo é viver e como estamos a destruir toda essa beleza. Basta olhar para a capa do disco e percebemos a análise feita por Varley – a Humanidade caminha para o retrocesso. Mas o poeta não se fica pelo moralismo fácil de apontar o dedo aos outros. Varley desafia-nos a pensar, a refletir e a analisar tudo o que temos feito e tudo o que desejamos ou consideramos importante. Quem somos, o que fomos e o que queremos daqueles que dependerão de nós para crescer. Atenção, este exercício pode ser doloroso, mas também perigosamente viciante!

“Where the Wild Wind Blows” é o tema que dá início a este disco e até lembra “Don’t Think Twice It’s Alright” de Bob Dylan. “There’s a town that I know, where the wild winds blows”. Foi esta primeira frase que me conquistou. Levou-me a casa, a um local que eu conheço, onde o vento sopra e que eu considero o paraíso. Também é terra de pescadores, onde se jogou futebol pela primeira vez em Portugal e onde se fizeram os mais marcantes concertos em tempo de ditadura!

A partir daqui foi sempre a subir. A conjugação da guitarra com a voz e poesia deste homem é única. Entramos num estado de êxtase que nos tira a capacidade de raciocinar, de argumentar, de escrever seja o que for. Apenas queremos viver este momento, sentir sem rede, sem segurança, apenas a flutuar “Don’t think about the future, we’ve got everything we need”. “Blood And Bones” é outro grande tema, bem como “Weddings And Wars”, onde Will Varley faz um sumário da História da Humanidade em 4 minutos com frases tão certeiras como: “God is our reason, God is our leader/God ppoke to me and He told me to kill you”. Segue-se o tema que dá título ao disco. “As The Crow Flies” é um braço de amigo a confortar-nos, a dizer-nos que não estamos sozinhos. Há pelo menos uma pessoa perto do Canal da Mancha que pensa como tu, que se lembra da infância, da relação com os pais e irmãos, que já enterrou um cão, um amigo, um avô. Alguém que não vive agarrado a essas memórias, mas que também não se identifica com o que vê. “Sometimes it feels like we’re living in a darker time”, alguém que não desiste. “At least I can say I tried” porque resistir é vencer. Porque há um legado que tem de ser passado, há algo em que acreditamos e pelo qual lutamos. “I hope that I have done you proud/And I promise to wake up and fight”. E porque há um objectivo partilhado com alguém e uma fé inabalável no futuro, “We will get older/we will get wise”.

Para quebrar a melancolia, aparece “I Got This Email”, um tema onde Will Varley mostra o seu sentido de humor, a ironia e o sarcasmo aplicados de forma implacável contra a actualidade social e política. Este tema mostra o lado anárquico da estrutura das músicas de Varley; parar de tocar e inclui diálogos pelo meio dos temas, é só um exemplo. “When You’re Gone” é o single deste disco. Um tema mais composto, com guitarra eléctrica, violino e uma voz feminina a juntar-se à super dupla Varley-Guitarra. Will Varley é provavelmente o mais irlandês dos artistas ingleses. A prova está em “Until The grass Gets Greener” e “Down The Well”, dois temas com sons e melodias que me lembram os The Chieftains. Dylan todo-poderoso e omnipresente volta a sentir-se em “The Self Checkout Shuffle”. A métrica, a melodia, o balanço desta música levou-me a ouvir “Tombstone Blues”. As the Crow Flies de Will Varley é um grande, grande disco. É dos (poucos) que acredito voltar a ouvir daqui a 20 anos.