Willis Earl Beal - Nobody Knows
80%Overall Score

As árvores expandem-se, ramificam. Umas dão frutos, outras flores. Há aquelas que são plantadas com vista à produção em massa. Levam fertilizantes e outros químicos afins com o fim do lucro. Numa época em que as palmeiras são corroídas no seu interior e morrem por doença, nascem outras bem mais majestosas e imponentes. Junto ao Mississipi, rio onde muitos de nós mergulhamos, surgiu uma assim. A alimentar-se das sombras da cultura negra americana e com sede de água turva das chuvas pesadas. Este Willis Earl Beal, músico de Chicago, é-nos transportado numa máquina do tempo, semelhante a um ciclone enfurecido, soturno e sinistro.

Após o seu álbum de estreia, Acousmatic Sorcery, Willis regressa agora mais refinado, mas – e atenção! – num refinamento que o músico não quis que se vislumbrasse neste álbum, Nobody Knows. De qualquer forma, toda a sonoplastia do álbum parece intuitiva e – convenhamos (!) – extraordinarimente elegante e inteligente. Para quem era viandante da música no metro da sua cidade, Willis conseguiu chegar até à nossa estação numa magia negra modernista. Actualizou o gospel e o blues em arranjos minimalistas, oriundos do fundo de uma igreja isolada; porém, a sonoridade é doída e triste como folhas encharcadas de talento a cobrirem o chão da sua árvore. Árvore esta de uma semente que brotou sem que tivesse sido colocada por ninguém na terra. Que dá fruto e também flores. De onde podemos colher influências de Tom Waits, Gil Scott Heron e Screaming Jay Hawkins. Árvore invernosa, melancólica, embalada por uma voz negra de dimensão colossal. Para ouvirmos o som dos seus ramos à noite. Já descalços.