Quando o furioso Willis Earl Beal repreendeu pela segunda vez as pessoas que estavam a falar alto demais nas primeiras filas (sentadas) da plateia do Musicbox, temi o pior… E por que motivo estou a iniciar esta reportagem na primeira pessoa do singular? O mesmo daquele meu temor da terça-feira: estive no lendário concerto de Chan ‘Cat Power‘ Marshall no matosinhense Blá Blá, o tal pelo qual ela já pediu perdão – porque teve que ser interrompido quando a própria Chan se descontrolou… E Chan Marshall já cantou com Willis Earl para um disco dele. E Beal estava assumidamente ébrio, porque partilha com Chan a insana chaga das dependências. Enfim, as memoráveis ninharias dos que não se submetem ao sedentarismo nocturno.

“I make all the god damn noise here!! It’s a superficial bullsh*t, but it’s MY bullsh*t!”, gritou Willis iradamente. Mas aliviado pelo clímax daquele desabafo, não caiu do instável arame embriagado da sua própria loucura e prosseguiu a triunfal ‘missa’, um ritual que ele iniciara com uma pontualidade inabitual no Musicbox e justificando a sua reputação de, para imediatamente atrair a atenção dos públicos, sem ter que emitir qualquer som.

Da curiosidade ao choque

Talvez ninguém previsse o que ocorreu na Musicbox, mesmo que todos soubessem que Willis Earl Beal é emocionalmente… excêntrico (eufemisticamente falando). Quando o palco foi parcamente iluminado para a inabitual plateia sentada, um vulto totalmente coberto por um manto negro estava deitado no centro da superfície, junto – seria Willis ou ninguém? Eram ‘ambos’, porque ele afirma ser (um) ninguém! Lentamente, sozinho no palco, o norte-americano foi erguendo o atlético corpo, através de elegantes movimentos improvisados enquanto cantava sobre os instrumentais pré-gravados (que o próprio operou com um comando), e dez minutos passados, começou o verdadeiro espectáculo…

Já erguido, usando um negro chapéu cuja aba ensombrava ainda mais o rosto mascarado, junto a um balão de vinho tinto pousado numa estreita mesa redonda, Willis abrilhantou o momento de dispensar o manto com um breve discurso sobre a injustiça social do capitalismo (os famintos e os desalojados), surpresa num concerto no cosmopolita Musicbox, mas acção coerente da pessoa que cinco anos atrás oscilava entre não ter abrigo e empregos precários. E aquele momento pode ter separado duas atitudes: louvar o artista que não se aliena do cidadão e ‘ilumina’ as plateias ou reprovar o cidadão que não aliena o artista e por isso canta menos canções? No final, o ‘tribunal’ (do) público acabaria por sentenciar, porque Willis Earl já estava “Lost In A Dream” (do recentíssimo Through The Dark, lançado há duas semanas), pairando entre espirituais falsetes e a carismática desorientação de estar excluído do ‘sonho americano’, que ele ainda tão bem recorda ter sentido.

“This is masturbation. They pay me to masturbate on stage. I think society likes masturbation, just don’t like it too obvious”. O choque substituiu a curiosidade! Como é possível alguém falar tão acidamente imediatamente após cantar tão docemente?! A Tracker informou que não seria para meninos e, para não censurar, optou por sensatamente citar sem traduzir. E Willis conduziu o perplexo rebanho “Through The Dark”, na escuridão da profundidade oceânica da sua voz, que anunciou There Is No Tomorrow à silenciosamente reverente plateia.

O cativante iluminismo do artista

“I always wanted to be a misterious guy, you know? But how can I be a misterious guy if I don’t exist?… It’s gonna be a search in the darkness. Gonna be a long search...” Enquanto deixava de estar perdido no sonho, recuou ao ainda recente Nocturnes (de Agosto último) e começou a cantar ternamente “Say The Words”, que interrompeu logo no início – “I forgot the lyrics, coz I’m getting bored singing these songs.” -, mas a impecável segunda tentativa foi comovente, porque por mais que Willis Earl disfarce, o talento dele é colossal – consegue cantar afinado e emocionante em todos os timbres do seu vasto leque vocal! E sem deixar de iluminar quem o ouve: “Sometimes you gotta go in the mirror and say “I love you”. Coz the face in the mirror is not yours, it’s a mask. You gotta be able to love yourself. When you go home tonight, I want you to say “I love you” to yourselves!” Entretanto, as pessoas presentes já expressavam encantamento, mas o conjunto do público parecia ainda não saber como reagir, pelo acanhamento com que ia aplaudindo o ‘pastor’.

Em mais uma reflexão, desta vez sobre os relacionamentos íntimos, some people die and some people kill, for other people, and some people kill themselves”, introduziu a abnegada, quase dependente, “Able To Wait” (também de Nocturnes), da qual Willis saiu tão relaxado que confessou desbocadamente “With good marijuana, I can wait forever.” Foi o gatilho do burburinho na plateia mais ruidoso e demorado, que derramou o início deste artigo. O excitado desabafo “but it’s my bullshit!” acabou por ser oportuno, porque antecedeu a bombada canção que pareceu ser “My Resignation”, na qual foi inevitável recordar o icónico Maxi Jazz dos Faithless, enquanto Beal cantava num rouco timbre semelhante ao dele, atacando as notas pujantemente. Estava em evidente catarse, marcando o ritmo batendo com o cinto no chão e dançando em círculos e peões, como uma baíana no Carnaval – chegou mesmo a chicotear o palco como se estivesse a exorcizar a cercante ira!

Porém, o americano acalmou o suficiente para se justificar, explicando que “In order to live from singing, you must pretend you’re better than you are. You must be dellusional, you must be a survivor, like Donald Trump – he’s an asshole, but is a f***ing survivor!” Já sedado por um instrumental digno de David Lynch, Willis desceu à plateia e cantou sentado, depois deitado, alvez no momento mais focado da sua prestação – impressionante a capacidade daquele artista para transitar instantaneamente de angelicais falsetes cristalinos para ásperas rouquidões proféticas! Mas a irritação estava definitivamente superada, ao ponto de Willis Earl tranquilamente explicitar que ia cantar a capella, “coz I’m feeling nervous tonight, like I’m performing; and I don’t like performance, I like reality!”

A descontração bem humorada do final

Para realizar descontracção, Beal regrediu à placidez do veterano ‘old blue eyes’. “This is “Why Try To Change Me Now” by Frank Sinatra, buy his records. Or buy Dylan’s last record – even better, download an illegal bootleg coz he’s filthy rich! I love money, but money is the devil…” Após algumas gargalhadas do público, a descontracção chegou bem humorada e com uma soberba interpretação do clássico de Sinatra! Quanto mais próximo do fim do concerto, menos eloquente esteve o cada vez mais inebriado (e intimista) Willis, que cantou com maior frequência, destacando-se “Honey Child” (do novo Through The Night, sorridentemente apresentada como “it’s gonna get romantic”), o vibrante e desencantado manual de sobrevivência emocional “Survive” – outra evidente catarse, que ele dançou rodopiando o manto e o banco onde raramente se sentou -, a bluesy “Disintegrating” do álbum Nobody Knows (de 2013) e “12 Midnight”, cúmplice lullaby que encerra o disco Nocturnes.

I’m actually feeling OK! It must be Portugal…”, disse (recordando a fria Suíça, de onde vinha), antes de agradecer às pessoas que o reabasteceram de vinho tinto. O final do concerto foi tão introvertido que Willis Earl concluiu aquela sequência parado, debruçado sobre o suporte do microfone, que também suportou o peso de toda a soul deste mundo e do outro, com que ele cantou aquele troço do alinhamento. A bluegrass-folk “Times Of Gold” foi a última canção, mas apresentada só com um assertivo “I’m gonna sing a capella, but this sh*t is mine!” Parou passados poucos segundos: “Sh*t, I started in the wrong key. This weed is good!” Nada que o impedisse de entregar uma sedutora interpretação cristalina daquele tema vintage, que anestesiou o ainda deslumbrado público. Sentindo falta de palmas, Willis substituiu o encore pela última ‘pérola de eloquência’: “Still no clapping… Don’t you wanna cum?! Clap is ejaculation. Do you know why I’m wearing a mask? Coz I’m a capitalist, a liar, I’m selling my ass to buy my fortress of solitude! You can do the same, maybe with another method

E retirou-se do palco, aquela caricatura de cidadão, que reprovou o individualista capitalismo enquanto hedonisticamente viajava em marijuana e vinho tinto e confessou que só se estava a vender, interpretando merdas que o aborreciam! Já se previa que não seria um espectáculo para ‘meninos’. E todavia, Willis ofereceu algo melhor que (só) mais um concerto pop: sem nomear partidos, Willis realizou um evento musical de entretenimento político, para gente madura – mesmo na Festa do AVANTE!, é raro os músicos terem desempenhos tão políticos. E se considerarem quão enfadonha está a política, saberão quão difícil é entreter. Mas Willis conseguiu, com sucesso! A prova foi o público nunca ter parado de lhe dar corda (reabastecê-lo de vinho tinto), certamente porque estavam a gostar do invulgar conceito com menos música. Mesmo que tenha sido um gosto estupefacto, tão atónito que, no fim do espectáculo, as pessoas tinham satisfação estampada no rosto, mas ‘engasgaram’ o aplauso, como se expectantes por mais um monólogo!

Em Lisboa, afortunadanamente (para os presentes), Willis atrasou-se na sua assumida aspiração de ser “o Tom Waits preto”. Porquê afortunadamente? Porque Willis pareceu outro sujeito que também tinha vários mundos na própria alma e processava isso politicamente, mas conseguindo entreter: Willis pareceu um Jim Morrison ‘afro’, o que foi (mais) mítico, irreversivelmente inesquecível! Ao menos escutem.

Fotogaleria de Ana Antunes aqui:

Willis Earl Beal @ Musicbox