Xiu Xiu - Angel Guts: Red Classrooms
70%Overall Score

Isto é gente que já cá anda há uns aninhos. Mas assim como os grandes nunca são consensuais, os Xiu Xiu padecem de uma condição, uma espécie de cancro com uma incidência atroz, que radica num número cada vez maior de indivíduos do universo musical actual: a subvalorização. O culpado, desta vez (por uma vez que seja), não é o tabaco. Talvez seja a demasiada oferta. Mas isso não explica o reverso da medalha, igualmente atroz, mas que dura, porventura, há mais tempo: a sobrevalorização. Sim, num momento histórico em que a produção musical atingiu níveis inauditos, em que só não ouve música boa (seja lá o que isso for) quem não quer, ou quem seja um verdadeiro calão, para usar um termo tão antigo quão discutíveis são os gostos, continuamos a ter que “gramar” com um airplay feito de idiotices, às vezes anormalidades, de três-versos-quatro-refrões-solo-refrão-fade-out-fim, como se o mundo não tivesse progredido e todos os doces conventuais continuassem a ser feitos em conventos, por castas freiras que fogem da Bimby como de falos, que dEUS me perdoe. E já que a cozinha foi aqui introduzida, damos a receita para este Angel Guts: Red Classroom: pegue-se numa estrutura Bauhaus, uma pitada de Peter Murphy a solo (a voz, principalmente a voz), junte-se-lhe em partes iguais Nine Inch Nails e Young Gods e oiça-se sem pensar em nada disto! É que, de contrário, sofre-se daquilo que poderá ser chamado de “Síndrome Pink Floyd”, ou seja, todos sabemos que, apesar de toda a genialidade, de discos que mudaram o panorama musical, de temas icónicos e de uma discografia acima da média, com alguns tesouros incontornáveis, é coisa que não se pode dizer que se preza, sob pena de sermos “bregas”, tudo por culpa de uma nódoa, um ponto negro infecto chamado Delicate Sound Of Thunder.

Desde 2002, com Knife Play, os Xiu Xiu cresceram. Cresceram a orelhas ouvidas e deixaram de ser apenas uns The Cure neuróticos, que deixaram de o ser logo de seguida com o majestosamente minimal A Promise, de 2003. Deslocaram-se até hoje num frenético ritmo de um disco por ano. O desgaste seria natural. Não para os Xiu Xiu, que não estão cá para agradar a ninguém, para além de uma imensa minoria (ah, que saudades, XFM) que é o culto formado à sua volta. Justificado, refira-se. Neste disco há lamentos góticos, letras Reznor, industrial invulgarmente melódico, há ouro, puro ouro. Mas dificilmente ficará para a história. Mas à história que não fica, há sempre alguém que a conta. Poucos mas bons. Sobretudo bons.