Dois concertos num dia para satisfazer a procura. Ambos esgotados. A nós, calhou-nos a “Primeira Sessão”. São 16h45 e, aqui em Belém, estão 33 graus. É Lisboa a engalanar-se de muita luz para ver e ouvir, uma vez mais, um senhor que já há muito ultrapassou esse redutor estatuto de “Compositor da BSO da Amélie“. Agora é só o Yann Tiersen. Basta e sobeja. Talento.

Há muitos, muitos anos, Monsieur Tiersen veio ao CCB. Foi há tanto tempo que não sei bem se ainda os braquiossauros pisavam a Terra ou se uma geração inteira ainda dormitava na ressaca de uns certos planos cinematográficos de Paris no geral e Montmartre em particular. Soube-se, por reportagens posteriores, que a esmagadora maioria entrou naquele Grande Auditório na vã esperança de ouvir aqueles acordes que trouxessem de volta a imagem da doce Amélie Poulain. E saíram aborrecidíssimos porque, muito embora o homem se tivesse ajoelhado quase à beira do palco a tocar, simultaneamente, um acordeão e um piano de brincar com a mestria de um Chopin deslocado no tempo (detalhe de menor monta para uma altura em que, lá está, não posso assegurar que os braquiossauros já não andassem por aí a fazer estragos), ofereceu apenas uma migalhinha sonora, feita esmola, da tal BSO. Estávamos pois, perante um fenómeno com dois estranhos extremos: De um lado, gente que conhecia pouco da obra (estávamos em 2004 e já a BSO do Adeus, Lenine se seguira ao magnífico L’Absent). Do outro, um Yann Tiersen decidido a mostrar que era muito mais que apenas aquilo pelo que era conhecido (já em 2002 espantara uma Aula Magna à espera da francesinha, conferindo-lhe uma roupagem mais post punk e desistindo da franja parisiense). Hoje já todos sabemos quem é Monsieur Tiersen. É um músico aclamado que colaborou com os Divine Comedy, Stuart Staples, Jane Birkin, Elisabeth Fraser e até gravou um disco com Shannon Wright. Mas é também um habitué por terras lusas, mestre multi-instrumentalista que se movimenta por inúmeras sonoridades, até algum experimentalismo, sem sacrificar a melodia. É bem… Gente desta tem a tendência de se fechar nas esconsas caves dos Jazz Clubs a tocar para eles próprios mais um grupo restrito de eruditos, normalmente do meio ou amigos. Não ele. Não aqui, nesta matiné, onde até há crianças acompanhadas pelos pais, todos eles sorrisos. Todos nós também.

Escassos segundos depois das luzes dirimirem entra o rumor que precede aquele tão característico sotaque escocês de Aidan Moffat: “My heart could be a stone, it’s a sponge, it’s a balloon, it’s a lonely rock with a fiery tail falling in your atmosphere, burning up and breaking down”, a quem Yann Tiersen “encomendou” um poema sobre… pedras. Sim, isso. Quando leu as primeiras linhas do resultado: “So here we are under London’s glass and grenat arms as they reach for the half-moon, me a blood of boldness and booze and the rusty heart pookadot breeze of you, stand stuck to this tree in cool shoes, what could possibly go wrong? What could possibly go right?”, decidiu que “Meteorites” seria o último tema do disco Infinity, que vem aqui apresentar. E é com ela que abre, aqui, as hostilidades. Os aplausos são só mornos, não fazendo jus à beleza do tema. Mas, lá está, num concerto de Monsieur Tiersen saber-se-á, à partida, que ainda há muito lugar à surpresa. É deixarmo-nos ir, em viagem. Segue-se “Ar Mahen Bihan”, o tema que o único elemento feminino da banda (que entretanto deixa o palco para só tornar no final), quase sussurra em bretão, (Yann Tiersen é natural de/residente na Ilha Ushant, ao largo da costa da Bretanha – onde o disco foi gravado, depois de concebido na Islândia -, pelo que podem colocar de parte quaisquer relação umbilical com o acordeão parisiense que o deu a conhecer ao mundo). É agora visível, ainda antes de ser audível, todo o equipamento que domina: o piano (o verdadeiro e o de brincar), aquela espécie de mesa com sinos, a melódica, o vibrafone, o bandolim, a guitarra de 12 cordas, o violino e toda a parafernália que o rodeia e que ele percorre ao longo do concerto. Não é que isto constitua surpresa para quem conhece o seu trabalho ou, melhor, já assistiu a um concerto, o que é meio-caminho-andado para gostar do homme. Surpreendente (ou não) é a restante banda, que durante aquela hora e meia também percorreu quase todos os instrumentos do palco, trocando esses e lugares, o baterista toca baixo, o baixista vai à guitarra, depois fazem dueto com Yann no vibrafone, todos se unem em coros fenomenais (o vocalista é um portento)… a palavra é brilhantismo.

Algo mudou, porém, em Yann Tiersen. Com uma tão vasta obra, talvez já não tenha grande coisa a provar (alguma vez teve?). Agora concede, sem a relutância que um dia talvez o tenha caracterizado (a fazer jus a tudo o que se dizia), um leque transversal de temas. Isto só poderia acontecer quando já se percorreu um longo caminho (Infinity é o oitavo disco), com sonoridades tão diversas que o resultado só poderia ser, para quem ali está, um misto de sensações, que atravessa o Grande Auditório de uma forma quase visível. Não há, pois, tarde de Domingo como esta. Oferece “La Dispute”, do disco Le Phare (versão original, em piano) mas que a maioria reconhece da BSO de Amélie (versão em melódica), mas recebe, sem espanto, um dos maiores aplausos da tarde para o “Midsummer Evening”, o primeiro single a ser retirado deste Infinity. Pudera. É uma força poderosíssima, densa, sem que a manipulação dos instrumentos seja tão evidente como no disco. São todas as vozes em palco a cantar em vários tons, a bateria em força, a guitarra de 12 cordas em pleno. Depois há-que retomar temas históricos como “Chapter 19” ou “Palestine”, de Dust Lane, o “Disco Americano”, um dos mais surpreendentes e belos da sua discografia. Aborda a faixa “The Gutter” do anterior Skyline, esse álbum que tem tanta sonoridade de múm como Infinity foi gravado, em grande parte, na Islândia. Não é irónico. É só genial. Como esse “Rue des Cascades”, tema do disco homónimo de 1997, que arranca, mais uma vez, um aplauso estrondoso (a performance no piano é exímia). No encore, Yann Tiersen sobe ao palco para um one man show que cresce de um piano em adagio para uma apoteose no violino (pela primeira vez, não parte nenhuma crina do arco). Quando a banda regressa, membro feminino incluído, é pura magia: “Till The End” é bem capaz de ser um tema histórico! Como histórico é cada regresso, Monsieur Tiersen.

Um concerto de Yann Tiersen é uma daquelas experiências que todos deveriam ter uma vez na vida. Não vou escrever que escusaria o uso de drogas porque é politicamente incorrecto, embora essa seja a minha opinião, que ainda vai sendo aquela a que tenho direito. Fiquemo-nos pela incontornável complexidade que reside nesta música (os detalhes vão dos coros de boca fechada aos apitos irlandeses, dos coros a cappella aos solos de violino), mas que afinal radica, como que refinada, em nenhum outro sentido que não a pura melodia. É essa, afinal, a sonoridade de Yann Tiersen, inúmeras correntes, influências que abraçou, conseguem desaguar não numa foz revolta, mas num plácido delta, absoluta e incrivelmente reconhecível. Às vezes bastam as primeiras notas. Devíamos estar orgulhosos por Portugal ter sido um dos primeiros lugares que lhe prestou o culto que ele merecia. Não devíamos permitir que, um dia, os concertos de Monsieur Tiersen não esgotem. É o mínimo!

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