A comunidade artística é muitas vezes tomada por alienada da burocrática actividade cívica e sobretudo da enfadonha e cínica actividade política, envolvida que está no absorvente processo criativo. Por isso, quando artistas realizam uma iniciativa para expressar uma atitude cívica de oposição a poderosos interesses, sabemos que o tema é importante – porque os cativou e mobilizou -, e há expectativa sobre a própria participação da comunidade artística, além da adesão da população.

Pegar o monstro pelas brocas

E importante mesmo é o iminente fracking, a fracturação profunda – com recurso a brocas gigantescas -, do rochoso subsolo do sudoeste de Portugal para sondagem e eventual extracção de petróleo e gás natural. Importante, porque são práticas poluentes (a extraccão, sobretudo) e porque retardam a substituição do consumo de combustíveis petrolíferos e gás pelo consumo de energias de fontes renováveis com muito menos emissões de ‘gases-estufa’. Tão importante que no fim da tarde de domingo dia 3 de julho, cerca de 40 artistas se juntaram na Galeria Zé dos Bois para dar vida ao evento Futuro Sem Furos, onde algumas dezenas de designers exibiram mais que trinta cartazes anti-poluição e as Pega Monstro e a dupla Chalo + João Mouro e Garcia da Selva deram literalmente música ao lobby do petróleo.

Antes da música, para uma jovem plateia cheia no salão, o engenheiro especialista em alterações climáticas João Camargo explicou durante quase uma hora o que é o fracking e que danos causam no meio ambiente, como se processa a extracção de combustíveis no subsolo e quais os interessados e interesses que fizeram governantes portugueses avançar para a realização de fracking no Sudoeste. Uma explicação bem preparada e fundamentada com gráficos, fotos e cartografia que evidenciaram que mesmo a extracção de petróleo sem acidentes acarreta derrames de combustível e emissões de gases permanentes – que expulsam uma parte da fauna e envenenam a parte incapaz de fugir, além a flora -, existindo também elevada poluição sonora e há mesmo especialistas que associam a actividade sísmica à instabilidade causada por remoção extensiva de grandes blocos rochosos.

A música ao vivo veio mais tarde. Primeiro, Garcia da Selva apresentou durante cerca de meia hora a sua electrónica atmosférica de crítica sócio-política que talvez tenha sido a catalizadora do evento. Depois, quando já muita gente tinha provado os petiscos disponíveis no evento quase às 21:00, as “engenheiras” Pega Monstro subiram ao palco para tocar menos que trinta minutos, tempo adequadamente insuficiente fazer esquecer a palestra que as antecedeu ou para ofuscar os cabeças de cartaz oficiais, mas também tempo que bastou para provar porque eram a principal atracção musical do serão. As jovens manas Reis – Maria na guitarra e Júlia na bateria -, iniciaram o concerto descascando a longa “Amêndoa Amarga” (que partiram estrondosamente) e confirmaram quase imediatamente que já estão num estádio de perícia técnica que lhes dá a segurança necessária para variarem ritmos – por exemplo, incrustaram na mesma “Amêndoa Amarga” a contida introdução de “Suggah” (do Pega Monstro que antecedeu o mais recente Alfarroba) -, e para tocarem com as intensidades desejadas, preenchendo os ouvidos de qualquer plateia e, mais uma vez, instalando o mosh em poucos minutos, ao pontapé e ao empurrão dos mais jovens do público.

Um baixo não faz falta quando quem toca a bateria tem a sensibilidade sonora de Júlia, que exibe evolução de concerto para concerto; Maria também tem evoluído como guitarrista, mas na bateria é mais facilmente evidente, por (ter que) ser toda a estrutural secção rítmica; além disso, a técnica vocal e o conteúdo lírico (ainda) não parecem ser o foco de uma banda cujo conceito em palco está baseado nas alucinogénias distorções da voz de Maria, que berrou arrepiantemente – tão bom! -, e naquilo que distingue o rock n’roll: a dominação da intensidade sobre a técnica – que deve conseguir nutri-la. E sim, foi muita a intensidade das Pega Monstro que tocaram uma jam session sem qualquer pausa e que aqueceu os ânimos da plateia, numa temperamental e virtuosa versão alongada de “Amêndoa Amarga”.

De país de petróleo, contra o petróleo

Chalo Correia poderia ter interesse em defender a expansão da indústria petrolífera porque é de Angola, um dos maiores produtores africanos de combustíveis, e pátria do Sonangol, grupo com grandes investimentos em Portugal. No entanto, foi com explícita convicção que entrou no palco para o concerto final do evento, onde afirmou estar “contra esses petroleiros que estão destruindo o planeta“, naquele sotaque dengoso tipicamente angolano e com a guitarra e a companhia de João Mouro, que tocou guitarra eléctrica com pedais acoplados (e uns casuais calções e chinelos), para amparar a voz de Chalo, que também tocou guitarra e em algumas canções harmónica.

E a dupla começou a agradar logo no soundcheck, durante o qual ambos revelaram o perfeccionismo de descerem ao centro da plateia para empaticamente sentirem o som que o público iria escutar. Um som caloroso que, electrificado, em vez de semba poderia ser chamado rock subsaariano e que semeou o bailarico que logo na segunda canção já tinha aflorado na pista do ‘aquário’ da ZdB – com um casal madurão dando o exemplo aos (mais) jovens. “Podem dançar à vontade! Somos todos irmãos”, convidou Chalo para espalhar mais dança.

Um som folk(lórico), dedilhado a preceito, com ginga de preto – sobretudo pelo branco João Mouro, que foi o solista de serviço -, mas com a contemporaneidade do transatlântico afrobeat que fez recordar outro flagelo associado à exploração do petróleo: a Nigéria (o maior produtor africano até a Abril último) tem sido invadida por petro-máfias alegadamente islamitas (caso do barbaramente mediático Boko Haram), pela preponderância daquela indústria na economia.

Todavia, sem excluir a consciencialização cívica que motivou o evento, todos os artistas aspiraram a um festivo optimismo e canções como “Chercher Crioula”, do recente EP Kudihohola (editado pela britânica Juno Records no ano passado), mantiveram o baile activo, intercaladas com algumas baladas – sabemos que o nome do ritmo costuma variar de região para região -, por vezes com o erotismo lírico de, por exemplo, “seu corpo bamboleante tem a forma de um violão“, um dos piropos musicados com a mesma bonomia relaxada que pediu “Não fiquem lá atrás porque a música não faz mal!“.

Podem os artistas contribuir com alegre criatividade para a (in)formada Cidadania? Todos provaram que sim, ainda e sempre podem! Também por isso a Tracker concluiu que seria útil divulgar o Futuro Sem Furos.