Há cliques no botão do play que não deveriam acontecer sem antes se ler atenta e cuidadosamente um disclaimer mais ou menos detalhado sobre os riscos que tal acção poderá potencialmente representar. E ter de seguida de se seleccionar com o rato uma caixinha que diz que se leu, se compreendeu e se pretende continuar por nossa conta e risco. Os motivos prendem-se com vários graus – muitas vezes em sentido contrário – de adjectivação qualificativa. No caso dos britânicos Zibra, o tal disclaimer teria sido particularmente útil para nos preparar para a condição de reféns do tal botão do play e ficar a carregá-lo compulsivamente sempre que a barrinha de progressos indicativa que chegou o fim para os ouvir “só mais uma vez”.

Desde o “Lost In Love” dos I Am A Camera e o “Skeletons” dos Nervous Nellie não se via neste botão tanta agitação. Formados há apenas um par de meses os Zibra, responsáveis por esta diabrura, demonstram através da sua cria primogénita de nome “Heartache” uma maturidade e uma independência de quem já não precisa de aconselhamento parental. Enganam bem, estes quatro rapazes debutantes que constroem os seus próprios sintetizadores e realizam os próprios vídeos que parecem ter delineado muito bem o caminho que querem trilhar e sabem muitíssimo bem para onde vão.

O formato filme gory série B (o coração humano rodopiante a escorrer sangue num espeto como se de um suculento algodão-doce se tratasse presente no vídeo consente-me a analogia) tolda-se numa sequência de efeitos CGI primitivos contidos em cassetes VHS mastigadas pelo tempo num emaranhado imperceptível de fios de sintetizadores obsoletos e ficamos com a sensação que fomos sugados de volta à fisionomia dos vídeos que fizeram a história dos deliciosamente corny primeiros anos da década de 80. Um dub-industrial-disco-rock-electrónica-new-wave com níveis potenciais de dependência, dizemos nós, a aproximar-se perigosamente do vermelho. É um terramoto sonoro que propaga fragmentos de uma selvajaria desenfreada de beats, sintetizadores e baixos que, não parecendo, têm a precisão matemática das equações mais esdrúxulas e complexas do universo.

Pouco mais sabemos dos Zibra, mas ficaremos seguramente atentos a mais novidades.

rosana rocha sig