É praticamente à beira Douro plantado que vive um festival que há 6 anos rega esta região, situada no interior profundo e fértil de Portugal, com as paisagens sónicas mais progressistas e frescas que no país se têm feito. O Zigurfest – Festival de Música Moderna de Lamego pretende trazer até à Rua da Olaria e ao Teatro Ribeiro Conceição (aquele que é o epicentro cardiovascular do evento) um misto de gente nova com heróis pessoais e nacionalmente consagrados. O maior critério passa pela promoção da diversidade e da abertura cultural. Assim, o festival que acontece a 1, 2 e 3 de setembro, a calhar mesmo no auge da reentré, traz um invejável certame luso. Pop Dell’ Arte, Torto, Killimanjaro, Dragão Inkomodo, entre outros, figuram num cartaz que oscila entre as sensibilidades mais indie, encontrando pelo meio alguns acessos mais pesados do universo rock e reservando algum espaço para as descobertas sónicas provenientes de uma boa dose de grupos experimentais como Random Gods, a jam session Desterronics e Galo Cant’as Duas.

Há voracidade punk e rock n’roll para quem para aí estiver virado

O contingente do riff é vai estar sólido em Lamego. Nomes como Killimanjaro e 800 Gondomar asseguram a identidade nortenha do Zigurfest 2016 com pontapeadas de confusão e densos decibéis de distorção. Os primeiros preparam-se para testar a segunda investida discográfica na estrada depois da vistosa estreia com Hook, acesso radical de stoner rock minhoto datado de 2014 e uma sempre fiável dose de rock rouco e desbravado. Já os segundos, provenientes de Rio Tinto, ainda se começam lentamente a mostrar pelo panorama com a sua marca caótica e desregrada de um punk rock marginal e esdrúxulo. Entretanto, há muito barulho que por eles é produzido. Baleia Baleia Baleia são a contribuição da casa, um duo pertencente ao colectivo ZigurArtists, cujas letras absurdistas e satíricas dizem bem com o garage rock bem temperado a climas new age.

Pop bem temperada para os últimos dias de verão…

Bastante açúcar nesta edição do Zigurfest e, particularmente, dentro das paredes do Teatro. Luís Severo traz a Cara d’Anjo que conquistou toda a gente no final de 2015. Os versos nebulosos e o rock almofadado do artista anteriormente conhecido como O Cão da Morte, documentam a inevitável viagem pelo crescimento, mas enquanto as nuvens que aqui são confeccionadas com espertos riffs de guitarra ligada ao amplificador e lindos cantos afinados, com Surma, esse cândido nevoeiro nasce de precisos loops e frágeis frases de baixo e guitarra. A leiriense tem feito o seu percurso de proeminente revelação a sólida presença por esses palcos nacionais fora. De voz leve e quente, a caminho da edição do primeiro disco, vai esculpindo as suas paisagens sonoras, tão atmosféricas como electrónicas e que tanto dizem ao final do verão. Entretanto, ligeiramente mais soalheiro e roçando as linguagens mais psicadélicas, o pop rock de Marvel Lima, grupo proveniente de Beja que faz a sua música de quentes linhas melódicas e húmidos cânticos que incitam ao movimento das mentes e dos corpos.

Música de todos os gostos e tamanhos

Claramente decidido pela dispersão, o Zigurfest ’16 impossibilita que se lhe reconheça um traço específico de género. Assim, a diferença é uma das características que demarca o festival. E que melhores santos patronos do ideal de diferença do que os muito profanos Pop Dell’ Arte. O lendário conjunto português apresenta-se ao vivo pela primeira vez no Teatro Ribeiro Conceição e o concerto constituirá uma oportunidade única não só para ver estrear novo material ao vivo, como também para evidenciar a força e a criatividade de uma das bandas mais originais a sair da música alternativa dos últimos 30 anos. No mesmo palco e no mesmo dia, os também “da casa” Burgueses Famintos. Também enquadrados na chancela ZigurArtists, a sua mistura de drone, art rock e spoken word acresce a experiência musical com uma riqueza visual, fruto das vibrantes e fortes imagens que verbalizam através do discurso e da acutilante música que produzem. Neste espectáculo, trarão João Pedro Fonseca, artista visual que se juntará ao duo para elevar ainda mais as sensações auditivas e visuais esculpidas pelos Famintos. No dia inaugural, a violoncelista Joana Guerra vai também temperar as veias mais clássicas com expansões de vanguarda e técnicas modernistas, às que se junta um canto distinto e portentoso.

Tragam a vossa tralha e venham fazer música

Algo que será comum ao longo dos 6 palcos dispostos pelo centro e pelas principais avenidas da cidade é a boa dose de experimentação em cada um. Principalmente, através de linguagens que estão ainda a ser desbravadas. A eterna teia textual da síntese sonora é uma que, graças aos avanços tecnológicos, nunca pára de se alterar e mutar, e nesse sentido, as jams Desterronics para sempre terão aquele sabor de imprevisibilidade e transgressão. Originárias no bar lisboeta Desterro, na Avenida Almirante Reis, as jams sessions de sintetizadores, que convidam abertamente qualquer pessoa a trazer o seu equipamento electrónico para uma sessão de improviso, sobem um pouco a norte para assegurar uma boa dose de exploração. Para ajudar à festa, as paisagens industrio-tribais de Random Gods e o exotismo por vezes obscuro, por vezes fresco dos Älforjs vêm garantir que se seja possível fechar os olhos e ficar perdido na imensidão da mente. Só irão até tão longe quanto a vossa imaginação.

A Tracker Magazine será, com imenso orgulho, parceira media oficial da Zigurfest 2016. Entretanto, alguns detalhes da programação ainda estão para ser anunciados. Os preços dos bilhetes estão afixados em 5€ para o passe geral e 3€ para o passe diário. O festival ocorre a 1, 2 e 3 de setembro.