A semana que hoje termina foi de uma fertilidade de edições que faz dela, muito provavelmente, uma das mais ricas deste ano bizarro de 2020. Do lado onde a luz do mediatismo bate mais forte, os discos de The Strokes, Laura Marling, Sparta, The Mountain Goats ou Ezra Furman já rodaram várias vezes por todo o lado, mas do lado das descobertas há sempre uma necessidade – e uma vontade – maior de encontrar mais uma pérola para acrescentar aos dias compridos.

São onze os discos essenciais desta semana. Desta vez, escolhemos os discos de Aiden Baker, Barrens, Buck Curran,  Clara Engel, Local H, Midwife, Orkesta Mendoza, Pokey LaFarge, sundots and the carpet store e Trace Mountains como aqueles que não devem deixar de ouvir. A escolha de links para a escuta dos discos recai no Bandcamp, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

 

Clara EngelHatching Under the Stars (Edição de Autor)

Um longo e profundo ritual de recolhimento nas entranhas da noite, silenciosa e escura. A música de Clara Engel traduz-se em estados de transe primordial, cada canção andrajada sublimemente com vestes primitivas e ceremoniais, escorrendo como uma fonte de vida a reflectir as histórias que a lua, a natureza, os animais que acordam quando o sol se despede dos dias e os fantasmas dos cadáveres mortos por amor na floresta, sabem contar desde a alvorada dos dias. Em mais 9 contos nocturnos de páginas folk e blues de contornos góticos, a songwriter canadiana vai passando as páginas do livro desventurado que vem a escrever desde 2004. Independente, coerente, envolvente como um feitiço, Engel tem de figurar nas colecções de discos dos que amam Marianne Faithfull, The Walkabouts e Chelsea Wolfe. A febrilidade magnifica de Hatching Under the Stars – possivelmente o disco mais perfeito que Engel escreveu até agora – vai melhor com uma poção de amor destruído a queimar na língua. Até logo na hora das bruxas.

Aiden Baker – An Instance of Rising / Liminoid (Gizeh Records)

Um encontro entre o rock experimental e o post-rock com o clássico contemporâneo e a electrónica paisagística sem sair do Canadá e sem sair das noites profundas. Aiden Baker é um poeta, compositor e músico com um vasto legado deixado já em bandas como os Mnemosyne, os Nadja ou os ARC. Habitante de um mundo em nada concreto onde os néctares que se bebem são as sombras da experimentação, do pardo enquanto cor primária e de um obscurantismo basilar, o músico assina mais um disco sem ser o personagem principal. Ambos os temas – são apenas dois, mas de duração alargada – são colocados nas pautas de duas orquestras para tomarem formas distintas dos formatos em que Baker mais facilmente é encontrado. “An Instance of Rising” submete-se a um encontro com o Spółdzielnia Muzyczna Contemporary Ensemble da Polónia e “Liminoid” foi escrito para uma performance com Tim Hecker e os Pram no The Music Gallery de Toronto sendo posteriormente gravado com a Riga Sinfonietta e um conjunto de músicos de rock reunidos para este efeito na Letônia. Garantidamente um álbum para deixar a tocar durante a noite… para o resto da vida. Sublime e para quem ama Swans, Sunn O))) e Hanna Von Hausswolff.

Barrens – PENUMBRA (Pelagic Records)

Palavras para quê se o som viaja em frequências inaudíveis no espaço. Os suecos Barrens descolam com um disco de estreia avassalador para a galáxia dos nomes maiores do post-rock e do post-metal. PENUMBRA existe naquele espaço de recriação dos géneros onde muitos querem estar, mas quase nenhuns lá conseguem chegar. A banda sueca insere elementos synthwave e vapour a criar um painel de estrelas, gazes e nebulosas explosivas por onde as vibrações de som reecoam destruindo a teoria que no espaço ninguém te pode ouvir gritar. Pode, mas gritas de outra forma, sem palavras ou desesperos, com a amplitude molecular e consciência colectiva que conduzem à transmutação e à evolução. Disco de estreia a rebentar com barreiras e a levar os Barrens para o mesmo lado da força que os God Is An Astronaut, Mono, Caspian e Mogwai.

Buck Curran – No Love is Sorrow (Obsolete Recordings)

Uma espécie de cesto de canções atemporais para ir passando pelas labaredas de uma fogueira e saboreando como se tivessem sido colhidas uma a uma, no bosque lá fora. Buck Curran, uma das metades dos Arborea, duo de psych-folk, escava um trilho por entre a folk serpenteando de forma ora serena, ora pesada, por um certo tradicionalismo da Britânia, explicando que Nick Drake nunca morreu e vive sozinho e omnipresente entre as cordas das guitarras de Curran, nas mesmas cordas onde também vivem ecos sombreados pelas condições geográficas dos Apalaches e as almas caídas dos povos nativos norte-americanos. No Love is Sorrow foi editado antecipadamente de forma a tentar reunir fundos já que Buck Curran se encontra confinado em casa em Bergamo, Itália, com a esposa Adele H. e um filho pequenino. Para quem ama Neil Young, Six Organs Of Admittance e os Angels Of Light de Michael Gira.

Local H – LIFERS (AntiFragile Music)

This might be a concept record about the end of the world. Or it might just be a party record with loud guitars and cowbells diz Scott Lucas, uma das metades do duo Local H. E porque não as duas coisas?! Dançar e beber enquanto o mundo acaba – e que raio de momento para pensar nisto – não parece nada um mau final para o fim da vida na Terra. LIFERS, nono álbum dos norte-americanos ao longo de uma carreira de 30 anos (you lazy bastards), é aquele grito de guerra de vida longa ao rock e à capacidade de se movimentar jiboiamente – sim, palavra inventada agora – por uma carrada de nuances com que o género se estiliza. Desde simplesmente a mais básica formula rock, ao post-hardcore, ao grunge, ao punk, o novo álbum de Lucas e Ryan Harding é um colosso descomunal que precisa apenas das cordas de Scott, as vocais e as outras, e de uma máquina de demolição em formato de bateria para se afirmar como um dos grandes discos de rock em bruto do ano. Para quem ama Queens Of The Stone Age, Soundgarden, Royal Blood e Foo Fighters? Não, um disco para quem ama o espírito inegualável e inquebrantável do rock. Fuck yeaahhh!!!!

Midwife – Forever (The Flenser)

Dizíamos nós em Fevereiro quando apresentamos a banda de Madeline Johnston que «Os amantes despedaçados e os amantes de Grouper, Daughter, Slowdive ou Beach House podem descobrir na música de Midwife os restos de um naufrágio parecido com o seu. A miséria gosta de companhia, não é? O caminho para fora dela tem na música de Madeline uma das melhores companhias que vão ouvir este ano.» Isto ainda sem o novo disco de Midwife ter saído e por alturas do lançamento do primeiro single “Anyone Can Play Guitar” deste Forever. Poucos meses depois a certeza que este seria o disco de excelência de uma artista que vai encontrando de forma cada vez mais clara a sua voz, uma voz triste, distorcida, inigualável e de rara sensibilidade.

Orkesta Mendoza – Curandero (Glitterbeat Records)

Trump quer muros, a gente dá-lhe uma fronteira para ele se manter do lado de lá. Directamente do coração da alma mexicana, Sergio Mendoza dos Calexico mistura e volta a dar aquele cocktail ranchero que a sua outra banda tem andado a destilar nas pipas de madeira carregadinhas de tequilla. Mas desta vez o sombrero fica principalmente do lado de lá em território mariachi. Curandero pode ser o disco perfeito para os dias de correm, exactamente porque não corre, desfila entre os ritmos latinos, o texmex, a cumbia, permitindo que um rock’n’roll com décadas a aprimorar e a música negra norte-americana atravessem a fronteira de quando em vez para se colocar ao serviço de sua majestade, a herança profundamente riquíssima de um povo habituado a festejar para esquecer. As fronteiras servem para isto, para serem atravessadas e deixarem descobrir um admirável mundo que felizmente insiste em ser novo.

Pokey LaFarge – Rock Bottom Rhapsody (New West Records)

Se alguém dissesse que por detrás da mascarilha de Orville Peck quem lá estava era Pokey LaFarge havia grandes possibilidades de se acreditar. Rock Bottom Rhapsody alimenta-se do mesmo fuel para o mesmo cadillac que Peck conduz desavergonhadamente na highway 66 da memória da música rock norte-americana. Pokey – o nome, só o nome, diz tanto – coloca o seu melhor fatinho de rock’n’roller mobster para se relançar no mundo dos vivos depois de uma fase problemática depois de ser mudar do Missouri para Los Angeles. O espírito de St. Louis continua a ser a linha que lhe costura as canções que vão facilmente do imaginário de Roy Orbinson e Presley ao de Dylan com a facilidade com que se entorna mais um copo de whiskey martelado. LaFarge apropria-se das décadas entre 30 e princípios de 60 para um som dourado onde o jazz dança com o rock’n’roll sem se deixar de passar por uma noite de desgraça em New Orleans ou num cabaret cheio de dançarinas burlescas em Paris ao som de uma chanson. Literalmente um disco fora do tempo ainda que para apreciar com tempo.

sundots and the carpet storesundots and the carpet store (Hibernation Circle)

É como se estivesse a chover. Não gotas liquidas, a chover farrapos de pequeninas naves especiais conduzidas por insectos minúsculos vestidos de filamentos de luz e de um sonho de crianças.  Se um dia tivessem andado, num infantário improvisado nos arrabaldes de Oz, onde se ensina a arte de brincar paralelamente à arte do slowcore, os Luna, os Galaxie 500 e a parte infantil dos Mercury Rev e dos Flaming Lips se calhar era assim que soava. Os sundots and the carpet store são pequenos tecelões de camadas noisy bonito, de experimentações e de frágeis joias de lo fi. Um disco surpreendente de uma banda misteriosa e com informação ao nível do zero disponível na internet. Voltaremos a eles com mais profundidade assim que se conseguir escavar mais alguma coisa.

Trace Mountains – Lost in the Country (Lame-O Records)

Sim, podes-te perder facilmente por zonas campestres ao som do disco novo dos Trace Mountains. Também te podes perder por terrenos floridos de sonho, por monumentos urbanos banhados a luz do sol, dourado e acolhedor. A banda do ex-LVL UP, Dave Benton, lança o seu terceiro álbum Lost In The Country, confirmação da capacidade de escrever canções sensitivas e melancólicas que apesar do sentimento bucólico constante que atravessa a sua discografia, não se permite a tristezas ou lamentos. A nostalgia é a fruta da época colhida, não só de arbustos férteis em folk, mas também numa desconstrução melodiosa de heranças dos Velvet Underground e de muito do indie rock e do midwest emo mais planante da década de 90. Se no campo a conexão natural é muito melhor do que o wi-fi da cidade, os Trace Mountains fazem em Lost In The Country um álbum para quem ama The War on Drugs, Whitney e American Football.

Lê também:
7 discos da semana de 29 de Março  que devias ter ouvido!

7 discos da semana de 05 de Abril que devias ter ouvido!