Mais sete dias passaram, mais centenas de discos aterraram em cima da mesa e mais sete dias passaram com o tempo suspenso em si mesmo, permitindo uma pausa na vida costumeira. Os motivos continuam a ser os piores, mas há sempre bens que vêm com os males, há sempre flores que nascem nas cinzas e há sempre nestes dias enormes espaço para nos reencontrarmos com a arte. Portanto “Let It Be”!

São dez os discos essenciais desta semana. Desta vez, escolhemos os discos de Activity, Catholic Action, Cucina Povera, Dana Gavanski, Deeper, Jacaszek, Mamaleek, Matt Elliott, Windy & Carl e o álbum de estreia dos portugueses From Atomic como aqueles que não devem deixar de ouvir. A escolha de links para a escuta dos discos recai sempre que possível no Bandcamp, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

From AtomicDeliverance (Lux Records)

A libertação pela força etérea do dreampop, a fuga pelo galope do post-punk, o ruído melodioso do indie rock do começo do século. Podiam ser de Manchester, podiam ser de NYC, mas não são, são de Coimbra, cidade de todos os rocks. Os From Atomic largam um disco de estreia altamente conseguido, sem vontade de seguir tendências, mas segurando firmemente alguns livros de estilo de forma inabalável. Se lhes disserem que em temas como “Heartbeat” há a memória de Karen O e dos Yeah Yeah Yeahs, deve estar tudo bem. Se lhes descobrirem a leveza sem corpo dos Cocteau Twins, o negro abanar das guitarras dos Interpol, a pendular hipnose dos Siouxsie & The Banshees ou a destreza de inventar melodia dos Jesus & Mary Chain, Raveonettes e House Of Love, também estará, provavelmente, tudo mais que bem. E se ainda lhes conseguirmos descobrir um legado luso que vai atrás a discos de 80 e início de 90 como os dos Diva e dos Mler If Dada, ficamos de frente para uma banda exemplar e que começa aqui, em Deliverance, a dividir os seus átomos até desencantarem um núcleo identitário muito pessoal e a deixar os seus passos bem marcados na terra.

Activity – Unmask Whoever (Western Vinyl)

Inesperado é provavelmente o adjectivo correcto e que mais vezes surge ao longo do corredor claustrofóbico que os Activity montaram em Unmask Whoever, disco de estreia de uma banda feita de partes já conhecidas de outras paragens. A banda de Nova Iorque é constituída por Travis Johnson e Steve Levine, ambos dos Grooms, a baixista Zoë Browne, dos Field Mouse e a guitarrista Jess Rees, dos Russian Baths. Construções avant-gard, sintetizadores minimais e gelados camuflados por um calor vivo e familiar e experimentação com formatos pop inquietos e nervosos, os Activity pensam musicalmente sobre a depressão, a paranóia, fake news e cobardia manipulativa, sobre a necessidade quase constante de um inferno para criar contraste e transformar os negativos da existência em fotografias e imagens de um céu que nunca é suficiente. Para quem ama Warpaint, Radiohead, Trentemøller e Low.

Catholic Action – Celebrated by Strangers (Modern Sky)

A celebração é essencialmente política. Os Catholic Action, banda da sempre muito interessante e recomendável Glasgow, atira com o seu retro indie-rock de inspiração glamish mas também muito feito de classic rock, contra uma parede para fazer um mural de rebelião. Quantas vezes é que já vimos gente a dançar em frente a piquetes policiais em manifestações? Pois, muitas! E os Catholic Action são a mais recente manifestação artística disso mesmo. A crítica, política e social, mete a sua melhor roupinha de saturday night indie fever e convida… convida não, exige, que o corpo seja uma bala. Estranhamente ou não, o ADN dos Franz Ferdinand sente-se e muito em Celebrated By Strangers, tal como se facilmente encontram paralelos na música do quarteto escocês de determinadas fases bowieisticas, das guitarras de Marc Bolan e dos T-Rex e da alegria dos The Kooks e dos Two Door Cinema Club. Tremendo disco de indie-rock britânico para celebrar no meio de estranhos… assim que nos distanciarmos do distanciamento social.

Cucina Povera – Tyyni (Night School)

A eterna – dentro de uma rede de pensamento contemporânea -, questão do embate entre o biológico e o artificial, o orgânico e o sintético, entre a natureza e a mecanização dos elementos básicos da vida no planeta. Maria Rossi, compositora finlandesa sediada em Glasgow, esculpe o seu terceiro álbum enquanto Cucina Povera como quem descobre a volatilidade da matéria sonora, desenhando-a de forma a chegar a pontos inacessíveis da mente e da alma humana de forma ambivalente entre o sagrado e o, graças a Deus, altamente profano. Tyyni refere-se, na língua mãe de Rossi, à serenidade do tempo, a calmaria climatérica e, neste disco, Maria, mãe de todas as tranquilidades, deita-se numa cama líquida de electrónica com ecos de muito do que se passava no berço da 4AD ou nos mais extraordinários momentos desviantes da WARP, para uma sessão de análise a um corpo em estado meditacional envolvido num líquido amniótico alienígena. Cucina Povera atinge, em Tyyni, pontos que vão para além do cósmico e do etéreo. Tema a tema, avança-se por estados interiores de elevação, de contacto com o Eu maior, passando fases como estágios de evolução interior. Para quem ama This Mortal Coil, Kaitlyn Aurelia Smith, Collen e Julianna Barwick.

Dana Gavanski – Yesterday Is Gone (Ba Da Bing Records/Full Time Hobby)

Despir canções, despir emoções e escrever. Yesteday Is Gone regressa ao tema nuclear de tantas escritoras de canções: o coração em pedacinhos. Ponto final numa relação, mudar de vida, mudar de cidade e escrever, simplesmente escrever e ver crescer poesia e canções, foi o que Dana Gavanski fez. E elas foram aparecendo, mais doces do que amargas, mais de construção e emancipação do que de lamento, dando formas novas a uma dor que ficou para trás como uma visão num espelho retrovisor numa descida a pique para um outro lado novo qualquer. Partindo dos princípios da folk, o acústico, o terreno e o natural, sem se acomodar a predicados, injecta a uma certa ruralidade nem sempre óbvia, o psicadelismo mântrico das batidas e das guitarras dos The Velvet Underground, mantendo-se sempre fiel aos concelhos de Vashty Bunyan e Linda Perhacs. A songwriter canadiana de origem sérvia faz assim um álbum positivo para quem ama Cate le Bon, Big Thief e Aldous Harding.

DeeperAuto-Pain (Fire Talk)

Não será muito comum chegar a um disco que vem com a tabuleta de post-punk e em vez de se ouvirem, enquanto potencial inspiração, as sementes daquilo que os Joy Division, The Sound e The Chameleons deixaram a crescer ao longo das últimas décadas, ouve-se a sensibilidade pop mais luminosa do trabalho dos The Cure, Devo e New Order. Os Deeper conseguem até invocar, por vezes, aquela amplitude pop que os The Killers herdaram e clonaram tão bem, tanto da banda de Robert Smith como dos Pet Shop Boys e dos Duran Duran. A banda de Chicago lança um segundo disco com a luta contra a depressão a acontecer na primeira pessoa: Michael Clawson, guitarrista fundador da banda, sai da banda durante o processo de gravação para combater a sua batalha no campo da saúde mental. Batalha essa da qual acabaria por sair derrotado, acabando com a sua vida. Mas não, Auto-Pain recusa-se a ser um disco de escuridão: o desespero que atravessa todo o alinhamento do álbum, escolhe agarrar numa paleta de cores mais ou menos ténues e encontrar uma porta para atravessar para o lado de lá.

Jacaszek – Music For Films (Ghostly International)

O título do disco não provoca qualquer tipo de equívocos. Aqui, de forma quasi-fúnebre, encerra-se uma vida de pautas direccionadas à sétima-arte, escritas pelo compositor polaco Jacaszek. Um disco que é em si mesmo um roteiro pelas emoções humanas menos graciosas, por paisagens desoladoras e geladas, construídas de forma intencional para vários filmes, mas que se entrelaçam umas nas outras em Music For Film como se fossem pensadas para serem este manto de tristeza e pesar que se perfila ao longo de quase 45minutos. Um disco pesado e emocionalmente avassalador, de contornos sagrados, rituais e cinematograficamente ricos e independentes que inclui peças escritas para filmes como NovemberHe Dreams of Giants e na série Golgota Wrocławska. Para quem ama Jóhann Jóhannsson, Ben Frost e Deathprod.

Mamaleek – Come & See (The Flenser)

Come & See é uma espécie de monstro sedutor que envolve e esmaga sincopadamente até não se perceber bem de que são feitos os seus perfumes letais e o porquê dos martelos pneumáticos destilarem um estranho odor a flores de cemitério. A estética sonora dos dois irmãos anónimos que dão vida a este Frankenstein brutal deixa as suas vítimas à mercê dos membros tenebrosos da música, envolvidos irreparavelmente nos braços e tentáculos feitos de noise rock a transmutar-se em black metal pelas artes ocultas do jazz e do blues. Todas as regras de todos os géneros são subvertidas a um ponto practicamente doentio enquanto as canções – se é que não há lei nenhuma que impeça de chamar monumentos como “Cabrini-Green”, “Street Nurse” ou “We Hang Because We Must” de canções -, se empilham umas em cima das outras, construindo um monumental muro de peso. Os Mamaleek analisam e reflectem sobre a forma como a arquitectura cinzenta dos bairros sociais e camarários influenciam de forma emocional aqueles que os habitam e as marcas que acabam por deixar. Esperavam metafísica e ocultismo? Não, é arquitectura e impacto psicológico dos socialmente arredados para as periferias de tudo. Imponente, verdadeiramente imponente!

Matt Elliott – Farewell To All We Know (Ici d’ailleurs)

Matt Elliott tem vindo desde a segunda metade dos anos 90 a desenhar um mapa absolutamente seu no panorama alternativo. Indiferente a tendências e a necessidades ocas de catalogação, o músico de Bristol vive num sombreado criativo-acústico no seu sentido mais pleno. Mas será Elliot um músico de folk? Talvez não, com certeza que não, provavelmente não. Farewell To All We Know acrescenta-se com todo o sentido lógico ao seu percurso discográfico. Se no disco de estreia a solo em 2003, The Mess We Made, havia uma ponte que o atravessava e lhe permitia ir buscar ao seu projecto primordial – os The Third Eye Foundation -, um espólio de electrónica, de trip-hop e experimentalismo, daí em diante o corpo e a substância da sua música foi-se despindo e despindo e despindo num strip-tease emocional e comovente. Com este conjunto de canções de nevoeiro, canções sem tempo, mas de mão dada com um certo renascentismo barroco, Matt Elliot reconduz-se a si mesmo à proa de um navio que deambula por entre bosques no qual é capitão e timoneiro indiscutível, um génio nem sempre compreendido, nem sempre reconhecido. Com uma alma do tamanho de Leonard Cohen e Nick Drake, Elliot e Farewell To All We Know são duas faces de uma mesma moeda que deve ser louvada por quem ama Bill Callahan, Dakota Suite e uma folk não folk medieval.

Windy & Carl – Allegiance and Conviction (kranky)

Windy Weber e Carl Hultgren são veteranos na arte de fazer dreampop. De uma forma mais abstracta e geométrica que os seus pares das décadas de 90 e 80, mesmo enquanto herdeiros da ideologia sonora dos Cocteau Twins, Pale Saints e Durutti Column, os Windy & Carl sempre preferiram edificar os seus sonhos usando ou ruído, ou linhas direitas de som. Mais preocupados em criar habitações mais concretas para o som viver do que espaços etéreos e incorpóreos onde o deixar a pairar, o casalinho do Michigan absorve todas as directrizes da escola britânica – em particular da 4AD -, e redireciona-as para as manipular a seu bel prazer. Um dos projectos embrionários da cena norte-americana que acabou por se tornar o pontapé de saída para o post-rock, os Windy & Carl regressam aos discos três anos depois de Blues for a UFO. Um disco laboratorial de paisagens com vista para um horizonte não muito aberto em que o drone ganha espaço, retirando o conforto habitual do dreampop e do spacerock, recontando a própria história da banda. Os ambientes são herméticos, mas é permitido ao material plasmático voar no perímetro previamente estipulado. As linhas que fazem esta câmara de som são rectas mas voláteis, e as músicas são do mais alucinogénio que os Windy & Carla já fizeram ao longo de quase 30 anos. Um sério candidato aos lugares cimeiros das listas de melhores discos do ano.

Lê também:

11 discos da semana de 22 de Março que devias ter ouvido! 

11 discos da semana de 15 de Março que devias ter ouvido!