E se a música é um quase tudo para encher os dias que estão lentos e compridos, a descoberta de novos discos e de bandas fora dos trilhos mais hyped da cena independente é uma dádiva desses mesmos dias lentos e compridos. Uma semana com tantos e tantos discos, rica em lançamentos, deu esta lista de 11 discos que aqui vão em baixo.

São onze os discos essenciais desta semana. Desta vez, escolhemos os discos de Anna Burch, Clarice Jensen, Emilie Zoé & Christian Garcia-Gaucher, ES, Félicia Atkinson, Leo Abrahams & Shahzad Ismaily, Locate S.1, Melkbelly, Mentrix, Violent Soho e o impressionante disco de estreia do português FARWARMTH na Planet Mu, como aqueles que não devem deixar de ouvir. A escolha de links para a escuta dos discos recai no Bandcamp, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

 

Anna Burch – If You’re Dreaming (Polyvinyl Records)

Se estás a sonhar o melhor é continuar nesse estado porque o disco novo da Anna Burch esticou uma tela perfeita para se ir pintando as mensagens que chegam desse lado maravilhoso e misterioso do sono. E não, Anna não deixou as suas canções devedoras de muitas horas em redor de discos dos anos 60 e algumas – muitas – a tocar rock alternativo dos anos 90 e trocou-as pelos livros de instruções dos Beach House, Cocteau Twins e Slowdive (ok, talvez tenha dado uma ou outra escutadela na banda de Rachel Goswel). Não, Anna regressa ao seu som de sempre construido em bases de folk colhendo pelo caminho ligeiras pétalas de jazz, um ou outro pé de pop florido e levando-os para um espaço interior de isolamento e reflexão. Canções imaculadas com todos os detalhes do som e das palavras trazidos para a camada superior da pele. Que bonito disco, Anna, que bonito!

Clarice JensenThe experience of repetition as death (Fatcat Records)

Lugar-comum ou não, obras como The Experience Of Repetition As Death de Clarice Jensen são objectos meditacionais de recolhimento e encantamento. A violoncelista e compositora norte-americana eleva-se ao panteão maior de músicos clássicos contemporâneos e de experimentalistas electrónicos com estas cinco obras-primas de drone, electrónica e classicismo sideral, colocando-se ao lado de nome como Jóhann Jóhannsson, Dustin O’Halloran, Max Richter – tendo já colaborado com os três – Ben Frost e Beatriz Ferreyra enquanto exponentes supremos desta estranha arte de fazer cinema sem imagens. Jensen tem a sua arte espalhada pela música de Björk, Arcade Fire, Nick Cave, Jónsi, Stars of the Lid, Joanna Newsom, Nico Muhly, Dirty Projectors, Frightened Rabbit e Beirut. The experience sucede ao disco de estreia de 2018, For This From That Will Be Filled.

Emilie Zoé & Christian Garcia-Gaucher – Pigeons : Soundtrack for the Birds on the Treetops Watching the Movie of our Lives (Hummus Records)

O cinema e a música estão interligados desde os tempos em que a 7ª arte ainda não tinha som e voz, e as vezes em que uma influência a outra são por demais incontáveis. Os suiços Emilie Zoé e Christian Garcia-Gaucher deram uma volta numa máquina do tempo e regressaram a 2015 para escrever uma banda sonora alternativa para o filme A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence de Roy Anderson. O disco parte de um convite feito há dois anos pelo festival 2300 plan 9 à Les Étranges Nuits du Cinéma para Zoé escolher um filme e escrever a banda-sonora de raiz, com a escolha a ser justificada pelo ritmo hipnótico, a atmosfera reflexiva e as cores baças do filme. A música que Zoé e Garcia-Gaucher criaram deambula entre um lo-fi radioheadesco pontuado pelos imaginários mais cinematográficos – pois claro – de bandas como os Lanterns On The Lake, dEUS ou Low e uma sintetização pop que podia ser confundida a espaços com o imaginário dos Stereolab não fosse a melancolia arrastada constante de Pigeons. Canções semi despidas de grandes artefactos além de uma tristeza intrínseca a quem está lá em cima a ver o filme das nossas vidas.

Es – Less of Everything (Upset the Rhythm)

Post-punk como mandavam as regras do género na sua época áurea. Ritmicamente cambaleante, linhas de guitarra cortantes, uma atmosfera rude e claustrofóbica, um sentimento transversal de se entrar num submundo underground pouco acessível e num estado critico de perigosidade e aquele baixo grosso e sujo que atravessa todos os melhores hinos do punk intelectualizado e libertário. As Es são londrinas e herdeiras de uma outra forma de post-punk menos visível, aqui os ecos chegam em reverberações de tempo entre perfumes gothic rock e a revolta rasgada do anarco-punk e da obra dos Lords Of The New Church, X-Mal Deutschland e Malaria!. Para quem acha que agressão e minimalismo nunca se podem encontrar no mesmo campo de batalha e do mesmo lado da guerra, as Es lançam um disco de estreia absolutamente contrário. Um documento muito especial de um género que vive miseravelmente feliz no submundo.

FARWARMTHMomentary Glow (Planet Mu)

O português Afonso Ferreira é Farwarmth, mas é também parte das duplas HRNS – cujo disco do ano passado foi um dos nossos 270 discos de 2019 que devias ter ouvido e não ouviste… ou ouviste?, PURGA e do coletivo 00: NEKYIA. Um nome a registar e a manter nas proximidades de quem ama Tim Hecker, Fennesz, Ben Frost ou Oneohtrix Point Never. Em Momentary Glow, disco de estreia na Planet Mu (Jlin, Venetian Snares), o músico lisboeta tece camadas de rendilhados electrónicos processados e digitalizados das fontes primordiais que foi recolhendo ao longo de quatro anos. Gravações de amigos e familiares a tocar violoncelo, flauta e acordeão e peças gravadas por ele num teclado durante uma residência artística formaram a base da pirâmide cósmica que se tornaria neste monumento sintético que ele mesmo afirma ser “completamente enraizado na terra, mas aspirando aos céus numa procura eterna por ar”. O brilho é mais que momentâneo, é algo que perdura no tempo independente do espaço e da atmosfera oxigenada para se manter ao longo de toda a rota até ao centro infinito do universo de Farwarmth. Um dos maiores discos do ano em Portugal e muito mais além.

Félicia AtkinsonEverything Evaporate (Shelter Press)

Inspirado e dedicado à pintora expressionista abstrata Helen Frankenthaler, Everything Evaporate é mais um capítulo na discografia incontornável de Félicia Atkinson. Aqui a francesa explora os espaços intermédios entre o sonho, a memória e vida acordada recorrendo à manipulação sonora de gongos, sinos, piano e marimbas entrelaçados de forma asfixiante nos suspiros frios e assombrados das palavras na sua voz. Ao longo dos cinco temas que fazem o corpo do sucessor de The Flower And The Vessel – um dos nossos 270 discos de 2019 que devias ter ouvido e não ouviste… ou ouviste? -, o som encaminha a estados alterados de consciência, induz ao sono e ao sonho e abre as portas ao lado de lá onde residem as respostas, as visões e a capacidade de entender os caminhos da mente e da alma. Disco a disco, Atkinson vai-se transformando num livro de história a ser estudado dentro de décadas, irrefutávelmente uma das maiores compositoras do começo de milénio.

Leo Abrahams & Shahzad IsmailyVisitations (figureight)

Um disco de guitarras, mas não um disco de guitarras como um disco de guitarras quando se fala de … discos de guitarras.  Exploratório, Visitations desenvolve-se através de trilhos misteriosos que se vão cruzando e entre cruzando em cruzamentos de leitura aurais do ADN criativo do inglês Leo Abrahams e do norte-americano Shahzad Ismaily, fundador da figureight records, casa de Gyða Valtýsdóttir dos múm e de JFDR de Samaris, Pascal Pinon e Gangly. Abstracto e experimental, o disco de estreia do duo absorve pelos poros suaves de cada tema o espírito da folk e da música improvisada, largando-os depois para uma polinização subtil dos sentidos que requer um momento de pausa. Das formas secretas que existem para contar em dissonâncias todos os nascer da noite e enumerar a luz de cada por do sol, Visitations descobre-as todas. Para quem ama Six Organs Of Admittance, Bill Orcutt e Jim O’Rourke.

Locate S,1Personalia (Captured Tracks)

Depois de uma actuação a solo em 2018 onde foi constantemente interrompida por um público mais interessado em conversar do que ouvir e respeitar, Christina Schneider abandona o palco e decide terminar a sua carreira na música. Não é para isto que um músico trabalha e enough is enough! Estamos todos contigo, Chris! Mas ao chegar a casa depois dessa noite, a songwriter norte-americana decide que ah mas só que não e o ponto final transforma-se numa reinvenção. Com o foco posto na pop dos ABBA ou nos mundos mágicos de Kate Bush, Schneider regressa à escrita, mergulha a fundo nesse estranho, volátil e ambíguo estilo e avança para a construção deste Personalia, uma glorificação do que é importante para um músico: o processo criativo acima de tudo. Com a ajuda preciosa de Kevin Barnes dos Of Montreal – que assina um dos temas com Christina, “Even the Good Boys Are Bad” e toca no disco todo -, Personalia levanta-se como um hino pop de alto astral, de recuperação e autoafirmação cheio de elementos psicótropicos, psicadélicos, disco e muito, muito, muito deliciosa e escancaradamente pop. Put on your dancing shoes!

MelkbellyPITH (Carpark Records)

Agora sim, um disco de guitarras daqueles discos de guitarras a sério quando se fala de discos de guitarras. Pedais a ditar o peso, a fórmula infalível do pára/arranca, aqueles refrões que explodem para depois serem engolidos em linhas melódicas. Os Melkbelly carregam no sangue os mesmo componentes químicos que fizeram de bandas como os Hole, as Babes in Toyland, as Breeders e Throwing Muses os marcos do rock alternativo que se tornaram. As letras são contos estranhos que Miranda Winters, voz e caneta dos Melkbelly, resume como histórias negras para crianças impróprias para crianças, rasgadas por cima de um jogo de guitarras seco e sujo e cortante. O rock puro e duro até à medula é assim, não precisa de muitas palavras para o descrever. É ouvir se forem meninos sem medo de histórias para meninos com medo.

MentrixMy Enemy, My Love (House of Strength)

My Enemy, My Love não é um feitiço persa, é um livro de encantamentos nascido de uma filha da poesia de Rumi. Samar Rad escreve música electrónica de raízes iranianas, de ritmos tradicionais entrançados em harmonias e melodias típicas do país que a viu nascer, tingida pela modernidade da tecnologia ocidental. Apaixonada pela percussão através dos ensinamentos do sufismo islâmico, Mentrix cresce entre França e Teerão, absorvendo todos os ensinamentos que cada uma das culturas tinha para lhe oferecer. Tribal e religioso, futurista e aglutinador, vanguardista e tradicional, o álbum de estreia – Samar tinha já lançado os EPs Nature de 2018 e Dreams de 2019- perfila-se como um ponto critico nos mundos da fusão da electrónica com a música de carácter regional. Comovente e poderoso. É SÓ isso, comovente e poderoso!

Violent SohoEverything is A​-​OK (Pure Noise Records)

Disse alguém que é como se fosse 1991 all over again num comentário ao disco no Bandcamp. E é mesmo, mas não é só! Everything is A​-​OK reúne em si mesmo tanto rock que é complicado circundar os Violent Soho a um só espectro de som. Se em 2013 – dávamos nós os nossos primeiros passos – se escrevia na review a Hungry Ghosts que era “fácil aproximar os Violent Soho de uma sonoridade familiar ao rock dos anos 90 (especialmente ao universo Nirvana e rock independente) mas, na verdade, é redutor fazê-lo. Não porque sejam uma má memória (antes pelo contrário), mas porque se sente que os Violent Soho são uma banda coesa que toca rock inteligente e, melhor do que isso, com toda a naturalidade e honestidade que se quer”, agora, 7 anos depois, resta reafirmar a declaração e louvar a fidelidade que os Violent Soho têm a si mesmos. Um disco de guitarras e barulho e poder e, aquela coisa tão australiana, luz e alegria.