Abrimos com 7 discos um dos novos espaços da nova velha Tracker. Todos os domingos à noite olharemos para álbuns que a semana que termina deixou pelo caminho. Este é o espaço para dar espaço a títulos que facilmente são engolidos pelo esquecimento dos algoritmos e de outros ritmos e tendências.

Se esta semana os lançamentos de The Men, Tame Impala ou Tennis foram cabeças de cartaz de uma lista cada vez maior de lançamentos, o certo é que nas margens encontram-se tantas outras maravilhas. A nossa escolha de discos que não deves deixar de ouvir segue em baixo com os Bambara, Che Noir, Cindy Lee, God Damn, The Heliocentric, Katie Gately e Post Animal. Mais uma vez a escolha de links para a escuta dos discos recai sempre que possível no Bandcamp de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

BambaraStray (Wharf Cat Records)

A música dos Bambara é uma noite longa que se recusa a terminar cedo e com a visão clara. É também um manancial de dualidades que se equilibra constantemente entre o terminalmente ébrio e o irresistivelmente lânguido. A fórmula é óbvia, e a equação seminal do rock em que basta uma bateria, uma guitarra e um baixo a criar o motor em que a voz acelera, abranda e cambaleia, é relembrada a quem proclama a falência dos orgãos vitais do género. A vida é longa e pouco sóbria! Stray, o quarto disco dos gémeos Reid e Blaze Bateh e de William Brookshire, afirma-se como a obra maior do trio sediado em Brooklyn, flutuando – tanto quanto é possível flutuar num trabalho deste peso e densidade -, entre vultos de ruas sujas e decadentes onde ecoam os rasgos estilísticos de rock noir, de western gothic, de post-punk, de um carismático e distinto tipo de crooning e de ambiências noise de cabaret. Um álbum em que os Bambara escolheram o caminho menos directo para o coração negro dos melhores trabalho, que o início deste ano acolhe, e que abraçaram a vontade de experimentar. A morte serve de mote e abre novos caminhos para o storytelling dos Bambara.

Che Noir – Juno (Air Vinyls)

Che Noir é um nome menos imediato no mundo do hip-hop. Com esse menor mediatismo vem também uma necessidade urgente de se colocar a lupa sobre as rimas e os beats da rapper de Buffalo. O modelo não é novo, a forma é clássica mas o talento bruto e natural de Che Noir realça a força e o brilho que uma simples forma de criar boom bap e soul atemporal mas perfeitamente identificado com sonoridades e temáticas contemporâneas (ou serão também elas intemporais pelas piores razões possiveis) sobram e bastam para se destacar nos mares pejados de concorrência do hip-hop em 2020. A voz de Noir dá voz ao contínuo estado de outcasts da comunidade negra (ou da comunidade não branca e não rica nos Estados Unidos), do crescer com vista para a vida real das ruas e deambula ao mesmo tempo por águas interiores profundas com uma singularidade e um à vontade acessível apenas a quem tem um dom muito especial. Em Juno, o terceiro longa-duração – os dois primeiros, Thrill of the HuntThrill of the Hunt 2 são ambos de 2019 e todos são produzidos por 38 Spesh – Che Noir afirma-se clássica como todos os elementos da mitologia grega que trouxe para as capas de todos os seus álbuns e sem vontade de ser nada mais do que aquilo que é sem contemplar facilitismos ou sem vergar à imagem e ao som estereotipado da mulher no hip-hop… damn, da mulher no geral e sem fronteiras. Poderoso como uma deusa da palavra e única como Yugen Blakrok. Se a primeira subiu com facilidade aos lugares cimeiros dos melhores discos do ano passado, Che sacou com Juno o seu lugar nos deste ano.

Cindy Lee – What’s Tonight To Eternity (Superior Viaduct)

A forma mais simples de entrar em What’s Tonight To Eternity é com a consciência que se vai entrar num terreno pantanoso e bizarro de pop. Pop segundo todas as normas de como não se fazer pop mas ainda assim pop. O ruído é senhor, a viagem no tempo até aos anos 60 é feita com um bilhete para uma máquina do tempo escondida numa cave cavernosa, a beleza é estranhamente apelativa. A comparação pode ser óbvia mas é certeira, e trazer o universo lynchiano à baila desta dança é essencial. Ao quarto disco de originais, Patrick Flagel, ex-Woman, limpa as arestas mais que rudes e brutas dos discos anteriores e veste-o dessa tal pop, tornando-a em fantasmas de produção suja mas com contornos ainda assim mais claros e quase pálpaveis. Se for possível imaginar um mundo onde as Ronettes ou as Shirelles dão de caras com um choque frontal de música de igreja e o caos noise dos Sonic Youth num dia particularmente fora da caixa, começa-se a ter a noção que a eternidade dos Cindy Lee – ou de Cindy Lee, se possível for distinguir a fronteira entre a identidade drag de Flagel e este projecto que partilha com o seu irmão, Andrew Flegel – começa oficialmente aqui. What’s Tonight To Eternity vive enquanto uma banda-sonora doentia e deliciosa que vai marcar com certeza quem aceite a existência de algo mais entre o céu e a Terra… um inferno excêntrico de prazeres nada delicados de pop.

God Damn – God Damn (One Little Indian Records)

Goddamn! Se o rock’n’roll ainda servir em 2020 para salvar alminhas – claro, que serve 😉 – os God Damn são uns dos melhores emissários do estilo a descer à terra nos últimos tempos. A assumirem-se enquanto duo de guitarra e bateria depois de um acidente de automóvel que atirou o baixista para um longo processo de recuperação, a banda inglesa volta ao formato inicial e segue implacável, veloz, feroz e a borrifar-se positivamente para modas e tendências. O seu som persegue demónios com o grito no canto do olho e a herança que é cada vez mais uma amálgama de doações deixadas pelo caminho seja pelos heróis de Seattle ou pelos clássicos antigos e modernos do rock, do punk e do metal. Este disco homónimo dos God Damn tanto deixa escorrer a seiva dos Mudhoney e dos Queens Of The Stone Age como dos The Who e dos Black Sabbath e, goddamn, até mesmo dos Stripes, de Jack White. Mas nesta altura do campeonato os God Damn já entram em campo a golear por 3 ou 4 e as comparações servem mais como farol para os distraídos. Por aqui pensa-se à bruta sobre a companhia que a religião faz à política e vice-versa, sobre espiritualidade e o bem e o mal, sobre o mundo e o estado social, sobre nós, sobre ti e sobre a merda que andamos todos a fazer em nome de um bem menor. Goddamn, isto é bom de mais!!!

The Heliocentrics – Infinity Of Now (Madlib Invazion)

Quando Madlib diz jump, nós dizemos how high! A Madlib Invazion é a editora do produtor e rapper californiano fundada em 2010 onde ele tem deixado discos assinados com a sua pena e abriu agora as janelas para deixar entrar o bafo quente que os The Heliocentrics sopram pelo plano infinito fora. A banda fundada em 2007 pelo baterista Malcolm Catto reconceptualiza a definição de o que é ser musicalmente irrequieto e chega ao décimo álbum com isso em pleno estado de ebulição. Se a base está no jazz e na multiplicação das músicas negras, o certo é que a banda de Londres atira-se a tanta coisa que é impossivel agarrar uma ideia que sirva para os categorizar. Metam no caldeirão mágico do psicadelismo dose iguais de Sun Ra e Stevie Wonder ou Funkadelic, acrescente-se um apurado sentido cinemático e uma série de mapas do mundo com uma pitada de kraut, electrónica, música étnica e música clássica contemporênea, e a infinitude ganha agora um sentido… um sentido e uma consciência de que se está perante uma obra notável de uma banda notável e colossal. Heliocentrismo significa para quem se aventurar em Infinity Of Now um movimento de aproximação a um centro nevrálgico essencial na discografia de 2020.

Katie Gately – Loom (Houndstooth)

Um disco nascer como processo de catarse ou de forma de lidar com dor, perda ou desorientação, não é de todo coisa que surpreenda e até se poderia discutir se não serão estas algumas das melhores fonte de inspiração do processo criativo. No caso de Loom, o segundo longa-duração de Katie Gately, a discussão seria absolutamente inglória já que mostra um outro lado da compositora norte-americana. Se no disco de estreia, Color de 2016, Gately construia e desconstruia ângulos semi-desconexos de pop electrónica anti-minimalista carregados de texturas e formas vanguardistas de pensar as canções muitas vezes positivamente desengonçadas, em Loom Katie atravessa a ponte para o outro lado. Inspirado e escrito depois da sua mãe ser diagnosticada com um raro tipo de cancro, a californiana entrega-se à dor e abusa dela. Da pop que era quase luminosa – mas não tanto assim -, Gately avança agora para a visionalização da mesma por um prisma barroco, de camâra, pós-industrial, sofrido, mecânico mas sensitivo. Loom é um disco pensado e repensado, intuitivo no peso mas laboratorialmente concebido. O uso de gravações de tritutadoras, pás, tremores de terra e de guinchos de pavão prova o quanto de concreto e orgânico Loom é composto. Um álbum para situar entre a obra de Holly Herndon, Anna Von Hausswolff, Múm, Julianna Barwick e, a heresia é coisa que nos apraz, da diva teenpop Melanie Martinez. O X marca o lugar e é nesse mundo negro e abrangente que o dark pop arquitetónico de Katie habita.

Post AnimalForward Motion Godyssey (Polyvinyl Records)

Para a frente é que é caminho e os Post Animal desbravam um muito deles ao segundo álbum. Forward Motion Godyssey é realmente uma odisseia de rumo indefinido mas firme. Se alguém nos viesse dizer que o termo prog poderia ser atribuido de forma descarada a uma banda que milita nas fileiras da Polyvinyl Records – que nos deu no ano passado aquele que foi para nós o disco do ano -, a medalhinha de louco do serviço era automaticamente atribuida mas a verdade é que os miúdos de Chicago sacaram da sua cartola psych uma lagarta fumadora de substâncias altamente diversificada no que toca a resultados. Os Post Animal pegam em algumas das directrizes dos King Gizzard atravessam-nas de esguelha com ambientes floydianos e enrolam-nos numa mortalha de rock progressivo completamente inesperado e surpreendentemente bem em cheio no alvo. Da pop ao indie rock, do prog ao rock clássico, da canção directa ao virtuosismo, a complexidade de Forward Motion Godyssey não compromete de todo a espinha dorsal psicadélica do agora quinteto e amplifica-a para um novo universo… ou deveríamos chamar-lhe um upside world já que os Post Animal tinham como um dos elementos fundadores Joseph David Keery de Stranger Things?