A manhã de sábado, 2 de Junho de 2018, data marcada para a tão sonhada estreia do Quicksand em terras brasileiras, começou para os fãs da banda tal qual o dia de excursão da escola para o parque de diversões, cheia de ansiedade para o que viria mais tarde. Afinal, as músicas do antes quarteto e hoje power-trio nova-iorquino (o guitarrista Tom Capone foi preso por furtar uma loja em 2017) capitaneado pelo onipresente guitarrista e vocalista Walter Schreifels (Youth of Today/Gorilla Biscuits/Rival Schools), e que conta ainda com o baixista Sérgio Vega (Deftones) e o baterista Alan Cage, impregnaram a década de 1990 de brutalidade melódica é pura passionalidade.

Enquanto a galera que chegou cedo aquecia o final de tarde gelado da cidade de São Paulo nos botecos dos  arredores, do outro lado da rua, na porta do Fabrique Club, o pessoal do Eu Serei a Hiena aguardava em clima de despojo o horário de subir ao palco para fazer seu tão aguardado show de reunião. Já dentro da casa, com seu ar-condicionado congelante e paredes de tijolinhos elegantemente rústicos, emanava dos alto-falatantes Dinosaur Jr, At The Drive-In e Led Zepellin, a trilha sonora de encontros entre velhos amigos. 19h15 e começa o show.

Com o público ainda chegando, o Eu Serei a Hiena, conceituadíssima banda paulistana de post-hardcore que acaba de romper um longo hiato, reunindo-se para uma mini-turnê, destilou seu som instrumental com energia sobre-humana e entrosamento que contraria qualquer vestígio do tempo parado. A sonoridade proposta pelo quarteto formado por Fausto, Wash, Nino e Juninho é capaz de fazer o espectador transcender, entre paisagens e labirintos, puras melodias idílicas entrecortadas por arroubos de agressividade roqueira.

Dentre os temas executados, “Yes (I Do)” de Hominis Canidae de 2009, segundo disco da banda, ganha versão ao vivo mais encorpada do que a de estúdio, que conta com o vocal da cantora Bluebell. O repertório incluiu pequenos clássicos como o petardo torto “Chotto Machiggate Iru”, do disco de estreia autointitulado e “Sob Influência do Teste Voight-Kampff”, do segundo. Aliás, este foi um dos poucos momentos de interação entre banda e público, e serviu para o baixista Wash anunciar que o futuro da banda é incerto, agradecendo a todos a presença. Em pouco menos de uma hora de dissonância e coesão, a apresentação chega ao final com “Asterix”, faixa do primeiro álbum que conta com a presença do Rodrigo, vocalista do Dead Fish. Aperitivo com cara de prato principal, o Eu Serei a Hiena desempenhou com louvor seu trabalho de esquentar o público já em bom número para a atração principal da noite.

Pausa para reabastecer a comanda, pegar uma bebida, que ao contrário de algumas casa de show paulistanas, estavam com preços surpreendentemente convidativos. Eis que um roadie cabeludo com cara de headbanger faz os últimos ajustes nos instrumentos para delírio do público, agora em grande número. 20h57 e o que era impensável há alguns anos, iria finalmente acontecer.

Com um “E aí, galera?”, em português macarrônico e repleto de simpatia, Walter Schreifels deu início à comunhão que todos tanto ali aguardavam. Já nos primeiros acordes de “Omission”, faixa de Slip, álbum de estreia do Quicksand lançado em 1993, o público berrava cada verso como se fosse possível capturar aquele momento e não deixá-lo ir embora nunca mais. Sérgio Vega e sua cabeleira azul empunharam o baixo como quem manuseia uma máquina do tempo capaz de transportar cada um ali para a adolescência regada à MTV Brasil em sua época áurea. Alan Cage espancava a bateria com tanto afinco e técnica que chegava a ser inacreditável tanta vitalidade após tantos anos de estrada. A sequência vindoura contou ainda com mais dois “Under The Screw”, e “Fire This Time”, do recém-lançado álbum Interiors.

Quicksand @ Fabrique Club

A entrega do Quicksand chega a ser absurda. Schreifels dança, ajoelha no chão, estende sua guitarra para o público, rebola e canta sorrindo. Um guitar hero improvável cheio de carisma e musicalidade. Vega dá aula ao harmonizar seus backing vocals suaves e enérgicos na medida, enquanto o discreto baterista entorta nossos tímpanos com precisão violenta. A próxima canção no setlist era “Fazer”, outra resgatada a Slip, é talvez a mais conhecida no Brasil. Foi como presenciar adolescentes de quarenta e poucos anos adentrando uma espiral, carregados pela emoção de tempos idos. Nostalgia sem o significado pejorativo que a palavra ganhou nos últimos anos. Sublime!

A apresentação seguiu com fôlego a mil . “Too Official”, “Lie and Wait”, “Delusional” e mais meia dúzia de clássicos. Já no bis, sem qualquer sinal de cansaço e com sorrisos mútuos, tanto banda quanto público em total sinergia encerraram o show com “Head to “Wall”, “Dine Alone” e “Skinny”. O vazio inevitável causado efemeridade do momento que sempre pega ao final de um grande show chegou, mas os 90 minutos anteriores ao último zumbido proveniente daquele palco permanece ainda nos ouvidos e na memória. Que momento. E que noite.

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