As irmãs Reis vêm-se cada vez mais próximas da Casa de Cima – o terceiro longa-duração e sequela directa de Alfarroba -, que entretanto já nos tinha aberto a porta com o infeccioso som de “Partir A Loiça”. “Cachupa”, o segundo avanço que nos é dado e aquele que desta vez nos calha antes do lançamento do disco a 2 de junho, é uma feroz e extensa música, principalmente destacada da primeira que se revelou pela sua relativa complexidade estrutural e pela sua duração. A canção vê a dupla brincar mais profundamente com o seu sentido de melodia e ritmo com as duas vozes, a guitarra e a bateria a saltar freneticamente umas junto às outras, dando prioridade à ginga e casando-a com uma abrasividade garage entregue numa particular e mágica forma de cantar e tocar cuja inerente doçura e urgência jovem levaram, provavelmente, à origem da descrição da sua música como dream punk.

Na verdade, tudo nesta nova canção é etéreo apesar de todo o rock circundante: “Cachupa” desenrola-se numa lógica de progressão, dividindo-se em várias secções que ora se afunilam ou alargam à medida que se unem pelo extenso meio círculo de um túnel que puxa a canção para a frente sem nunca lhe conter a essência; essência essa que nos faz perder nos seus reflexos e richochetes reverberados que brilham e pingam pequenos raios de luz. O símbolo exótico e familiar para o nosso imaginário poderia também indiciar, à partida, outras imagens a sair dos pulmões das duas cantoras, mas o que se encontra é uma muito particular associação metafórica que entretanto atesta o já peculiar e nem sempre claro estilo de escrita de Maria Reis – que aqui recebe a ajuda de nada mais nada menos que Fernando Pessoa com o seu poema, “Moinho de Café” a surgir recitado nos instantes finais altamente serenos e melodicamente épicos da canção.

A soar tão voadoras e intuitivas na forma como fazem música, as Pega Monstro trazem com esta “Cachupa” um lindo contraponto ao garage mais fervoroso e directo de “Partir A Loiça” que se apresenta mais na óptica de um malhão de festa com toda a diversão e rapidez que isso implica. Casa de Cima, que alude ao lugar onde algures em Sintra este álbum floresceu, terá depois do seu lançamento direito a um arraial de Santo António em sua honra, quando a 12 de junho as irmãs subirem ao palco para o apresentar no jardim do Palácio do Machadinho na companhia do DJ Tempos Livres e do alter-ego electrónico de B Fachada, Pato Bravo.