Felizmente, Patti Smith não sabe estar sossegada. E nós, os vivos, por cá agradecemos. Em merecido tributo a Nico, 28 anos passados da sua morte, chega-nos uma faixa acutilante, rica em nutrientes vários: “Killer Road”. Cuidado, ainda assim, com o estado de espírito em que se encontra o ouvinte…pode ser fatídico em manhãs de dose extra de melancolia.

Intensa e quente em todas as notas, com o pertinente reforço de Jesse Paris Smith, sua filha, e o trio Soundwalk Collective, composto por Stephan Crasneanscki, Simone Merli e Kamran Sadeghi, a música abre caminho para uma colaboração entre o grupo, com o parto de um álbum que conta com segmentos de instrumentais de Nico, bem como versos seus de vários anos vividos entre a corda bamba do estrelato, limbo carregado de areias movediças, e Patti, admiradora fiel do seu legado, legado esse que se destacou em áreas distintas.

Como Smith também cresceu e formou o seu pódio artístico e cultural através de todo um leque de interacções, Nico incluída nesse mar de vultos, esta faixa recorda-nos a fragilidade das relações humanas e das várias viagens que podem acabar por ser mortíferas, pejadas de obstáculos e tentações. Toda a vida é uma imensa viagem suportada por pequenos trajectos, uns mais perceptíveis que outros, e esta faixa encabeça uma road trip inevitável para quem nela navega.

A composição manifesta-se imediatamente intemporal, não se extinguindo na proposta da sua audição. Inclui previsões e compassos místicos em consonância com a presença icónica de Nico, frequentadora assídua das festas de Andy Warhol.

“Killer Road” diz respeito, primeiramente, à queda fatal de Nico em 1988, quando andava de bicicleta em Ibiza, e, em seguida, ao próprio percurso da sua existência terrena, que nunca foi senão boémio e cintilante, mas sempre caminhando em prol de um destino sublime, próprio dos humanos que se transcendem, um destino que, fosse qual fosse, seria o único possível.

Quatro minutos e meio de deleite com pitada patológica, tecendo um ambiente que nos envolve da cabeça à ponta dos pés, encontramos nuvens esvoaçantes que saltam do harmónio de Christa Paffgen e colam às cordas vocais de Patti Smith, citando versos de Nico, uma atmosfera estonteante, que nos embala e embriaga. Levitamos e deixamo-nos ir pelos contornos aparentemente calmos de tumultuosas emoções. O mar está bravo e acalma-se num ápice.

The killer road is waiting for you
like a finger, pointing in the night …
Who’s to blame?
I have come to die with you

Em interpretação livre de versos soltos e poemas organizados por Smith, surgem faixas em formato de instalação sonora ou paisagens móveis com ruído dentro. A performance no seu corpo rico tem outro tratamento em Smith, para quem a palavra é quase tudo na revelação da sua arte, tão essencial quanto viciante.

“Killer Road” já havia sido apresentado num festival em 2004, em Nova Iorque, enquanto experiência audiovisual. Presentemente, e com a versão de estúdio, temos a oportunidade de fechar no bolso o fatal desaparecimento de Nico ou celebrá-la com a sua aura fantasmagórica, mas imortal, na certeza de que a sua herança sobrevive e recomenda-se. E, graças a Patti Smith, ganha ainda um novo contorno, eternizando-se e abrindo alas para um Verão que se avizinha pouco manso no universo da música.

A Bella Union lançará, assim, o álbum de nove faixas já no início de Setembro. Aguardemos.

1. Killer Road
2. My Heart Is Empty
3. Evening Of Light
4. Saeta
5. Secret Side
6. Fearfully In Danger
7. I Will Be Seven
8. The Sphinx
9. My Only Child