Há entrevistas memoráveis por serem tão satisfatórias. Na estival noite do último sábado da Primavera, a Tracker Magazine teve o privilégio quase espontâneo de entrevistar os a Jigsaw, imediatamente após o excelente concerto que os talentosos Jorri e João Rui lideraram na Caixa Económica Operária. Uma conversa muito prazenteira, pelo regalo de interagir com dois sobredotados Portugueses e receber as eloquentes respostas da dupla, às questões da Tracker – que começaram pelo terrífico nome da banda.

a JigsawO nome a Jigsaw foi mesmo inspirado numa canção dos dEUS ou é um tributo ao personagem do Cinema?

O nome a Jigsaw é anterior ao filme Saw, editado no ano do nosso primeiro EP (n.d.r.: 2004) (entre risos). Portanto, o nome da banda foi mesmo inspirado na “Jigsaw You” dos dEUS, que baptizaram a própria banda com o título de uma canção dos Sucarcubes. Naquele tempo, ambos ouvíamos muito o álbum Worst Case Scenario, talvez o melhor dos dEUS, e o nome a Jigsaw pareceu incisivo.

São as influências… Que vocês assumem serem também literárias, explicitamente nos vossos concertos. Que autores têm vocês processado de alguma forma no vosso trabalho?

Nós somos leitores selectivos, mas ávidos, que lêem muito. Podemos mencionar John Steinbeck, Tolstoi, Dostoyevski, Fernando Pessoa e seus heterónimos, Nietzsche, Rimbaud, entre muitos outros autores e respectivos universos que nos influenciam mais ou menos, também consoante cada disco. Por exemplo, para o mais recente No True Magic, consultámos manuais de magia, Histoire de la magie de Éliphas Lévi (que influenciou Baudelaire e Goethe e Rimbaud), também a Bíblia cristã, que condena a Magia, por ser um simulacro que cria a ilusão de milagres.

E que temáticas mais vos interessa aprofundar nas vossas canções

As de cada álbum. Primeiro, nós pensamos o conceito de cada disco, que será a referência para o conjunto das canções. E como sugerido na resposta anterior, aquela a Jigsawconcepção inclui uma pesquisa temática extensa e intensiva, de vários autores, com perspectivas diversas, em diferentes géneros e estilos literários. O de No True Magic foi a ‘imortalidade’, definida como uma magia desfrutável por intencionalmente se ignorar a noção da Morte. De facto, nós temos evitado abordar assuntos só de um outro momento histórico da humanidade, para aprofundarmos problemáticas intemporais da existência humana, como por exemplo a construção da Identidade, no álbum anterior a No True Magic. É uma opção que tem sido o nosso conceito lírico: as canções serem fiéis ao sentido de cada álbum e cada álbum ser fiel aos princípios da própria banda.

Nesse sentido, já decidiram temáticas para álbuns seguintes? E podemos saber quais?

Sim, já decidimos. O próximo disco está sendo preparado desde o ano passado. Mas ainda é demasiado cedo para partilharmos a temática. Quando o álbum for um facto, revelaremos.

Recuando um pouco, à selecção das canções, para cada disco fazem muitas e só uma minoria é escolhida, ou fazem menos mas quase todas adequadas a cada álbum?

Até agora, nós temos sido prolíficos e escrevemos ‘demasiadas’ canções para cada álbum. Para o No True Magic, queremos lançar uma edição especial em vinil e nesse caso algumas canções serão bonus tracks. Nós ainda temos afeição pelo vinil, gostamos da ideia romântica dos B-sides dos 12 polegadas – e a favorita de um de nós é mesmo uma daquelas canções B-side.

E não ponderam editar um duplo álbum enquanto se mantiverem tão prolíficos?

É uma possibilidade… que ainda não foi realizada. Quando trabalhámos para o nosso primeiro álbum, produzimos canções suficientes também para o segundo. Para o Drunken Sailors & Happy Pirates, gravámos vinte e duas faixas, das quais dez ficaram de fora, talvez para um eventual disco só com B-sides e raridades.

Porque vocês já têm maturidade para formatos mais ambiciosos e arriscados…

Só que a maturidade também permite um refinamento do próprio gosto, que aumenta a exigência e logicamente a selectividade – entre a escrita e a edição, submetemos cada canção ao teste do tempo. Maturidade pode não ser editar muito, em volume ou em frequência. Por exemplo, a Jigsawem 2010 não fizemos um álbum, mas amadurecemos mais que em qualquer outro ano, porque demos cerca de 200 concertos, em 13 ou 14 países diferentes, convivendo com centenas de artistas e técnicos, para públicos de culturas diferentes, em contextos diversos. Num período de dois meses, tocámos 54 concertos! E apesar de termos feito o que queremos, sentimos a fadiga mental do excesso de trabalho e da falta de pausas e também de nossas casas. Após essa longa digressão, tínhamos crescido como pessoas, acumulámos a bagagem psicológica que alimentou o conceito e as muitas canções que fizemos para o Drunken Sailors

A banda melhora, porque vocês amadurecem e vão adorando cada vez mais a Palavra. É por isso que partilham no vosso Bandcamp as letras de todas as canções dos álbuns?

Também, mas é sobretudo uma retribuição a quem aprecia e segue o nosso trabalho. E só este No True Magic é o nosso primeiro álbum com booklet, porque finalmente houve orçamento para tal. Quando escrevemos, abrimos nossa alma, como abre a alma quem nos escuta, nos acompanha, pessoas às quais devemos uma franca gratidão. É uma relação de Amizade não declarada, mas sensível, que se realiza também em momentos excepcionais como o recente concerto das Maga Sessions, onde tocámos quase no meio do público e partilhámos aquela sala de estar com dez amigos músicos que nos acompanharam nestes mais que dez anos em palco e viagens e em ensaios e gravações.

É um conceito ainda excêntrico em Portugal. E foi anunciado que vocês pediram para tocar lá. Queriam experimentar um concerto numa sala de estar?

Já não, porque para nós estava longe de ser uma novidade. Naquela longa digressão de 2010, fizemos dezenas de living room shows em França, Holanda, Alemanha, Suíça – um dos a Jigsaw 18quais no domingo de Páscoa, na Holanda, onde estivemos três dias na casa dessa família, à qual já regressámos. É um conceito mais emotivo. As pessoas vão mesmo para escutar a Música e damos ainda mais de nós. É também a recriação da génese das canções, quase sem amplificadores, na qual melhor se compreende que certos instrumentos são usados sobretudo para cumprir funções, papéis em cada canção. E sendo lamentável a baixa frequência de concertos para bandas de originais, em Portugal, é ainda um modo para darmos mais concertos, porque de facto os palcos melhoram os músicos e consolidam as bandas.

Para terminar, uma questão mais ligeira: que pergunta não vos fizeram e à qual vocês gostariam de responder?

Uma questão sobre o nosso quinquagésimo álbum (risos). Pelo significado por trás da pergunta: uma longa vida, enriquecida pelos milhares de vivências e experiências que terão alimentando os cinquenta álbuns de uma carreira também longa e profícua. Algo simples, mas ambicioso, porque raramente realizado.

a Jigsaw 10

About The Author

Related Posts