A sobriedade de Waxahatchee no sangue e na poesia da americana de 'Saint Cloud'
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Saint Cloud traduz-se com um daqueles chavões habituais na escrita sobre a escrita de canções: uma viagem íntima de auto-análise e observação singular sobre o eu, o nós e o caminho que nos trouxe até determinado ponto. Traduz, mas falha por defeito porque o quinto longa-duração de Katie Crutchfield documenta ao detalhe os momentos que se seguiram à decisão sempre complexa de avançar para a sobriedade depois de um trilho marcado pelas drogas e pelo álcool. E depois? O que acontece? O que se traz de lá de trás? O que se deve deixar sem nunca mais olhar para lá? As respostas variam com certeza de pessoa para pessoa, mas o que não varia é a certeza de que o caminho se torna ainda mais especial depois de clarificar a tal afirmação implícita na sobriedade: morrer fica para um dia muito mais tarde.

Waxahatchee arruma em grande parte os pedais de distorção num sótão com vista para uma nova abordagem sonora chamando para si a história rural da música norte-americana, ou não seja ela uma menina do Alabama. Crutchfield está serena, está ciente que a sua direcção pede novas roupagens, deixando novas capacidades de acalmar e de contar histórias ganhar vida. O rock deixa de ser explicitamente contemporâneo; aliás, quase que o rock costumeiro de Katie deixa de ser rock. Aqui e agora, regressa-se aquilo que nunca se foi – à excepção dos momentos mais folk mais recorrentes no disco de estreia American Weekend de 2012 , uma songstress abraçada de forma convicta ao country e à americana, chegando por vezes a ser quase perigosamente pop-country, deliciosamente e perigosamente country-pop.

Se em 2017 Waxahatchee estava Out in the Storm, em 2020 entra em perfeito processo de convalescência, e se não se olhar com demasiada atenção para a poesia de temas como “War” em que canta «in my head there’s a war room, keeping score, ripe to exhume», por exemplo, quase se pode pensar que está em full speed na nova fase.  E está, numa full speed lúcida e a absorver toda e qualquer nova sabedoria que venha na sua direcção.

Sóbria no sangue e na escrita, Katie Crutchfield recriou-se para ser alguma coisa mais do que aquilo que já era: uma das principais escritora de canções da sua geração. Agora, é uma mensageira da poesia, herdeira descarada de Dylan na forma como (re)começou a contar histórias e a retirar delas os ensinamentos necessários para estar confortável nos seus próprios sapatos.  Waxahatchee transformou-se numa herdeira desenrascada de Lucinda Williams e de Cat Power com os olhos claros e límpidos para mais facilmente ver o amor, o dos outros e aquele que é nosso de nascença: o amor-próprio.

I tell this story every time
Real love don’t follow a straight line
It breaks your neck, it builds you a delicate shrine

                                                                                in “Ruby Falls”