Aniversário Sabotage Rock Club (Noite II)

02 de Maio de 2014, 2º dia das comemorações do 1º aniversário do Sabotage e, segundo o cartaz, o menu musical seria Bicho do MatoBed Legs e Dapunksportif, com inicio às 21h30. 23h00 horas. As portas abrem e entramos juntamente com meia dúzia de gente (tínhamos sido previamente notificados do atraso porque encontrámos os Dapunksportif a passear no Cais do Sodré e com os quais aproveitámos para conversar). Muito aos poucos a casa vai metendo gente e a faixa etária vai-se posicionando nos 30 e poucos. O DJ da casa vai proporcionando um bom ambiente sonoro, bom rock acompanhado de cerveja porque no palco só mesmo instrumentos: uma bateria, 3 violas acústicas amplificadas e pedaleiras, um ukulele, 3 micros e mais dois instrumentos cobertos. Durante a espera, travámos conversa com Marco, técnico de som dos Dapunksportif, um americano radicado na Europa e apaixonado por Portugal e o nome mais ouvido durante a noite… e a conversa foi sobre trabalho. Mesmo longe da casa estar cheia, às 23h46 aconteciam as primeiras movimentações em palco.

Senhores e Senhoras, Bicho do Mato

Os Bicho do Mato trazem na acústica música tradicional portuguesa que misturam magistralmente com riffs de puro rock, provocando ritmos bem intensos e provocatórios, pois o “impressionantismo” do que apresentam é embelezado por letras corrosivas. Os Bicho do Mato disferem vários golpes à sociedade e impõem perplexidade a quem assiste ao concerto, pois o poder sonoro debitado pela viola campaniça é de facto impressionante, sem esquecer os restantes instrumentos e elementos da banda (fica de facto uma pergunta: como consegue este bicho sacar tanto poder daquele conjunto de cordas?) Porque mesmo sendo amplificadas e com auxílio a pedais, o ritmo é incrível. É bom e é cantado em português e, cantado desta maneira, este bicho merece respeito. Vêm de Évora, vêm com tudo e trazem com eles o humor alentejano com farpa na língua. A música “Vaca Sagrada” é exemplo disto tudo que se escreveu até agora, pois é um quadro cantado sobre os que nos governam e se é Bicho do Mato, então todas as músicas versam sobre animais. “Pato Psicopata”, que nos fala de um pato assassino que se apaixonou e deixou de ser assassino, “Escorpião Amoroso” e “Aranha Coxa De Uma Perna” são algumas das músicas expostas ao público do Sabotage. Este Bicho do Mato canta contos bem rasgados ou conta histórias cantando-as mas longe de serem inocentes e muito bem defendidos. Bicho do Mato é mesmo isso, não é fera selvagem, mas é bicho que sabe investir e é sobretudo algo genuíno, espirituoso, com atitude, garra e originalidade q.b., o que torna a sua actuação em algo épico porque os Bicho do Mato debitam música de intervenção: “Sou bicho do mato não me fodam a cabeça a não ser que mereça”. Estes contos cantados e poderosamente musicados pelos Bicho do Mato vão gloriosamente prendendo a atenção do público, que nem com um fado cantado no meio da plateia afasta um grande aplauso. Se o publico estivesse sentado os Bicho do Mato mereciam uma ovação de pé. Os Bicho do Mato têm um baterista calmíssimo, que enrola cigarros e fuma durante o concerto, e tem também um guitarrista que põe a viola campaniça a guinchar. Tem também um vocalista que também toca viola e outro guitarrista que acompanha bravamente todo este espectro sonoro e cultural. Oeiras (que no final do concerto percebemos porquê e percebemos que em Lisboa não funciona), Marco (um amigo que fica no coração) e mesinha (farpa directa para o técnico de som por causa da viola campaniça) foram as palavras-chave em cada intervalo de músicas, porque os Bicho do Mato deixam escapar pouca coisa e sobretudo não deixam escapar a ponta final do concerto que mesmo sem ninguém pedir, os Bicho do Mato oferecem um encore. E que encore! Um longo e maravilhoso instrumental que meteu Marco, formalmente convidado pelo baterista, na bateria, que meteu António Variações pelo meio, que voltou a partes de músicas por eles já cantadas, fazendo versões das suas próprias músicas, que rondou os Black Sabbath, que recorreu a refrões das suas músicas (“ditador falido não tem lugar no meio pasto”), que sem parar galvanizaram o público presente até ao último toque no prato de choque. Senhores e senhoras, foram os Bicho do Mato e o seu rock patego – como lhe chamou o seu guitarrista solo em viola campaniça.

Já a seguir: Dapunksportif

Sem perguntar a ninguém, percebe-se rapidamente que os Bed Legs não iam aparecer na festa de anos porque os Dapunksportif instalam-se em palco enquanto a casa enchia mais um bocadinho. “Uma salva de palmas para Bicho do Mato, parabéns ao Sabotage e nós somos os Dapunksportif” e de seguida sinal verde para o ronco de cavalos a vapor. Potência controlada por bateria, 2 guitarras, 1 baixo e 3 vozes (1 lead vocals e 2 back vocals, todas elas vindas da secção de cordas) que consomem o público no Sabotage. Os Dapunksportif vêem de Peniche, excepto o baterista que vem da Marinha Grande, e trazem fogo na venta. Apresentam-se bem soltos e conseguem pôr o diabo à solta, comandado com a trela, daquelas extensíveis. Colocam carga, dão rastilho e provocam um fogo que produz descargas sonoras e trabalham-no quase brincando com ele. Os Dapunksportif “rulam” e conseguem trazer o público bem mais para a frente, mesmo junto a eles, quase convidando-o entrar em palco. “L.S.D.”; “Mr. Weather Man” ou ” Sometimes I Think Too Much” contribuem consideravelmente para esta dinâmica e uma vez instalado o fogo, é deixar arder. E é assim que somos convidados para o final do concerto, onde momentos instrumentais longos longe de serem chatos, criam vertigem e sede de mais poder. Mas os Dapunksportif sabem bem dosar esta imensa avalanche sonora, pois a dada altura o corpo diz ao cérebro que o físico tem de descansar. Não têm músicas lentas e muito menos baladas, têm o rock da Califórnia no espírito e Peniche na veia. Se algum dia tiverem ao pé de um concerto de Dapunksportif, é irem assistir e descarregar energia. Eles deixam, fazem por isso e no fim agradecem.

E parabéns ao Sabotage.