Memória de Peixe
Memória de Peixe

As aventuras fora d’água dos Memória de Peixe com Himiko Cloud

Se a memória não falha, 2012 é o ano de estreia dos lisboetas Memória de Peixe com o seu disco homónimo. Seis anos vingaram e estão eles de volta, prontos para nos levar na viagem mais alucinantes das suas vidas. Na bagagem levam apenas a nuvem que nos transportará para o universo – literalmente o universo – de Himiko Cloud. A obra experimental e vertiginosa tem em “Arcadia Garden” o seu primeiro avanço visual. Mas preparem-se: estão prometidos mais.

Para se perceber o que se passa em Himiko Cloud há que tentar idealizar como seria se estivesse preso num emaranhado de histórias fantasiosas, dentro de um vídeo jogo espacial. É nesse universo que Miguel Nicolau e Marco Franco nos tentam transportar. As guitarras conseguem formar uma mancha textural com os intrínsecos loops de segundos, como se fossem uma nuvem sonora caótica. A nuvem que que dá nome ao disco. Sem nunca descorar das melodias sintetizadoras do mesmo instrumento. Acompanhadas estão elas de uma bateria saída de uma jazz jam session que intensificam a adrenalina da viagem.

Himiko tem uma razão de ser, e que explica um pouco do imaginário do álbum: representa, cientificamente, uma nebular de grande escala que se pensa ser uma “protogaláxia” em formação. Para a banda, é também o “peixe”: um peixe-voador e que está presente em todas as músicas, de forma a unifica-las. Esta componente visual é explorada por Carlos Gaspar e Andy Singleton. Este último, britânico, é o próprio criador do peixe, em formato físico. Este será explorado ao longo das revisitas visuais que as peças terão direito. Carlos Gaspar, o artista plástico de Lisboa, representou visualmente cada uma das canções (que poderão ser vistas na edição em vinil). Para a capa, trouxe o espírito soturno do espaço em conjunto com a dimensão orgânica e singular das nebulosas. Estas funcionam quase como “rasgos” luminosos da camada azul presente. A ambiência cartoon do artwork acaba por, de alguma maneira estar representada ao longo de Himiko Cloud. Ora vejamos:

“Supercollider” abre o disco. Numa maneira ligeira, os primeiros segundos dão-nos o primeiro arranque. Até se entra em rota de colisão. Arrisca-se a dizer que, do espaço, foram “roubar” um cometa para a música. E fizeram-na pelo caminho até aterrarem em “Arcadia Garden”, o primeiro single de Himiko Cloud. O nome remete automaticamente para uma coisa: jogos de arcada. E vem daí o espírito da música. E do vídeo. Os sons que a fazem acompanhar transportam-nos mesmo para dentro de um jogo, numa aventura visual com monstros e lutas à mistura.

(Numa pequena referência ao vídeo, “Arcadia Garden” é simultaneamente um jogo tridimensional e bidimensional. Lembra-nos logo as consolas que fizeram as alegrias dos miúdos dos anos 90. É uma aventura descomunal, com triunfos, perdas, combates com dragões, travessias de grutas e uma batalha demoníaca no fim. Tudo filmado na Quinta da Regaleira, em Sintra, e idealizado por Miguel Nicolau, guitarrista da banda. Os próximos exemplos seguirão a mesma temática, de forma a criar uma série de ligações entre eles.)

Voltando ao disco, continua a viagem numa sorumbática “Midnight Hero” que se inicia com um sintetizador Moog que lhe dá uma reminiscência. Mais à frente transforma-se, sem aviso, numa faixa krautrock que acelera numa autoestrada alegórica sem fim com um cavaleiro, como se de um filme de David Lynch se tratasse, atracando na potência supersónica de “Haverö’s Dream” e no sonho frio da pequena ilha finlandesa. O cavaleiro é, também aqui, super-herói e parece estar em plena batalha. Mas em “(The Mighty Forest of) Tragic Sans” a viagem é outra. A ambiência escura e carregada com os brilhos melodiosos da guitarra dão a luz precisa para avançar. Porque para a frente é o caminho. Ou, digamos, para cima.

Encontramo-nos de novo no espaço, desta feita a olhar para baixo em “Lazeria Maps” e a ver o mundo lá no fundo, totalmente plano. A música levita entre os avanços alucinogénios e os recuos aleatórios que conduz a universos paralelos dentro dos universos paralelos. E não é que, nesses mesmos, os super-heróis andam mesmo de cavalo. “Horsepedia” traz mesmo um ritmo sincopado em certos pontos. Por vezes, quase de marcha. E até algo introspectiva. Mas sempre levando-nos para um caminho – ou vários –, desde que no fim haja vitória.

Os últimos locais de passagem são “Immortality Drive” e “Herbig-Haro”. Porque depois de tantas batalhas e velocidades tremendas, chega a ascensão imortal de Himiko. O contrassenso de todo o disco encontra-se mesmo na última faixa: “Herbig-Haro”. Assim como o título do disco, Herbig-Haro representa outro aspecto científico: as nuvens de fumo criadas pela colisão entre o gás das estrelas em formação e as nuvens gasosas circundantes. Tudo isto à velocidade de milhares de quilómetros por segundo. O que, nesta faixa, soa a uma “ressaca pós-trip”. Mais lenta, melancólica, como se tratasse dos créditos finais da aventura.

Resumindo este disco, Himiko Cloud é uma obra cinematográfica e de componente visual forte que eleva os Memória de Peixe a um nível raro no panorama nacional. A culminar com este processo musical está a apresentação de Himiko Cloud no Musicbox de Lisboa a 4 de Novembro e o disco já está disponível em plataformas digitais com o selo CTL – Musicbox.

O bilhete da viagem pode ouvir-se aqui.

Memória de Peixe - Himiko Cloud
Memória de Peixe – Himiko Cloud