Belle Arché Lou @ Casa Independente

Belle Arché Lou @ Casa Independente

Por mais que o embelezem num Photoshop primaveril, o Intendente inverna as quatro estações. E o Inverno numa red line de bêbados, apátridas e prostitutas não é dor sazonal, é a dor perene do Mundo. A única redenção possível: a beleza das coisas simples. Ou como os Belle Arché Lou desceram à terra, numa fria noite de Dezembro, na Casa Independente, para nos livrar de todo o mal.

Atenção! O novo EP, Seeking Solace, traz-nos a beleza, mas a beleza em estado puro. Não é a beleza soundbyte, a beleza avant-garde, a beleza obsessão  ou a beleza fétiche. Não se trata de nenhum superlativo de beleza esgotado em anúncios de publicidade. Nem a beleza dos coros de anjos e trompetes celestes ou a beleza de mil mulheres fatais de cigarro aceso após uma noite de sexo num quarto-décor de cinema. Nada que tão pouco se aparente ao que denominamos belo nas nossas cidades esgotadas pelo cansaço dos lugares-comuns.

Não! A beleza da música dos Belle Arché Lou é simples como aquele que não sabe, que não é consciente da sua beleza. O seu encanto é o mesmo que encontramos na beleza da infância ou nas regiões recônditas da Amazónia. É a beleza daquele instante que antecede o primeiro beijo, a beleza da primeira alvorada, do segundo que anuncia uma praça cheia antes da revolução. A beleza de todos os primeiros momentos, a beleza imaculada daquele pré-instante da colisão entre partículas. A beleza de todas as inocências.

Com um vibrafone, uma guitarra clássica, um violoncelo e uma guitarra eléctrica, os irmãos franco-suíços Wesley e Alexis Paul perfumaram a Casa Independente com a quinta essência dessa beleza que mal começou, quando a música ainda se permite ser silêncio. A beleza que tanto pode ser a do Loire, do Tejo ou dos Ganges, a beleza do nascer do sol, a beleza de uma noite de céu estrelado, a beleza da poesia que dispensa palavras.

Seeking Solace, o novo EP da banda, bem como alguns dos temas mais antigos com que nos presentearam na Casa Independente, não valem uma imagem nem mil palavras porque estão antes disso. Esta é a beleza-singularidade pré todos os big-bangs, planalto ilimitado da liberdade, da descoberta infinita do amor. São temas-convite à meditação, à contemplação da beleza das noites que dividem os dias, nos lábios que se entreabrem para sussurrar emoções na primeira aurora de paixão eterna.

Esta é a beleza desta história de amor entre uma guitarra maternal e a respiração em harmónio de um vibrafone. A beleza-elixir para acabar com a tristeza, o mote do tema-chave “Pour Détruire Le Chagrin Du Monde”. A beleza de todos os Sóis do Universo que teimam em iluminar um Mundo que pode sempre despertar apesar de toda a escuridão.

Escreveu Huxley, o escritor visionário, e não o biólogo, que depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música. Se fossem uma entidade matemática, os Belle Arché Lou seriam aquele ponto infinito entre o silêncio e a música. Quando a música é assim, não existe melhor antídoto contra a loucura da guerra, os ecos da crise, a embriaguez do poder, a obsessão do dinheiro.

A música dos Belle Arché Lou é um reconforto de alma. A beleza que nos redime de todas as cosméticas que fazendo do feio bonito no Intendente deixam tudo na vulgaridade do costume. A música dos Belle Arché Lou é tão sublime que não merecia ter tido pouco mais de uma sala de aula à sua espera. A música deles não pode existir – recuso-me a acreditar! –  para acabar com a tristeza de 30 pessoas. A música dos Belle Arché Lou devia ecoar em altifalantes dispersos por toda a cidade. Nos parques infantis, escritórios,  fábricas, escolas, toda a gente deveria poder ouvi-los. Toda a gente deveria querer ouvi-los. Com a possibilidade de acordar todas as manhãs diante da beleza de um saco plástico ao colo do vento outonal. A beleza do Deus em todas as coisas do jovem Ricky em American Beauty. Afinal, o trabalho dos Belle Arché Lou não deixa de ser uma banda-sonora. Mas uma banda-sonora com via aberta para a redenção e que nos filtra o real. Para um mundo de sonhos? Para um mundo onde a beleza é possível.