Bjork - Vulnicura

Björk – Vulnicura

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I am strong in his hands
I am beyond me
On my own I am human
And I do faults

Versos de “Generous Palmstroke”, b-side de Vespertine (2001), verso de Vulnicura (2015).

Debut (1993), mais do que a estreia a solo de Björk, é o primeiro tomo de um capítulo de ouro. Post (1995) haveria de ser mais experimental. Homogenic (1997) é já um compêndio das “coisas modernas que sempre existiram”: o amor, o sexo e a busca enquanto suportes da vida, as paisagens físicas enquanto paisagens emocionais, a necessidade de recolhimento, a necessidade de mudança, a permeabilidade, a idiossincrasia.

Vespertine ancora-se em micro-sons para retratar um mundo escondido, íntimo, conjugal. Um tempo fora do tempo, a dois. Medúlla (2004), quase todo voz, é também electrónica a partir de voz. Volta (2007), uma manta de retalhos. Um disco feito de vários discos; voltas. Biophilia (2011), em sinédoque, revê e aumenta a matéria dada – Homem e Natureza são feitos da mesma massa, nada podemos contra a biologia, e a biologia humana é, antes de ser humana, cósmica.

Mais do que a antítese natural de Vespertine (há catorze anos, Björk e Matthew Barney estavam apaixonados), os nove temas que compõem Vulnicura são, involuntariamente, parte de um díptico, processo de documentação, metamorfose, saída. Se excluirmos as duas últimas canções, é-nos dado a ouvir um diário – o desejo de que a relação amorosa sobreviva, o inventário da felicidade conjugal, a transmutação da tristeza em raiva, a diabolização do outro, o reinício (o luto enquanto cura). O que surpreende não é, contudo, a escrita, hiper-confessional, que remete para Vespertine, nem as cordas, que remetem para Homogenic. Antes o tema, inédito enquanto todo, e a electrónica de Alejandro Ghersi (aka Arca), que, aos 25 anos, o coloca na galeria de ex-colaboradores tão criativos como Nellee Hooper, Howie B, Marius de Vries, Mark Bell, Guy Sigsworth, Matmos ou Matthew Herbert. Ghersi, que chega ao processo no final, interpreta as sombras que emanam do texto e das cordas. O resultado passa, por exemplo, por uma frescura há muito perdida, em “Lionsong”, pelo respeito de um silêncio-cisma a roçar a neurose, em “Black lake”, pela tensão física, palpável, de “Family”.

É também nova a voz, e a forma de cantar. Assumidos os nódulos nas cordas vocais, aquando do cancelamento de alguns concertos da digressão de Biophilia, houve tratamentos alternativos à cirurgia, aulas de canto, cirurgia. A Björk cuja palavra, cuja sílaba era uma panóplia de sons a explodir na garganta, em prol [do tema] da canção (revisite-se, por exemplo, “Immature”), perdeu-se, ganhou pulmões, para continuar. Não acidentalmente, pertence a “Mouth Mantra” o maior rasgo – celebra-se, pela composição, voz e som, uma via, recuperada.

Tal como em Carrie & Lowell, de Sufjan Stevens, o peso de Vulnicura mede-se, em parte, pelo peso das perdas do ouvinte. Desculpamos a Björk o tema de abertura, desavergonhadamente polido, o último, também menor e ainda mais desenquadrado, e os ismos auto-referenciais. Há um universo Björk, na modulação de todo e qualquer tema num conjunto familiar de imagens. Há um léxico próprio. E há Novo. Teremos sempre “So Broken”, enquanto algo mais visceral. Mas não encontraremos lá atrás canções pop tão livres quanto “Atom Dance”, nem o futurismo sanguíneo de Arca. Isso requer antiguidade, e juventude.