O tempo escorre devagar em Cem Soldos. É o telhado do vizinho que se arranja pachorrentamente; são os legumes que a dona Itelvina carrega em direcção a casa para o almoço, os gatos que se aninham sob a sombra fresca das telhas – embora não abunde ainda o calor abrasador que costumam conhecer -, e que não estranham os citadinos que invadem a pequena Aldeia: certamente, já terão visto maior azáfama em dias de festa; é a criança que baloiça com todo o tempo do mundo ao sabor da brisa que rodeia uma escola ostentando uma fachada tão familiar a tantos dos nossos pais e avós.

Cem Soldos, como tantas outras Aldeias do país, tem um fuso horário muito próprio dentro da bolhinha temporal na qual se enclaustra. Mas Cem Soldos é especial e única e não só para os seus habitantes que se orgulham da terra que muitos deles – ou praticamente todos, viu nascer. Não porque por entre as casas térreas de semblante antigo onde a ferrugem já se instalou, se mesclem outras de pintura fresca e esbelta, algumas reflectindo mesmo já a passagem da modernidade e da urbes que se sentem tão longínquas tão perto se espelham.

Mas porque Cem Soldos é a Aldeia mais perfeita do país para encontros, re-encontros e descobertas que se fazem numa imensidão de géneros dentro da tão dinâmica e vibrante relação viva com as esferas musicais do nosso país. Porque recebe nas suas estreitas ruas e pequenos largos um festival que redesenha, desde 2016, as latitudes e longitudes em mapas sonoros moldados por vias tão distintas que desaguam num mesmo habitat sonoro: a Música Portuguesa. E é ela a atracção e o ponto central do evento que multiplica os seus tentáculos pelos 8 palcos que já de outros anos conhecemos – sim, a Igreja de São Sebastião e a Garagem continuam de portas escancaradas para travessuras musicais -, e se testemunha nas 44 bandas e restantes projectos musicais presentes na edição deste ano do evento – excepto uma, que se vai manter secreta por mais algum tempo.

E a festa já se prepara. O Bons Sons, que regressa para se assenhorar dos horizontes de Tomar entre os dias 11 e 14 de Agosto com a sua miríade de nuances estilísticas irá trespassar a calmaria do tempo, naqueles que serão, pelo menos, aqueles 4 dias por ano em que esta Aldeia nunca dorme.

O cartaz (quase) complet0 já está aí, e mais do que ter finalmente selado um namoro com os Orelha Negra após longos anos de desencontros, a edição de 2017 do Bons Sons já começou mesmo ainda antes de começar: é que enquanto se calcorrearam as ruas ainda frescas de Cem Soldos, houve uma surpresa em cada esquina: o Palco Eira que se preenchia já com um pequeno showcase acústico de Valter Lobo que abria já um pouco da imensidão do seu Mediterrâneo ao vivo e Surma, que um pouco mais à frente se escondia momentaneamente nos limites finais de uma rua e nos ofereceu uma semelhante saudação musical nas teclas ameninadas e alegres do seu sintetizador como se estivesse sentada à porta de casa na sua Leiria.

Mais tarde encontrámos os dois debaixo do mesmo tecto e no mesmo palco para darem voz a um “Oeste” em dueto, que ainda mais bonito ficou a duas vozes e a uma outra surpresa.

Promovido pelo SCOCS (Sport Club Operário de Cem Soldos), associação cultural fundada em 1981, o Bons Sons ’17, por entre a já habitual feira de marroquinarias e artesãos e as exposições de arte, e para além de Surma (dia 11) e Valter Lobo (dia 14) recebe este ano também Rodrigo Leão a solo no dia 14, depois da sua participação em tantos projectos musicais – o último deles com Scott Matthew. Do cartaz, , destacamos ainda os Thunder & Co., os Whales, os Capitão Fausto e os Holy Nothing – dia 11 de Agosto, Mão Morta, Throes & The Shine e Filipe Sambado – dia 12 de Agosto, Joana Barra Vaz, Samuel Úria e Orelha Negra – dia 13 de Agosto e Octa Push, The Poppers e Frankie Chavez no dia 14. A recepção ficará a cargo de Inês Palmeirim. Todos os artistas confirmados aqui no site do Bons Sons.

É caso para dizer que entre 11 a 14 de Agosto todos os caminhos irão dar a Cem Soldos.

  1. Palco Lopes-Graça
  2. Palgo Aguardela
  3. Palco Giacometti
  4. Palco MPAGDP

5. Palco Tarde ao Sol
6. Garagem
7. Auditório
8. Palco Eira