E fez-se luz numa das bonitas ruas da vila minhota. Em plena Rua Conselheiro Miguel Dantas e dando continuidade à estratégia com que vem dando mediatismo e uma dose de boa disposição e humor  e à medida que a tarde se esvaía nas cores típicas de um final de dia, as luzes iluminaram novamente mais alguns nomes que preenchem o cartaz da 25ª edição do Vodafone Paredes de Coura que decorre entre os dias 16 e 19 de Agosto. Eram 18.30 e os nomes dos Mão Morta e You Can’t Win Charlie Brown na metade lusa e os Young Fathers e Andy Shauf do lado da selecção do resto do mundo ganhavam brilho e anunciavam as boas novas ainda, e como sempre, sem data marcada para as actuações.

Young Fathers

Os Young Fathers já começam a ser velhos conhecidos, mas a cada vez que pisam território nacional continuam a surpreender e a deixar marcas profundas no público. Desde a primeira aparição no Vodafone Mexefest de 2013 e os consequentes regressos no NOS Alive de 2015 e Super Bock Super Rock do ano passado, têm-se afirmado e reafirmado como um fenómeno de palco, um terramoto de fusões e de suor, incapazes de fazer menos que dar concertos apocalípticos e memoráveis.

Apenas dois álbuns a roçar o incontornável, Dead de 2014 e White Men Are Black Men Too de 2015, mais dos extended plays tão extended que funcionam como dois verdadeiros LPs – Tape One e Tape Two de 2011 e 2013, respectivamente -, colocaram os escoceses Alloysious Massaquoi, Kayus Bankole e ‘G’ Hastings num patamar invejável e numa divisão inventada por eles mesmos. Haja hip-hop e industrial, haja indie e northern soul, haja punk e experimentação para os definir e ainda assim arriscamo-nos todos a falhar redondamente.

A banda de Edimburgo lançou  a 24 de Janeiro “Only God Knows” que faz parte da banda sonora da sequela de Trainspotting que marca o regresso do heroinómano “favorito” de toda uma geração, Renton, a… onde mesmo?… ah pois, a Edimburgo.

Andy Shauf

Atravessando o Atlântico, e descendo apenas ligeiramente a latitude, encontramos a cidade de Regina, Saskatchewan no Canadá, cidade berço de onde nos chega Andy Shauf, portador de passaporte do reino dos cantautores por descobrir pelas massas mas que, aos poucos, vai ganhando a notoriedade que as suas canções carregadas de histórias e personagens passadas em qualquer pequena cidade de qualquer parte do mundo ocidental, de personagens tão familiares ao dia-a-dia de Shauf como a qualquer um de nós, já merecem à muito, apesar do ainda curto percurso discográfico.

Darker Days foi o disco de estreia lançado em 2009 e suficiente para despertar a atenção da casa-mãe de Tom Waits, Calexico, Keaton Henson e Japandroids onde, em 2012, editava já The Bearer of Bad News e no ano passado The Party. Canções a descobrir na Praia Fluvial do Tabuão e de preferência já por todos os que têm um crush por contadores de histórias como Cass McCombs, Elliot Smith ou Kevin Morby.

Mão Morta

Apresentações para quê; os Mão Morta são os Mão Morta. Uma instituição com contornos lendários no que diz respeito ao rock nacional, apesar de nunca terem deixado as franjas da sociedade sonora e se inventarem e reinventarem a seu bel-prazer usando todas as armas possíveis e imaginárias ao dispor da cena underground. Pense-se em categorizações e Adolfo Luxúria Canibal e Miguel Pedro, os únicos sobreviventes da formação basilar da banda bracarense, e os vários elementos que fizeram parte de mais de 30 anos de história, fizeram um check em quase tudo que se possa anexar ao conceito alternativo.

Do industrial ao post-punk, da experimentação ao cabaret, do noise até certas aproximações ao metal, eles passaram por lá e delas fizeram a sua leitura do género. 2017 marca os 25 anos de um dos mais emblemáticos discos dos Mão Morta e da história portuguesa. Mutantes S.21 era uma viagem ao submundo de várias cidades onde a morte, o sexo, as drogas e o sangue eram personagens principais. “Berlim (Morreu a Nove)”, “Istambul (Um Grito)”, “Lisboa (Por Entre as Sombras e o Lixo)”, “Barcelona (Encontrei-a na Plaza Real)” e a ultra-tocada “Budapeste (Sempre a Rock & Rollar)” entre tantas outras, vão ser recuperadas para celebrar o aniversário. O 25º aniversário de Mutantes S. 21 encontra o 25º aniversário do Festival de Paredes de Coura.

You Can’t Win, Charlie Brown

Os You Can’t Win, Charlie Brown são uma das frentes mais interessantes e estimulantes da nova vaga nacional. Sem contemplações nem muito alarido, disco atrás de disco fizeram-se vencedores. Discos de canções adultas e maduras, discos de espectros largos e de clara evolução e procura por novas texturas e abordagens ao prazer de escrever canções e tocar. Nascidos da vontade de Afonso Cabral, Salvador Menezes e Luís Costa em 2009 e de uma rápida expansão a sexteto com a inclusão de David Santos (Noiserv), Tomás Franco de Sousa e João Gil (Diabo na Cruz e Vitorino Voador), atravessaram já várias linhas que separam a criatividade do marasmo que parece estar longe das pautas dos lisboetas.

Do folk inicial de Chromatic, o disco de estreia de 2011 que os levou direitinhos para o coração da imprescindível Les Inrockuptibles, até ao disco de 2016 pautado por uma nova vontade de dançar, Marrow, os You Can’t Win, Charlie Brown passaram pela construção pop de elite que não os afastou muito das nuances musicais de nomes como os Grizzly Bear, os Wilco e até mesmo da fase Ok Computer dos Radiohead em “Diffraction/Refraction” de 2014.

Os outros nomes já confirmados para a edição de 2017 do Vodafone Paredes de Coura são os Foals, At the Drive-In, Nick Murphy (Chet Faker), Beach House, Future Islands, Ty Segall, Foxygen, Benjamin Clementine, BadBadNotGood, !!! (Chk Chk Chk), Car Seat Headrest, Beak>, Ho99o9, Moon Duo, Sunflower Bean e Manel Cruz.