Estivemos à conversa com os Capitão Fausto, um dos fenómenos musicais do momento. No desenrolar da conversa, passamos a saber como se conheceram na escola, como tomaram a decisão de tocar juntos, um pouco do passado e imaginário musical do quinteto, a eterna questão de cantar em português ou não e o porquê da escolha da língua mãe, processos de composição e gravação, ódios de estimação e guilty pleasures musicais e, finalmente, planos futuros de domínio mundial!

De onde é que vocês se conhecem originalmente?

Eu e o Domingos somos amigos há 11, quase 12 anos, conhecemo-nos no primeiro dia de aulas do 5º ano. O Manuel e o Salvador conhecemos no 7º ano, no primeiro dia de aulas. Éramos todos da mesma turma e por isso conhecemo-nos basicamente quando éramos putos. Depois conhecemos o Tomás já no secundário. Portanto somos todos amigos de escola. Antes de conhecermos o Tomás tínhamos bandas os quatro. Aliás, começámos a tocar todos ainda ninguém sabia tocar nada e cada um foi aprender um instrumento mais ou menos ao calhas. Eu na altura escolhi que ia para o baixo… porque sim. O Francisco tocava guitarra, o Salvador bateria e o Manuel guitarra também, começámos do zero. Queríamos ter uma banda e então fomos tentar ter uma banda.

Você já tinham mais ou menos uma noção do que é que se adaptariam melhor a tocar, cada um, eventualmente?

Eu acho que não. Eu nem sabia o que era um baixo. O meu primo tocava baixo. Nenhum de nós, tirando o pai do Salvador e do Tomás que tocam guitarra e os pais do Tomás são músicos clássicos de orquestra e o Tomás teve formação musical a vida toda, nunca tivemos nada a ver com música na nossa família nem na nossa vida, e decidimos pegar num instrumento porque sim, porque gostávamos de ouvir música e gostávamos de ouvir rock. Acho que é assim que a maioria dos miúdos começa também.

Sendo meio auto didatas.

Foi. Começámos sozinhos a aprender no quarto e depois decidimos ter aulas todos juntos. Eu tinha com o Manuel de guitarra e o Domingos que tocava baixo tinha também aulas connosco. O nosso professor ensinava-lhe também coisas de baixo. O nosso professor é o novo guitarrista dos The Temple. O novo, ou seja, aí há 10 anos. Era o Marcelo. Aliás, eu nem sabia o que era um baixo, só que o meu primo dizia-me que tocava baixo e quando chegou a altura nós pedimos umas aulas de música em que dava para tocar instrumentos. “Então mas e o que é que queres tocar?” E eu disse “Baixo”. Eu nem sabia que era um instrumento de cordas.

Quando é que é o momento em que vocês decidem experimentar? Tinham bandas, as bandas acabaram e vocês decidiram ir fazendo experiências quase por brincadeira ou foi uma coisa mais pensada?

Sim, foi mais ou menos isso. Nós os quatro, eu, o Domingos, o Manuel e o Salvador tínhamos uma banda e éramos amigos do Tomás do secundário, e o Tomás tinha outra banda. As duas bandas estavam sempre a tocar juntas, estávamos juntos todos os dias, sempre a tocar e a ouvir música. As bandas entretanto já não têm actividade mas na altura tinham e decidimos, já que estamos juntos sempre e a ouvir música,” bora fazer música!”. Foi uma coisa praticamente espontânea e natural. Decidimos ter uma banda paralela à que o Tomás tinha. Ainda tínhamos as outras bandas. A única cena mais premeditada de Capitão Fausto era só “bora cantar em português”, o que nunca tínhamos feito com as outras bandas. Nas outras duas bandas cantávamos em inglês, e no início de Capitão Fausto chegámos também a dar vários concertos a tocar covers de clássicos de Beatles, das nossas bandas favoritas e das bandas favoritas dos nossos pais, e Elvis, ou seja, ainda estávamos ali naquela fase e depois quando decidimos fazer originais, “bora cantar em português” e não houve ninguém que se opusesse à ideia. Foi “bora cantar em português”, “sim”.

E adaptaram-se bem à transição para a língua portuguesa?

Eu acho que sim, acho que curva é sempre para cima, não foi negativa, acho que conseguimos aprender. Olhando para trás para o nosso trabalho, vemos que se calhar não foi tão bom, mas conseguimos sempre aprender e ver os erros e se calhar, conseguimos, já agora, pensar de uma maneira assim mais coesa. No início éramos putos e as ideias eram um bocado atiradas para o ar e era cantar em português só porque sim mas agora, principalmente, o Tomás faz as letras, tem as ideias mais bem organizadas, mais bem pensadas, tem coisas a dizer, por isso acho que tem sido uma boa transição.

Ajudam todos nas letras ou é só mais o Tomás?

O Tomás vem com as ideias de melodia e harmonia de voz e depois nós todos damos bitaites. O Tomás vem com as letras feitas e depois obviamente nos pede opinião.

O português é uma língua muito difícil de escrever. Muito rapidamente se pode aqui… não vou usar adjectivos mas, no exemplo dos GNR, “é sexta-feira em Albufeira, grande bebedeira”. Para mim é um bocado pobre.

É verdade, é uma língua complicada. Nós temos uma tradição gigante de poesia, de liricismo, de grandes obras épicas e de grandes textos românticos, e a maioria da música que é música anglo-saxónica, em que muitas das letras, e música popular anglo-saxónica, ou seja, americana ou inglesa, ou mesmo de outros países que cantam em inglês, são letras com frases e palavras do dia-a-dia. E muitas vezes isso não se adapta tão bem à língua portuguesa. Nós temos uma ligação também muito grande com o fado e damos muita importância às palavras; os portugueses dão imensa importância às palavras, parecendo que não. Ou seja, acaba por ser sempre um bocado estranho quando se faz uma letra de uma música pop, ou de rock, mas que tem um tema leve, como estavas a dizer essa dos GNR ou muitas outras, mas só que ao mesmo tempo são essas coisas que fazem o nosso dia-a-dia. Por isso é que acho também complicado. É tentar encontrar um misto de falar desse dia-a-dia e dessas vivências que toda a gente passa e ao mesmo tempo encontrar uma maneira bonita de transpor essas ideias.

Ou de lhes dar um bocado mais peso do que ser só uma coisa leve…

Exactamente, de lhes dar mais peso do que só uma coisa “é sexta-feira em Albufeira”.

O português é uma língua que quando se escreve coloquialmente nem sempre resulta, não sei se concordam ou não…

Eu acho que sim. E as pessoas hoje em dia também estão mais, agora menos, mas estão muito habituadas a ouvir a música cantada em inglês e quando ouvem qualquer coisa cantada em português normalmente estranham. O nosso pensamento foi um bocado o contrário, para nós parece-nos, sendo portugueses, mais natural cantar em português, para já porque é a tua língua, é aquela que tu controlas melhor. Por isso qualquer que seja a mensagem que nós queiramos transmitir, nós vamos transmiti-la melhor do que se tivéssemos que transmitir em inglês, temos essa capacidade.

O próprio conhecimento de um léxico maior ou mais extenso.

Também. Ou melhor, nós conseguimos se calhar com quatro palavras dizer mais do que conseguimos com dez em inglês, o que acontece muito. E depois também podes cair no risco de soares a um português a tentar cantar em inglês. É uma coisa tramada, acho eu. Mas pronto, foi um desafio e acho que conseguimos. Também temos a nossa de dose de “sexta-feitas, bebedeiras em Albufeira”.

Vocês quando passaram do primeiro para este disco, qual é que foi o vosso rumo? Foi assim uma coisa com um objectivo já prévio, ou foi “vamos ver o que é que acontece?”

Nós não sabíamos onde queríamos chegar. Sabíamos que tínhamos algumas malhas e riffs e ideias e estávamos com a pica toda; tínhamos acabado de lançar o disco, ainda nem um ano tinha feito e tínhamos estado o verão todo a tocar. E decidimos, “bora enfiar-nos numa casa durante duas semanas a fazer músicas”. Não íamos com a ideia de “vai ter que soar a isto, vai ter que soar àquilo”, enfiámo-nos todos juntos e começámos a tocar e a tocar as ideias que já tínhamos. Saíram ideias novas e nesse espaço de duas semanas saíram os instrumentais das canções todas. Ficou exactamente, praticamente como estava. Houve algumas mudanças mas o esqueleto todo do disco foi lá. E depois a única ideia mais concreta que tínhamos era na abordagem ao som, não à composição das canções, mas ao som. Quando gravámos o primeiro disco nunca tínhamos estado num estúdio tanto tempo nem tão à séria e chegámos lá, um bocado às cegas, “e o que é que eu vou fazer agora” e “será que me estou a ouvir bem enquanto estou a gravar na escuta” e “será que isto está bem tocado”. Estávamos um bocado nervosos. Neste segundo já sabíamos melhor para onde é que íamos. Continuámos, para além de tocar ao vivo mas também a gravar os discos, com o mesmo técnico de som, Nuno Roque. O Nuno hoje em dia é um grande amigo, já o conhecemos muito bem, discutimos ideias com o Nuno previamente e chegámos ao estúdio depois de ter feito as canções já com uma ideia de “vamos usar estes pedais”, “vamos fazer isto, aquilo, era fixe experimentar esta técnica de gravação ou aquela”. Ou seja, já houve preparação. Eu acho que o que aconteceu foi depois de termos feito as músicas, percebemos que tínhamos aqui material para ir gravar um disco. Não tínhamos pensado “vamos já fazer um disco para gravar” ainda por cima tão pouco tempo depois do Gazela. E depois também acho que queríamos fugir um bocado daquela lógica de estúdio, de entrar às 10 da manhã e sair às 5. Queríamos encontrar uma sala grande, então desafiámos o Nuno para desmontar o estúdio onde tínhamos gravado o Gazela para o levar para a adega, que foi onde o disco foi gravado, perto de Cantanhede, numa quinta, e ele basicamente desmontou o estúdio todo e montou lá. 10 dias. A adega é a que está na capa.

Sim, isso já tinha lido numa revista.

Ou seja, isso foi se calhar o único rumo que nós tínhamos que dar ao que íamos fazer, era isso que nós sabíamos. Em relação às canções nós não tínhamos nenhuma ideia. Aliás, quando estávamos a gravá-las, saíram imensas ideias novas que nós não estávamos à espera. Quando começámos a fazer as músicas não sabíamos que elas iam ficar assim. E acho que Isso é a melhor maneira, acho que não nos ia cair muito bem fazer um disco, agora apetece-nos fazer o terceiro disco e dizer “o disco vai ser deste género e as músicas vão ser assim”. Acho que isso não ia dar um bom resultado.

Não costuma dar. Há várias vertentes para essa questão, por exemplo, se for naquela perspectiva de o que é que o público quer, é errado porque vais estar a limitar-te a ti como entidade e tentar criar um hype.

Eu acho que deves estar preocupado em dar à canção o que ela merece. Acho que os músicos às vezes têm um bocado de medo, mas acho que faz parte. Não só os músicos como também os artistas. Acho que os artistas às vezes têm que ser egoístas, é um bocado chato dizer isto mas é verdade. Acho que todas as maiores obras criativas do mundo, tanto na música como em qualquer outra área, foram as obras em que foram criadas a pensar para o bem da obra e para o que satisfaz o artista. Ou seja, isto traz uma pureza gigante à obra final e ao produto final.

Mesmo que não resulte depois ao nível do público.

Fica ali um marco no tempo de uma obra que faz sentido para quem a fez e faz sentido para a obra em si, em que aquilo é tudo coerente e acho que isto é muito mais importante que tentar dar a um terceiro ou a qualquer outra pessoa.

Temos o caso dos Beach Boys com o Smile, que acabou por nunca ser concluído, há os Zombies que tiveram também o Odissey & Oracle que tirando o single, também não foi um sucesso.

Acho que são essas obras que perduram no tempo e é difícil um gajo abstrair-se, mesmo nós a fazer música. Acho difícil, porque ficamos com aquele nervosinho, “será que as pessoas vão gostar”, porque qualquer músico, qualquer pessoa que faça uma obra criativa e lhe dá um grande incuto pessoal, fica nervosa e quer que as outras pessoas gostem, faz parte da natureza humana. É difícil abstrair-nos disso, tentar fazer alguma coisa que seja mesmo verdadeira e nós acho que tentamos ao máximo, vamos ver se conseguimos.

Vocês já falaram em Beatles, e estivemos a falar de Beach Boys e de Zombies e afins. Vocês quando começaram a ouvir música, começaram a ouvir a música que estava a sair na altura? Começaram logo a ir a concertos com os vossos pais?

Muito Beach Boys, muito Beatles. Só ouvia Beatles em minha casa, era só Beatles, Beatles, o Anthology… Beach Boys e Beatles eram as cenas de carro dos meus pais. Passei a vida a ouvir Beatles. Era o Pet Sounds e um Best Of dos Beatles. Depois o meu tio era o grande viciado de Pink Floyd e eu ouvia muito Pink Floyd . Comecei por ouvir música por aí. Depois vimos o School Of Rock, na altura, então fomos ouvir mais rock’n’roll, Led Zeppelin e essas coisas. O Tomás esteve a infância toda a tocar música clássica, com os pais a mostrarem-lhe tudo de música, seja de clássico ou música alternativa dos anos 60 e 70, porque viveram essa época e teve um grande incuto nos pais. Nós sempre tivemos os nossos pais, felizmente, a mostrarem-nos imensa música. Começámos pelos grandes clássicos e ainda bem, com Beatles e Beach Boys e The Doors. Fez-me pegar na guitarra e depois a seguir em órgão. E depois na adolescência começámos a puxar aí pela distorção, e começámos a ouvir Metallica e cenas ainda muito mais pesadas que Metallica. Começámos a entrar por uns ramos muito estranhos e começámos a depois pegar mais na música progressiva. Voltámos à música conhecida dos anos 60 e 70 e hoje em dia ouvimos tudo e mais alguma coisa, desde actual ao mais antigo possível. Felizmente temos imensa coisa nova por descobrir. Para mim uma banda nova pode ser uma banda dos anos 60 que eu nunca ouvi falar. É a velocidade a que chegam as coisas hoje, é indiferente ser de agora ou ser de há 40 anos porque é novo à mesma.

Eu tenho a teoria de álbuns do ano para mim poderem não ser um álbum que tenha sido editado nesse ano, mas sim um álbum que eu descobri nesse ano.

Descobri um álbum de uma banda de kraut toda marada, estive a ouvir esse álbum o ano inteiro e, aliás, foi disco do ano. Eu concordo com isso, também.

Então pode-se dizer que vocês estavam uma espécie de bolha que também vos unia já na escola secundária, o gosto musical.

Eu lembro-me de partilhar headphones nos intervalos. O Tomás é dois anos mais velho e naquela altura existia aqueles complexos do secundário, ou terceiro ciclo, em que os mais velhos não se dão com os mais novos. Mas o Tomás não ia às aulas, nós não íamos, íamos todos lá para fora com os phones a ouvir as músicas que descobríamos, ficávamos lá horas e não íamos às aulas. E depois mostrar as músicas aos outros, como tínhamos bandas diferentes, “olha a gravação que nós fizemos”, e depois ele mostrava-nos a dele. Estávamos um bocado fechados e foi de certa maneira engraçado, não diria produtivo, mas engraçado pela maneira como começámos. Nós estávamos numa bolha tão fechada que não conhecíamos mais ninguém da música portuguesa e estava a haver um grande boom na música portuguesa na altura. Aliás, nós começámos a pegar muito na música em português, com a Flor Caveira, por causa da história com os Pontos Negros, depois lá para o norte com peixe:avião. Sempre gostámos imenso e houve sempre imensas bandas a acontecer mas nós não conhecíamos nenhumas, não conhecíamos nenhuns dos miúdos que estavam a tocar, só nos conhecíamos a nós e estávamos numa bolha um bocado estranha em que só ouvíamos a nossa música estranha e só ouvíamos Frank Zappa e Gentle Giant e assim umas coisas estranhas que mais ninguém ouvia. Depois quando começámos a tocar foi engraçado. Para onde é que vamos tocar? Não conhecíamos ninguém, e começámos aí a atirarmo-nos para uns sítios. Depois a Chifre acabou por pegar em nós porque viu-nos no Maxim, já nem sei como fomos tocar ao Maxim, isto tudo na altura do Myspace, que hoje em dia, existe e não existe ao mesmo tempo.

Já não tem o peso que tinha.

Já não. Tivemos como Capitão Fausto, nós ainda tínhamos página no Myspace, mesmo no fim. Mas foi engraçada a maneira como começámos e foi uma altura muito fixe para a música portuguesa, em que havia várias dessas bolhas como estás a dizer.

Acontece de vez em quando uma pessoa está tão embrenhada num estilo musical, num género, sem ser redutor, mas estar embrenhada num universo quando descobres que afinal há mais pessoas que também estão na mesma bolha e abrem-se as portas que uma pessoa anda à procura.

Nós não fazíamos mesmo ideia. Os nossos concertos era basicamente, davam-nos um sítio para ir tocar e nós dizíamos aos nossos amigos para irem. Nem punhamos a hipótese de haver pessoas que não conhecessem a música ao vivo. Era para os amigos só. E houve um desses concertos, por acaso estava lá o Samuel Úria, o Jónatas, que hoje em dia é malta que conhecemos muito bem, porque era o concerto do C de Croché, e ele tinha imensos convidados, que era o Diego Armés também… era imensa malta. E pronto, a partir daí, começámos a fazer imensas amizades e a descobrir que tínhamos também imensos gostos em comum e começámos a descobrir essas várias bolhas da música, especialmente aqui em Lisboa, e foi fixe, foi uma altura fixe para começar.

E vocês lançam-se desafios também? Por exemplo, saiu agora o segundo álbum, vocês estão num ligeiro buzz, não só porque saiu o álbum mas também porque foi um caminho que vocês têm vindo a fazer. Vocês lançam-se desafios para não ficarem confortáveis com o que está?

Acho que sim, nós sempre fizemos sempre muito disso ao vivo. Não gostamos de nos repetir nos concertos, fazemos sempre questão de fazer os concertos diferentes, de fazer coisas novas só para um concerto. Agora estamos a preparar o concerto para o CCB e vamos ver se fazemos uma coisa diferente.

O que quero dizer é que pode-se cair no erro do facilitismo, de “chegámos a um patamar, agora vamos ride the wave desse patamar. Mas ao mesmo tempo, como vocês estavam a dizer à bocado, não foram com uma ideia fixa para o álbum. Foram duas semanas para um sítio, compuseram, mostraram ideias que já tinham previamente e depois gravaram.

Eu acho que nós sempre fomos um bocado assim. Nós só estamos a fazer música neste momento porque gostamos. E divertimo-nos imenso a fazer. E por isso temos sempre, não é uma necessidade grave, não é uma necessidade positiva de continuarmos a fazer coisas que nos surpreendam e nos façam gostar mais daquilo que fazemos.

Para não se entediarem também.

Achamos que o disco é uma fotografia da banda na altura e se nós agora fôssemos gravar outro disco ia ser provavelmente completamente diferente pelo tipo de pessoas que nós somos agora.

Ou até mesmo se fossem gravar estas músicas outra vez.

Iam ser diferentes também. Às vezes estamos a ensaiá-las para tocar ao vivo e já estamos a mudá-las. “Epá, mas isto não ficou tão bem, bora fazer assim.” Já estamos a mudar. Agora andamos a gravar músicas que de bandas diferentes mas é a mesma banda. Há duas bandas dentro da mesma banda e já andamos a gravar coisas completamente diferentes porque gostamos. De facto, estamos a ter imensa sorte, estamos contentes, o disco está a ser bem recebido e estamos a ver é que as pessoas felizmente gostaram desta cena que nós fizemos e que foi um risco, que é completamente diferente do primeiro disco. Não queremos nada manter e aguentar a onda, como estavas a dizer. Não queremos nada agora “ah isto resulta, então vá, agora é repetir a fórmula”

Que é um erro que se faz muito.

Nada disso. E acho que esse é um paradigma perigoso. Isto não foi nada premeditado da nossa parte, nem tomámos essa decisão. Mas acho que se tivéssemos continuado com a cena que eu acho que nos marcava mais no primeiro disco, por acaso não foi premeditado não o fazer. Simplesmente não aconteceu. Mas acho que se tivéssemos continuado com os la la la – nós éramos a banda dos la la la, todos os refrões tinham la la – não foi premeditado mas que ia ficar a sensação que estávamos a repetir uma fórmula.

E ia ficar um bocado aquém das expectativas, também.

Também. Mas por acaso não foi premeditado, acabou por acontecer. E acho que isso seria um exemplo daquilo que estavas a dizer, e que seria uma repetição se calhar mais confortável nós pormo-nos naquele patamar porque sabíamos que resultava.

E é aquela questão de não haver pressa, percebes? Ou seja, mais vale vocês manterem uma identidade. Às vezes não é só repetir a fórmula, não é? Às vezes pode-se repetir a fórmula de um modo inconsciente, como estávamos a falar à bocado, “isto resulta, vamos fazer um bocado a mesma linha”, ou então, “isto resulta mas saem coisas diferentes”. Mas quando não é muito pensado, e é também um bocado aquela questão do desafio, acaba por se manter uma linha de identidade da banda mas com um produto diferente. Por exemplo os Radiohead, se ouvires qualquer álbum dos Radiohead, é Radiohead. Mas pegas no primeiro e pegas no último e é completamente diferente.

Eu acho que também se sente isso, acho que dá para perceber que são as mesmas cinco pessoas a tocarem em ambos os discos. Há uma linha condutora entre ambos. Mas são de facto discos diferentes. E depois a questão de não haver pressas. Nós achamos que em Portugal as bandas fazem-no por carreira, não é como os Arctic Monkeys que lançam um disco e fazem o maior sucesso de todo o tamanho em duas semanas e meia. Aqui em Portugal as coisas são bastante diferentes. Nós acreditamos mais que temos que fazer um conjunto de vários discos que se possam ouvir e mais do que estares à espera que um disco seja o que vai trazer tudo. Acho que o mais importante é veres o espólio todo de uma banda e ver a carreira toda. Acho que se por acaso agora no terceiro disco fizermos um disco muito estranho que não pega, mas que se calhar daqui a uns anos vai ser interessante a abordagem desse disco e isto acontece com imensas bandas. Ver como se passa de um lado para o outro. E depois como desse álbum se passa para o próximo. Acho isso interessante numa carreira de uma banda.

Ao mesmo tempo, estavas a dizer, olhar para o espólio de uma banda, nós também temos um bocado a sorte de fazer uma retrospectiva. Podemos pegar nos Gentle Giant, ou os Pink Floyd, infinitas bandas que têm no mínimo oito álbuns e nós com esta distância não tivemos que passar pelo processo de “como é que sai o próximo” e pegas naquilo tudo e fazes uma retrospectiva.

E foi na verdade o que eu fiz, porque quando nós conhecemos o Tomás, uma das bandas que ele estava a ouvir era os Radiohead. Eu acho que foi a primeira banda com a qual eu percebi isso e essa diferença. Também porque ouvia Beatles na altura e ainda não encontrava bem aquelas fases todas deles. Na altura não encontrava e os Radiohead foram a primeira banda em que eu percebi que os discos são muito diferentes, mas isto soa a uma banda.

Mas também há diferenças, porque os Beatles começaram a mudar gradualmente. Mas se formos a pensar bem na longevidade da banda em si, que existiu durante 8 anos na verdade, da época do Please Please Me até ao Let It Be, tendo em conta que é um processo muito mais rápido… Ou uns Creedance Cleerwater Revival que tinham 3 álbuns por ano, se fosse preciso. E na verdade existiram 3 anos só e têm 6/7 álbuns e por aí fora.

Buffalo Springfield também teve… 2 anos? E tem bué de discos, na altura era uma cena diferente. Isso era uma coisa que nós gostávamos de fazer. O nosso único problema é, se eu não tivesse que estudar e não tivesse coisas para fazer, acho que nós conseguíamos gravar tipo um disco por ano, vá. Porque nós não temos mesmo tempo para fazer mais. Gostava também de ter meios, de ter um estúdio disponível. Porque essas bandas até me fazem inveja. Os Gentle Giant faziam álbuns complexos e tramados, um por ano, e hoje em dia acho que se ganhou um processo chato em que o disco tem que se esperar que atue para os senhores ficarem à espera e depois tem que haver um grande processo para gravar o disco, e depois o disco demora imenso tempo. O nosso próprio disco demorou agora imenso tempo a sair. É uma coisa que se perdeu de antigamente, achava fixe que isso voltasse. Já há agora uma data de bandas, felizmente, bandas da nova cena toda do garage que estão a caminhar para aí e os Thee Oh Sees que supostamente tinham acabado, mas voltaram agora a mais um disco.

Eles fizeram um hiato.

Fizeram um hiato, mas o hiato demorou para aí uns 2 ou 3 meses. O gajo decidiu por um hiato, depois o John Dwyer foi gravar umas músicas a solo e agora já há uma música de Thee Oh Sees juntos. E adorava que voltasse isso. Vivia-se uma altura cheia de vida e cheia de energia na música. Os anos 90 e os 2000 passaram por um processo tramado porque a música estava a vender imenso e começou a passar por um processo inacreditável em que os videoclips começavam a custar aos milhões e a música passou por um processo muito difícil. Mas agora está outra vez a voltar para trás.

Também entram em questão algumas coisas, por exemplo, aparece o meio digital com os CDs que levam 80 minutos de música, então começas a ver bandas a fazer álbuns de mais. Para mim o tempo ideal de um disco é até 45 minutos. É como me habituei a ouvir discos e por altura da cassete, que dava para gravar dois álbuns em cada lado da cassete.

O nosso álbum tem por aí 50.

Ainda pode ser, vá 🙂 O que quero dizer é que começou a explorar-se uma possibilidade tecnológica de ter 80 minutos de música. Nem sempre é bom e nem é vantajoso. Falta aquele discernimento “isto é mesmo bom ou põe-se só?”

Será que vale a pena pôr isto no disco?

E depois faz muita falta a rodagem de bandas, e por rodagem digo, na estrada. Por exemplo, estavas a falar dos estudos e estavas a falar à bocado dos The Doors. Os dois primeiros álbuns são do mesmo ano, se não estou em erro.

São, são. O “The Doors” e o “Strange Days”.

Com os Creedence passa-se a mesma coisa. Vocês acham que faz falta a ideia de circuito, em que vocês possam realmente mesmo estar em tour?

Eu acho que faz mesmo falta. Nós tentámos fazer isso no fim de 2013 em Dezembro, em que fomos tocar a uma data de bares pequenos por Portugal. E bares que… por exemplo, chegámos a um sítio e a última banda que tinha lá ido ainda era para aí os UHF e os Xutos. Aliás, estava lá um gajo que ainda tinha a t-shirt do concerto e vira-se todo bêbado: “Os UHF é que são a melhor banda!” e mostra a t-shirt dos UHF. Na altura, nos 80, começou a aparecer a onda do new wave e punk em Portugal, começou a haver grande rotação de bandas, porque também era algo muito novo em Portugal e era fresco. Tínhamos acabado de vir de um regime gigante, não houve música durante imenso tempo e de repente havia. Os putos todos queriam era tocar, havia imensos bares e bandas estrangeiras a vir, e entretanto acho que isso se perdeu um bocado. Depois entrou a cena toda das Queimas, houve uma altura em que as bandas só tocavam nas Queimas e acho que falta esse circuito dos bares.

Houve aquela época muito negra também, de “dá para ir aí marcar um concerto?” “Dá.” Então marcávamos só o concerto, mas condições não havia nenhumas.

Nós o que fizemos desta vez foi, não existindo esse circuito, nós tentámos ainda assim arranjar uma série de clubes onde desse para nós fazermos uma coisa de não voltar para casa, em digressão fomos dez dias. Isso foi uma coisa que nunca houve muito em Portugal. Houve numa certa altura mas nunca muito bem. Uma das coisas que faz diferença, e tu vês isso noutros países, nos Estados Unidos onde há bares em todas as cidades, são 50 à tua volta… Uma banda não precisa de ser grande e faz digressões num estado e faz uma vida a tocar. O que nós fazemos num ano eles fazem num mês. Mesmo que seja de culto médio e não seja muito conhecida.

Embora haja também a questão da percepção que nós temos de bandas que vêem de fora. Nós pensamos às vezes “estes gajos estão aí a fazer uma tour pela Europa, se calhar só vivem disto” mas nem sempre é verdade. Nem sempre ou aliás, a maior parte das vezes não é verdade.

O Rui que fazia luzes para o Lux esteve-nos a dizer que fez a digressão com os Cradle Of Filth e com os Moonspell e que é malta humilde, não é nada aquelas digressões que tu achas que eles estão a fazer milhares ali. Vês bandas portuguesas a fazer isso, vês o Tigerman, que toca bastante cá e depois toca imenso lá fora. Mas por exemplo os More Than A Thousand quase que tocam menos cá em Portugal e estão cada vez mais sediados fora de Portugal e eles fazem tours pela Europa e mexem-se muito bem e estão sempre a marcar concertos. Ultrapassam depressa a cena do “não há muitas condições mas nós safamo-nos” e arranjam a sua maneira de fazer vida daquilo. E isso falta um bocado em Portugal, falta primeiro haver a aposta dos bares. Às vezes as pessoas pensam que a culpa é das Câmaras, que as Câmaras é que têm o dinheiro todo, mas não. Esta digressão toda que fizemos, fizemos com dinheiro à bilheteira. Não havia dinheiro da Câmara para cachê, ganhámos os custos da bilheteira e estivemos ali a fazer continhas para ver “será que o dinheiro deste concerto vai chegar para pagarmos a gasolina”.

Temos de ter x pessoas para pagar a gasolina.

No fim das duas semanas será que conseguimos para pagar a carrinha toda? E acho que falta isso às bandas. Primeiro, aprenderem como é que funciona e para tocarem mais, para tocarem melhor ao vivo e depois para esses bares se aperceberem que os miúdos gostam de ver essas bandas a tocar e para chamar a cartaz.

Para ser rentável. O dinheiro tem uma quota parte importante, que é ser sustentável ou não.

Mas acho que está a acontecer isso em Portugal e é fixe e por isso é que se vê imensas vezes, e eu vejo cada vez mais bandas a aparecerem com a cena do on-line, como estavas a dizer. Cada vez mais no Facebook os miúdos começam a ensaiar e fazem logo uma página de Facebook para a banda. Mas eu acho isso óptimo e fico contente de se estar a viver isso aqui.

Vocês conseguem conciliar bem a vossa vida fora dos Capitão Fausto?

Conseguir conseguimos, mas se eu tiver de ir fazer um exame ou ir dar um concerto, vou dar um concerto. Aliás, demorámos a chegar ao fim do curso, estamos todos no último ano, porque tomamos essa decisão: “Vou às aulas ou vou para o ensaio ou para o concerto? Vou para a banda.” Mas acabamos por conseguir conciliar, felizmente no liceu não deixámos nenhum ano para trás, só agora na faculdade é que a banda começou a ter mais trabalho, deixámos um ano ou dois para trás. Mas estamos a conseguir.

Em Portugal, para muita gente a música ainda é um passatempo e um desperdício de tempo, mais do que necessariamente uma função que para nós é vital.

E os nossos pais, durante algum tempo, viam isso um bocado dessa forma. Até perceberem que nós, embora façamos isto para nos divertirmos, levamos isto muito a sério. Não nos gostamos de nos ver como profissionais, e acho que grande parte das bandas não pensa assim, mas levamos muito a sério aquilo que fazemos.

Dentro do amadorismo, ser mais profissional.

Somos muito perfeccionistas em muitas coisas, noutras não tanto. E, de facto, há muita gente que acha que é um passatempo e por isso é que também muitas vezes não há um respeito pelas bandas e pelos putos que vão tocar.

Pensam que é chegar a um sítio, ligar tudo e está tudo feito, que não há um trabalho todo por detrás.

Eles acham que estão a fazer um favor às bandas que vão tocar e por isso não nos devem nada. Nós levamos muito a sério aquilo que fazemos e as pessoas não sabem que às vezes… Isto não é numa de queixar…

Não, é só ter a noção real de como as coisas funcionam.

Na verdade, tu às vezes vais dar um concerto e se calhar há bandas que para trás têm um ano e tal em que estiveram fechadas a tocar e puseram muito delas ali nesse concerto, ou nesse disco ou em qualquer coisa, e muitas vezes eu sinto falta de respeito. Porque eu considero fazer música uma coisa tão importante como outra qualquer. Outra coisa um bocado mais séria, da altura em que vivemos em Portugal. Há pouco tempo vi um post no Facebook do Nicotine a falar sobre um bar no Barreiro que fechou. É um bar que fecha porque as pessoas em Portugal já ganharam o hábito de, primeiro chegar tarde aos concertos, que é uma coisa parva que não percebo…

E de se queixarem se o concerto começou a horas.

Exactamente. E depois queixam-se. E outro que é de pagar para ir ver concertos. E às vezes faz-me bué de confusão, uma pessoa vai ver um concerto, 10e. Eh pá, não. E é chato, e depois acabam por só ir a concertos à borla.

Às vezes 3 já é… já dava para 3 jolas. “Só por 3, não dá para fazer um jeitinho?”

Isto é a minha teoria da conspiração, mas isso é uma grande teoria que eu tenho. Os portugueses adoram buffets, adoramos buffets de bandas. Nós adoramos festivais, os portugueses adoram festivais. Adoram. Pago €70 e vêm estas bandas todas que eu adoro.

Mais do que ver bandas, estas bandas todas que eu adoro, pago €70 e vou acampar com os meus amigos. Eu não sou a pessoa mais festivaleira do mundo, quando vou a um festival, posso ir se calhar a um dia só para ver uma banda porque sei que não há outra maneira e é muito complicado. Por exemplo, ainda há uns anos atrás, quando o Iggy & The Stooges foi tocar ao Optimus, a seguir a Foo Fighters, na altura era só pessoal da mochilinha para ver Foo Fighters. Eu queria chegar mais à frente, queria mesmo ver aquelas coisas…

Eu gosto imenso de ir a festivais, mas também gosto imenso de pagar um bilhete para ver uma banda. Primeiro porque num festival a banda está a fazer um desafio diferente.

Eu também gosto de ir a festivais, obviamente, mas eu vou mesmo pela música não é pela patetice que joga à volta de ir a um festival.

Isso acontece muito hoje em dia… por acaso o único que nós costumamos ir mais por causa disso mas que felizmente o cartaz tem sido sempre forte, especialmente este ano, é o Super Bock, que tem a cena ao pé da praia e as pessoas aproveitam para fazer férias. E o Sudoeste que tem essa tradição. Vão bandas que provavelmente as pessoas que lá estão não ligam muito ou conhecem só uma música ou duas e vão lá para passar férias. E as pessoas com esses festivais todos perdem um bocado a noção do que é pagar um bilhete para ver uma banda. Até me faz confusão. Podem não ser artistas que eu adoro mas que vêm cá, grandes nomes americanos. Chegam ao Pavilhão Atlântico e marcam duas datas e depois têm que cancelar a segunda porque as pessoas já estão a perder o hábito de pagar para ver um concerto. E acontece isso que o Nick Nicotine disse, que depois os bares vão à vida. Somos um bar de espectáculos, temos aqui as bandas, precisamos de bandas para vir aqui dar concertos e depois é chato para os bares chamar bandas de covers. Eu acho que o que está em causa não é as pessoas não gostarem de ver concertos, os festivais provam isso. As pessoas adoram. Mas gostam mais de buffets, acho eu. É preciso voltar a essa tradição e as pessoas de pegaram e irem aos bares ver, porque vão para uma cena diferente de um festival, vão para um espectáculo à séria e vão ver uma banda e vão estar próximo da banda. Acho que faz falta.

Qual foi que foi o concerto que vos marcou mesmo a sério? Ou os concertos que vos marcaram.

Já tivemos alguns. Este último agora do lançamento no Porto foi uma grande experiência.

Não é necessariamente dos Capitão Fausto. De vocês, pessoalmente.

Isso é ainda mais complicado de responder.

Eu vou dar um exemplo, se quiserem. Um dos meus foi Mudhoney na margem sul. No Culto, que era um bar pequeníssimo e aquilo fazia-me transportar no tempo uns 20 anos. Estava tudo à pinha, tudo a suar, fiquei literalmente surdo porque estava ao lado do PA.

Eu há uns anos atrás, lembro-me de quando éramos miúdos, estivemos todos o concerto de Metallica, quando éramos fanáticos. Éramos putos. Foi o maior acontecimento de sempre, ainda por cima um concerto incrível em que os Metallica não tinham ainda disco novo, ou seja, foi um concerto só para tocar. Tocaram o Orion ao vivo, que nunca tinha visto, o Justice For All, tocaram aquelas que nós queríamos mesmo ouvir. Esse gig foi o primeiro que vi dos Metallica e esse foi inacreditável. Foi no Super Bock, já não sei há quantos anos atrás. E esse lembro-me, é engraçado porque estávamos todos juntos. Estive há poucos anos atrás, e esse para mim foi uma maneira mesmo diferente de ver o que é um espetáculo de uma banda e como é que uma banda pode funcionar tão bem ao vivo e fazer de uma cena, um momento tão intimista, que foi Fleet Foxes em Itália, que foi incrível. Vi os Fleet Foxes antes no Alive e foi um grande concerto, eles portaram-se bem num festival, que é tramado, uma banda tipo Fleet Foxes tocar num festival, que é cheio de barulho e eles são bué de calminhos. Portaram-se muito bem e fui a Itália e vi-os e foi ainda mais surpreendente. Como é que uma banda consegue chegar àquele nível. Tive dois concertos que gostei muito. Um deles foi Radiohead no Alive, estava com um som inacreditável, estava baixinho… Foi um grande concerto. É Radiohead, ou seja, há muita gente que pode ter achado que aquilo tenha sido um bocado secante. Eu vi o concerto todo calado, sem olhar para ninguém, naquela melancolia barra depressão maníaca… e outro concerto que tenha gostado muito, Pulp em Paredes de Coura. Foi inacreditável, foi um concerto do outro mundo. Adorei. Fui com o Tomás, na altura fomos os dois acampar para lá e nessa noite por acaso aconteceu uma coisa engraçada. Tens sempre aquele esquema de entrar com a garrafinha lá para dentro e eu e o Tomás fomos apanhados a entrar com as garrafas e os gajos disseram-nos assim, no dia de Pulp. “Vocês só podem entrar daqui 5 horas.” Então eu e o Tomás fomos um bocadinho lá mais para cima e dissemos, “se calhar bebemos as garrafas todas que temos e tentamos entrar aí à socapa.” Então bebemos as garrafas todas que tínhamos, apanhámos uma tosga gigante e depois foi uma noite fixe de concertos. Quando chegou Pulp foi o êxtase, foi um grande concerto.

Aí também há aquela questão, não foi só necessariamente o concerto, mas também a experiência toda à volta, a história toda por detrás.

E ir com os amigos… eu lembro-me que nós fomos uma vez todos juntos também à margem sul, deu-nos para ir todos juntos e fomos ver Porcupine Tree. Foi a nossa fase prog. Fomos todos juntos, metemos o carro no barco, e esse também foi bué de engraçado. Eu gosto desses concertos em que vamos todos juntos e depois cada um cria a sua memória diferente do concerto. Mas na verdade, já são tantos concertos inacreditáveis… Um concerto que eu adorei foi o Super Bock, aquele Super Bock em que tinhas Arctic Monkeys, The Strokes e Arcade Fire, que estava esgotado até à pinha, o concerto de Tame Impala desse festival foi inacreditável. Mas foi bué de calminho. Foi no palco secundário, ainda não havia muita gente que conhecia a banda e estavam aí umas 500 ou 600 pessoas no concerto. Foi ao final da tarde, eles só tinham o primeiro disco e foi um concerto muito fixe. Adorei esse concerto. Não foi como no Alive, no Alive foi mais com big budget.

Voltando à questão, qual foi o punhado de concertos de Capitão Fausto que vocês ficaram surpreendidos, não só com a reacção do público, pelo ambiente todo ou mesmo por vocês. À medida que se vão dando mais concertos há aquela cena do “ah, vou dar mais um concerto”, mas depois acabam por se surpreender. Se calhar foi muito melhor e mais dentro da onda que se estava à espera.

Há pouco tempo houve dois no Porto que foram bastante surpreendentes. Nós, tirando no warm-up de Paredes de Coura e no Vodafone Mexeste, nunca tínhamos ido ao Porto em nome próprio e a primeira vez que fomos foi naquela tal digressão em Dezembro. Fomos ao Maus Hábitos e foi uma loucura. Tudo destruído e o som todo manhoso, mas uma grande festa e esse deu imenso prazer. Depois no fim do concerto foi bué divertido. E agora também no lançamento foi fixe ver, e não estávamos nada à espera, primeiro que a sala esgotasse, e ver as pessoas no Porto a cantarem as músicas. De facto, somos uma banda muito centrada em Lisboa, é aqui que estão os nossos amigos todos e foi aqui que começámos. E foi fixe começar a ver pessoas a aparecer no Porto, só pelo nosso nome e não por um festival. E esses dois foram um marco muito fixe. Depois houve mais uns quantos no Gazela também, quando começámos a ir viajar por Portugal a tocar, houve aí uns quantos fixes. Houve um com o Lucas Bora Bora em Coimbra.

E lá para fora, vocês têm ideia de tentar exportar a coisa ou vão-se ficar mais por aqui?

Nós achamos que ainda há muita coisa para fazer em Portugal, mas obviamente não dizemos que não, nós queremos é tocar. O Salvador diz, e com razão, que nós estamos muito centralizados em Coimbra, Porto e Lisboa. E essa é uma das razões pela qual fizemos a digressão por Pisões, Caldas da Rainha, Pombal, tentar ir a esses sítios mesmo que não esteja muita gente. E o feedback foi fixe. No dia a seguir a malta diz-nos, “gostei do vosso concerto, fui ouvir os discos…” Ou seja, achamos que ainda há muita coisa para fazer, agora, não dizemos que não a exportar a música. Não vamos pedir às pessoas que trabalham connosco, “pá ponham-nos a tocar lá fora.”

Mas nem sequer naquele universo, “vamos só fazer um pequeno scouting, e depois ver se será que aqui isto pega”?

Nós estamos com umas ideias de fazer umas cenas com o Brasil. Há imensas coisas agora no Brasil, há imensas bandas a aparecer e há imensos sítios agora por explorar. Há também agora bastante actividade em Espanha, os espanhóis agora com os Primavera Sounds. Espanha finalmente está a abrir mais as portas a bandas estrangeiras que não as deles. Espanha foi sempre muito virada para ela própria, têm um universo musical e um mundo musical só mesmo deles.

Não é necessariamente fechado, mas também é extenso. Não precisam de importar nada.

E extenso, eles têm tudo e mais alguma coisa, de música eles precisam de importar muito pouco.

Um pouco como estavas a dizer à bocado, em relação aos Estados Unidos ou até mesmo Inglaterra. Há tantas bandas, há tanta coisa… Há vários sítios para tocar, há condições e há bandas que estão sempre a tocar.

E os gajos depois não precisam de importar porque, isso é uma das partes complicadas. Os gajos pensam, “mas depois tens que pagar as viagens de avião aos gajos…” É por essas razões todas que eu acho que é importante não estar já com o plano de conquistar o mundo, porque há muitas bandas que se perdem nisso, há imensas bandas, especialmente cá em Portugal, que começam a cantar em inglês e fazem logo um disco e depois começam já logo o site ou a página de Facebook é toda já em inglês a prepararem-se para a internacionalização e o ataque mundial e acho que isso só vai fazer pior. Acho que as coisas têm que se construir a pouco e pouco, como estavas à bocado a falar de uma carreira de uma banda que se observa pelo espólio e não só por um disco que fez sucesso. Acho que tal como os discos, acho que a carreira de uma banda, para tocar pelo mundo inteiro, se faz a pouco e pouco e acho que temos que ser incríveis na nossa aldeia, que é Portugal, antes de chegar ao resto do mundo.

Aliás, até os Beatles só foram aos Estados Unidos depois do Nº 1.

E muito antes disso ainda estiveram na Europa a mandar uns toques para ver se tocavam melhor. Tocavam uns covers, mas isso foi antes, muito antes.

Aliás, há quem diga até os Beatles verdadeiros eram aqueles antes do primeiro álbum. Foi em Hamburgo que eles realmente começaram a aprender a tocar como deve ser e aliás, até o primeiro baterista deles, o Pete Best, foi contratado no dia anterior. Também é uma lógica muito diferente.

Para mim o melhor é o Damo Suzuki. Os Can iam tocar e não tinham vocalista. Depois iam na rua, viram um gajo a rezar e a fazer umas cenas. “Olha queres tocar?” e ele “Ah mas não sei as músicas”, “Não faz mal, apareces lá, é na boa” e foi dar o concerto. E depois ele também cagou para Can com uma pinta, quando lhe apeteceu. Acho que é isso, estamos agora a preparar coisas cá porque ainda temos imenso para fazer cá. Mas também temos imenso gosto em ir para fora especialmente, esses tais países irmãos, tipo Brasil e Espanha, não só pela língua mas também por várias afinidades. Acho que é importante também apostarmos aí. E queremos, claro. Temos imenso gosto.

Então e agora uma pergunta inversa à das influências. Que bandas é que vocês absolutamente não suportam?

Essa é boa. Ainda não nos tinham feito essa, acho eu. A ver se consigo dizer umas quantas. O que é que eu estive a ouvir no outro dia que me apercebi que era mesmo fraco… É que eu gosto de bandas que é o óbvio de mau, adoro. Há pouco tempo ouvi, e o novo disco dele é muito mau mas eu estava a gostar, que é o novo disco do R. Kelly, do “I Believe I Can Fly”. Agora tem novo disco, é bué ordinário, é tipo “you can kiss my candy”, e tens umas cenas bué ordinárias.

Mas isso é um guilty pleasure, é diferente, isso é outra questão.

Digo-te já uma banda que eu acho péssima, Megadeth.
Mas isso é aqui a equipa Metallica a vibrar. Podia-te dizer umas portuguesas mas se calhar é mau 🙂

Va bene. Acho que está tudo!

Óptimo, fantástico, boa conversa! Tá-se bem, tá-se bem!