A voz continua a escorrer lenta e ambígua pelas texturas de sombra e fragilidade das palavras nuas e pessoais de Greg Gonzalez. As notas recusam-se a ganhar mais vida que aquela necessária para despir as emoções de forma sensual e desesperadamente contida. Os Cigarettes After Sex continuam a ser um caso único de sensibilidade crepuscular, silêncios e uma porta escancarada para histórias de intimidade desarmante: a dor, o amor, a perda e o sexo na primeira pessoa são uma identidade mais que afirmada na obra ainda curta da banda de El Paso, Texas.

O percurso do alter-ego do músico e escritor de canções norte-americano fez-se de uma forma quase rara em pleno século XXI: as canções pelas canções, singles esporádicos e um rápido culto planetário que abriu as janelas e correu as cortinas foscas da alma de Greg para deixar entrar o mundo todo. Mais tarde, muito mais tarde, veio um disco e a confirmação que os Cigarettes After Sex iriam ser um caso particular, único e especial de amor entre o globo e a quietude inquieta das canções do músico.

Um ano depois do lançamento do disco de estreia homónimo, os Cigarettes regressam para mais do mesmo com tudo o que isso tem de bom. “Crush” continua a fazer dos ecos que os Mazzy Star e os Cowboy Junkies deixaram no ar um elixir de languidez nocturna e nebulosa… ou seja, precisamente nem mais nem menos do que aquilo que se quer de um tema dos Sex.

“Crush” chega sem notícias de álbuns ou EPs. A música pela música tal como antes, as palavras pelas palavras como sempre.

I wanna fuck your love slow
Catch my heart, go swim
Feel your lips crush
Hold you here my loveliest friend