Onde o blues se encontra com o espírito desencarnado há muito de Edith Piaf e de Jeff Buckley, no mesmo cabaret de sombras em que a saudade e a poderosa capacidade de puxar para o lado de fora da pele a emotiva observação sobre os lados mais frágeis da condição humana, é o mesmo lugar em que se pode encontrar e compreender da melhor forma a obra de Asaf Avidan.

O músico israelita vive desde sempre nesse espaço estranho e muito próprio onde as grandes vozes femininas do great american songboook – como Billie Holliday e Mahalia Jackson -, onde os senhores maiores da escrita de canções do século XX – como Leonard Cohen, Robert Plant e Bob Dylan -, o assombro parisiense, o fumo da cave de um clube de jazz em New Orleans, a folk de tantos lados, a simples forma de encaixar um universo de tanta coisa numa só estrutura e simplicidade intrincada e a egoísta necessidade de aniquilar demónios pessoais, são um e um só.

A caminhada de um dos grandes caçadores de memórias e demónios dos primeiros anos do novo milénio não se conta da mesma forma que tantas outras histórias. Não foi um menino prodígio, não descobriu a guitarra em pequenino, não cresceu em bandas e não se sabe se o rock n’roll sempre foi o catalisador para lhe salvar a alma. Asaf Avidan agarrou numa guitarra já com 26 outonos vividos, depois de a namorada de anos o ter deixado. De forma inocente e fortuita, Avidan encontra a partir daí o génio que lhe iria soprar os pós de um talento monstruoso no rosto, na voz, nas mãos. Desde então, passaram-se já 11 anos, e o músico israelita, filho de diplomatas que o colocaram em vários pontos do globo terrestre durante o processo de crescimento, ao longo do qual arrecadou um espectro extenso de influências de várias latitudes presentes na sua música, continua a cantar o amor na sua forma mais triste: o desamor.

Seis discos de originais, três dos quais enquanto Asaf Avidan & The Mojos, são reuniões de corações partidos, de desencontros no tempo, de dores e tormentas entre as cordas das guitarras que ligam habitualmente o coração à alma, o alimento para a criação das melhores obras na arte de escrever canções. The Reckoning de 2008, Poor Boy/Lucky Man de 2009 e Through the Gale de 2010, foi a tríade inicial com os The Mojos que terminou em 2012. Uma tour a solo pela sua terra natal e a resposta imensa e inesperada do público ao novo formato, levaram-no a uma revisitação da própria obra. Sessões gravadas com uns poucos amigos a emprestar o seu talento em temas pontuais ao longo de 48 horas num espaço em bruto. Sem ensaios, sem estúdios, praticamente sem produção, nasce uma lenda dentro de uma história, Asaf In A Box I. Uma lenda que se repetiu novamente com Asaf In A Box II em 2016, gravado no La Chartreuse de Neuville, em França. Um homem, uma guitarra e os seus pedais e um intimismo assombroso.

Começa em 2012 com Different Pulses a segunda vida de Avidan e com ele o reconhecimento a nível global quando um remix ilegal de um dos seus temas, “Reckoning Song” do disco de estreia, é lançado pelo DJ alemão Wankelmut. Uma versão mal amada e descrita por Avidan ao SFGate como,

… a Frankenstein version of what I did. Somebody took these things that I very precisely put out in the world and watered it down to a place where you keep one of the sentences of the song and repeat it over and over.

Mais dois registos de estúdio, Gold Shadow em 2015 e The Study on Falling já deste ano, encerram até agora o percurso singular do músico de Jerusalém. E é precisamente com o caso de estudo sobre a queda e o desamor, que Asaf Avidan se estreia finalmente em Portugal. A Solo Tour europeia de Avidan passa por Braga, para uma data Theatro-Circo, a 20 de Abril de 2018 e por Castelo Branco no dia seguinte, em local a confirmar. Os bilhetes para a noite de Braga custam €15 (Cartão Quadrilátero: €7,5) e estão disponíveis nos locais habituais.

Asaf foi recentemente convidado pelo canal ARTE para uma sessão no Château d’Hérouville, transmitida na sexta-feira passada e que podem ver em baixo, juntamente com o mais recente vídeo para The Study on Falling, ” My Old Pain”.