Uma mente negra e brilhante entrelaçada numa alma profunda deu ao mundo uma criatura rara de seu nome King Dude. E como todos os grandes Reis, até os mais pequenos Reinos são agraciados, de tempos a tempos, com a sua presença.

Ao contrário dos grandes banquetes e bailes em salões iluminados, as festividades em honra da sua visita habitam num pequeno bar revestido a sombra e a luz vermelha, mergulhado em brumas de fumo de cigarro, em copos de cerveja, murmúrios e conversas em frente ao palco por acólitos vestidos de preto num compasso de espera um pouco prolongado.

He’s all dressed in black as midnight
Your funeral’s his church
Your misery’s his company
Your sorrow is his hearse

Quando King Dude se materializa de negro vestido, guitarra a tiracolo, garrafa de whisky e maço de cigarros no palco intimista do Sabotage e as primeiras notas voam sobre o público através da sua intensa e carismática voz profunda, capaz de lançar uma névoa de pura sensualidade, o magnetismo da sua presença agarra-se aos ossos e aos órgãos, subindo pela pele, depositando visões de uma América sombria, do charme poeirento do folclore sul americano onde histórias de almas vendidas numa encruzilhada sāo mais do que contos populares.

King Dude @ Sabotage Club

King Dude @ Sabotage Club

Num milésimo de segundo, King faz viajar para um mundo de baladas atormentadas, de personagens negras, de rock desalinhado e desarticulado, desestabilizando a noção de que as canções ou a música só vivem num mundo a preto e branco sem margens para agregar toda uma área cinzenta amadurecida em dualidades que chocam e se complementam. King é um ser em constante e perpétua mudança e evolução, fortemente inspirado por uma busca de melhoria pessoal através da iluminação espiritual e das experiências físicas. Luciferiano assumido, incorporou as filosofias e a génese desses ideais e ideias nas suas performances, nas letras que escreve, na ambiência sombria e mística da música que compõe e até nas instruções que dá aos ouvintes sobre a melhor forma de ascenderem a esse estado esclarecido nos seus álbuns.

Poucos são os artistas capazes de atingir um nível de omnisciência tão profundo e cativante de forma tão emocionante e perturbadora. King Dude usa a sua própria interpretação incomum da dark folk para dar expressão aos arquétipos mais primários da condição humana, ao explorar as profundezas mais obscuras do sentimento. A sua capacidade para combinar elementos de blues, folk e country com melodias retumbantes e ambiências mais qualificadas para reverberar nos recantos mais escondidos da alma e a profundidade bizarra da religiosidade em background, transformam a sua música numa atmosfera quase inebriante de medo e passividade perante o que se ouve o que se sente.

O Homem de Negro sobe a palco sem setlist definida, movendo-se pelo repertório e tocando o que sente ou o que sabe, não perdendo a essência primária em formato acústico. Canções como “Silver Crucifix”, “Barbara Anne”, “Born In Blood” ou “Lucifer’s The Light of The World” foram entoadas por boa parte dos acólitos, com o refrão a ser projectado em jeito de missa solene. Saltando dessa maneira pelas mais emblemáticas peças da sua discografia, seja a pedido do público ou seja por seu próprio desígnio ou vontade, e entre goles de cerveja ou whisky, os afortunados que estiveram presentes naquela sala foram abençoados com o carisma primário com que, entre linhas de introspecção e poder de sedução, King quebra a intensidade das suas músicas com interlúdios bastante relaxados.

King Dude @ Sabotage Club

King Dude @ Sabotage Club

TJ Cowgill e o seu alter ego King Dude alternam personas em palco. Se por um lado hipnotiza a plateia com acordes simples de guitarra ou piano, postura à la Johnny Cash e aquela maldita voz de crooner que costura imagens de terra arrasada, hinos desolados numa tapeçaria de terror apocalíptico cantando baixinho letras como,

And when you close your eyes you’ll see
My face closing my eyes for good
Now that you’re gone away and I must stay
In your heart

ou esvaziando a sua alma com baladas de amor de intensidade rara,

I’d do anything for you if you asked me Barbara Anne
I’ll shoot that man in the head if he hurt you Barbara Anne
I’ll take the stand and lie if you ask me Barbara Anne

por outro lado, e nas pausas entre músicas, o norte-americano revela o gentleman, o mais puro entertainer, o comunicador nato que interage alegremente com o público, solta gargalhadas, conta histórias ridículas, pede um sofá para pernoitar mais umas noites em Lisboa, revela a intenção de nos sujeitar ao papel de críticos quando avança para uma música ainda em fase de acabamento (pedindo que existam apupos caso a reacção seja negativa). Dá também uma lição de civismo, ao interromper uma das música ao piano quando o burburinho incessante de um grupo de pessoas o cansa, e lamenta essa falta de respeito e sensibilidade cada vez mais presente no mundo.

O contraponto entre as duas personas é tão flagrante mas tão genuíno que dificilmente se pode retirar um ou outro desta simbiose mágica. King Dude reside no seu próprio estilo, usando a seu bel prazer uma miríade de outros. A subtileza com que captura e constrói distintivas e indeléveis histórias, detalhando vidas, desconstruindo personagens tridimensionais e imprimindo no ouvinte sensações de medo mas também de conforto, exaltando-os de forma propositada a familiaridade. Ouvir os seus álbuns ou assistir a um concerto seu, é equivalente a ser-se invadido por uma quase inaudível mas sempre presente palpitação na caixa torácica, quase como um pressentimento de que tudo pode acontecer mas que qualquer que seja a transgressão ela poderia ser perdoada.

Post Scriptum: No final do concerto, TJ Cowgill (ou terá sido King Dude?!) metamorfoseou-se num leiloeiro quase profissional. Despiu a roupagem empoeirada de vadio atormentado, arrumou o fato de  entertainer pintalgado de stand up comedian e vestiu um novo fraque, surpreendendo quem se abeirou de um pequeno canto do palco com as assombrosas capacidades de vender a sua própria mercadoria. Praise Lúcifer por o MbWay ainda não fazer parte dos seus contractos.

King Dude @ Sabotage Club

King Dude @ Sabotage Club