Entremuralhas 2014

O Festival Gótico Entremuralhas aconteceu em Leiria nos dias 28, 29 e 30 de Agosto. Este ano é a quinta edição e, de acordo com a organização a cargo da Fade In, caracteriza-se como sendo gótico “… definitivamente, e sem preconceitos…”, dado que tem lugar dentro das muralhas do Castelo de Leiria, um monumento nacional medieval onde se encontram elementos arquitectónicos do estilo gótico. Daí à definição do som ser estritamente “gótico” ou do público ser exclusivamente pertencente à tribo urbana assim apelidada, vai um mundo de distância! Generalizações acabam por ser redutoras e não se aplicam.

A programação do festival contempla vários estilos musicais e sete das quinze bandas presentes na edição deste ano fazem a sua estreia ao vivo no nosso país, distribuindo-se pelos três palcos: Palco da Igreja da Pena, Palco Alma e Palco Corpo, cada um deles com o seu encanto. Em paralelo com a música, no recinto também se encontram outras manifestações culturais como projeções cénicas, um desfile de Alta Costura, escultura, desenho, joalharia e mixed media. Encontram info pormenorizada em www.fadeinfestival.com.

28 de Agosto

Passando diretamente ao que nos traz cá hoje, o dia 28 de Agosto recebe o público já ao cair do dia com a abertura de portas pelas 19h e a primeira banda a começar pelas 22h. A entrada no Castelo faz-se sempre a subir, mas a benesse do primeiro dia é encontrar o palco logo em frente. Com o aproximar da hora de começo, o espaço vai-se compondo de presentes, o negro no vestuário predomina como dresscode implícito, vêem-se grupos de amigos que se reencontram e, espreitando pelas muralhas, há tempo para apreciar a vista magnífica.

Os Ermo sobem a palco envoltos em névoa artificial e António Costa (voz) aborda os primeiros temas com discurso profético – canta sobre a vida. O sintetizador de Bernardo Barbosa orquestra na perfeição uma voz contadora de histórias. Tocam temas do EP Vem Por Aqui, mas também apresentam o trabalho que será lançado em Outubro de nome Amor Vezes Quatro. Os Ermo incitam a pensar e embalam-nos com ritmos, por vezes quase xamânicos. António cativa, declama, faz voz de boneco, canta com singeleza. É um começo promissor.

Seguem-se os Uni Form, com a qualidade a que já nos habituaram. O epiteto de banda indie portuguesa com mais internacionalizações no currículo faz-lhes jus, deixando-nos a pensar que falta sobretudo é serem mais acarinhados pelo público português! O som é cativante, cresceram sonoramente desde a edição de Mirrors e descolaram de alguns clichés a que foram associados por essa altura. Tocaram temas dos dois álbuns, bem conhecidos pelo público que os acompanhava dançando e mostraram temas novos. Durante a apresentação foram acompanhados por projecção de vídeos (alguns videoclips de canções deles e imagens captadas no WGT de excelente qualidade a resultar numa simbiose interessante).

Os dinamarqueses Iceage apresentaram-se pela meia-noite e meia. Carisma, beleza, rebeldia, decadência. Para mim são swelegant punk! Goste-se ou não do som que eles fazem, ninguém fica indiferente à presença de Elias Bender Ronnenfelt (voz). A magia acontece. Tocaram temas dos dois trabalhos editados e contam com um generoso grupo de fiéis que dançou, provocou e se renderam. Outros, seguramente que foram conquistados.

Foi assim o primeiro dia do Festival Gótico Entremuralhas: darkwave, eletrónica-ritual, post-punk, indie-rock, punk…

29 de Agosto

O segundo dia do Festival Entremuralhas começa mais cedo, ainda com sol, com primeiro concerto agendado para as 18h, permitindo ao público usufruir do magnífico cenário proporcionado pelo Castelo de Leiria. É possível descansar à sombra de árvores centenárias ou partir à descoberta pelos caminhos ao longo da muralha. No segundo caso, encontramos exposições de joalharia, desenho e escultura nos Paços Novos (para além do deslumbre da vista sobre a cidade que o local proporciona) e também bancas com artigos de artesanato ao longo de alguns trilhos.

A música hoje acontece primeiro na Igreja da Pena; o palco está montado sob a abside, ladeada de janelas em ogiva. Não poderia haver cenário mais apropriado para ouvir as histórias musicadas de Andrew King, o trovador e estudioso do legado do cancioneiro tradicional britânico que canta e declama poemas de tempos idos, por vezes em Middle English, acompanhados pelo ritmo do bombo que vai martelando e do sintetizador que ajuda a criar a atmosfera apropriada com sons de órgão. A voz oscila entre o tom cerimonial e o bélico; ora o entusiasmo o faça subir a voz, ora o sussurro demonstre o suspense.

Seguem-se os Noi Kabat, duo criador de electrónica analógica, sedeado em Londres. Após o primeiro tema, torna-se difícil ficar parado; Dee Rusche de silhueta esguia, cabelo platinado e olhos carregados de crayon negro, encanta com a voz mas também com a sua dança elegante de princípio a fim. A temática romântica do desencanto, desencontro e solidão está presente em todas as canções, exorcizada pelo som electrónico. Fica-nos na memória um lamento repetido no final de um dos temas: “We are forever alone”, mas certamente terem o público presente todo a dançar e serem a primeira banda do festival a voltar ao palco num encore muito pedido, torna o fardo da solidão mais fácil de ser transportado.

Com a chegada da noite passamos ao Palco Alma que é aberto pela primeira vez este ano pelos italianos Oniric. Não destoando do nome, presenteiam-nos com o som suave e sonhador característico da chançon/cabaret, acompanhado de projecção de filmes do Charlot. Um momento mágico para miúdos (vários estavam completamente presos ao filme) e graúdos, a avaliar pelos sorrisos. O som do glockenspiel, vulgo metalofone, e o som do acordeão, embora tocado em teclado, são indissociáveis da imagem do carrossel em que fomos transportados por momentos com a voz de Simona Giusti e de GianVigo.

Com a banda seguinte neste palco temos a antítese; eis que se acorda do sonho. Ou melhor, passa-se para outro. E este é de cor bem negra. Os Parzival, coletivo russo e dinamarquês, leva-nos a universos bélicos, wagnerianos. Ecoam cantos de guerra e de exultação e por entre a assistência que ocupa agora a frente do palco vêem-se braços de punhos levantados acompanhando o bater ritmado da percussão marcial. A voz de barítono de Dimitrij Bablevskij ecoa por entre as muralhas, fazendo lembrar batalhas aqui travadas. Excelente comunicador sempre a interagir com o público pedindo participação, embora tal não fosse necessário. Alguns hinos foram acompanhados por coro de voz feminina límpida e cristalina, quem sabe na tentativa de acalmar demónios.

Para finalizar a noite, descemos até ao Palco Corpo e aguardamos pela chegada dos suecos Holograms. Muito jovens, mas com um público já fiel em Portugal como se comprova pela assistência, tocaram temas dos dois trabalhos editados: o homónimo e Forever. São caracterizados pela produção do Festival Entremuralhas como “…a banda mais punk que o movimento post-punk viu nascer nos últimos anos” e realmente são, embora a prestação esta noite fique aquém da qualidade mostrada com os registos gravados. “A Sacred State”, “ABC City”, “Lay Us Down”, “A Blaze on the Hillside”, “Rush”, entre outros, fizeram dançar do início ao fim quem os veio apoiar e, sem dúvida, que foi uma aposta ganha na diversificação de públicos e uma lufada de guitarras frescas.

O encerramento do segundo dia do festival fica a cargo dos americanos Aesthetic Perfection. Estreando-se em Portugal, Daniel Graves é imparável em palco, com gestos teatrais bem cuidados e aparência muito produzida, de rosto pintado a prata e mãos pintadas a negro criando ilusões bastante interessantes no decorrer do concerto. Constantemente a interagir com o público, foi apresentando canções do último trabalho Till Death entre temas mais conhecidos do público. Visualmente irrepreensível, a banda não desiludiu quem se deslocou propositadamente a Leiria para os ver, mas também não foi capaz de convencer todos os presentes a juntarem-se à festa no final de mais um dia do Entremuralhas.

30 de Agosto

À semelhança do dia anterior, a entrada no Castelo de Leiria fez-se a partir das 16h. Para o último dia, a lotação do recinto esteve esgotada: 737 entradas vendidas, a capicua que permite acolher quem cá vem com conforto, qualidade e segurança dada a morfologia do Castelo; poder-se-ia extrapolar dizendo que aconteceu porque é sábado, mas acreditamos que a afluência se deveu sobretudo aos nomes fortes que estiveram em palco durante o último dia do festival.

O primeiro evento a juntar público nesta tarde, acontece com o desfile de Alta Costura, assinado por Kristine, intitulado The Rococo Queen, que tem lugar nos Paços Novos. Momento de beleza ímpar, com o som a cargo de Carlos Matos em simbiose perfeita com as características de cada criação, passada elegantemente pelas várias modelos.

Rumando depois ao Palco da Igreja da Pena, o primeiro concerto do dia é nos oferecido pelos austríacos Allerseelen. O frontman Gerhard Hallstatt é o único membro da formação original, datada de 1987, e de há dois anos para cá é acompanhado pela percussionista Christien H e Noreia no baixo. Esteticamente formam um trio bastante interessante, esta formação diferente de quando fizeram a estreia em Portugal nas Ruínas Romanas de Odrinhas. Tocaram clássicos e temas recentes, com uma toada ora marcial ora folk, mas sempre hipnótica, com um som e uma presença extremamente apelativos. Fica a pena de não entender as letras, se bem que há traduções disponíveis on-line.

O espaço já se encontrava à cunha, mas foi possível a entrada de mais algumas pessoas para assistirem a She Past Away. Ainda assim, muitos ficaram do lado de fora, optando por ter mais espaço para dançar. Herdeiros do som dark wave do final dos 80’s, tornaram o momento irrepreensível e visivelmente agradaram a todos os que se juntaram para os ver, ouvir e dançar. A banda de Istambul conta com uma legião de fãs por cá; muitos gritam entre temas pedindo o que mais querem ouvir. A voz e o dedilhar de cordas na guitarra de Volkan Caner, o baixo bem marcado de Idris Akbulut e a caixa de ritmos com programação feita por Doruk Ozturcan (que não sobe a palco, ficando encarregue do som), fazem-nos viajar no tempo, mas em simultâneo são atuais. Voltam para um encore com mais 3 temas. Cantam em turco e fica-lhes bem! A Igreja de Santa Maria da Pena foi um dancefloor privilegiado.

A abertura do Palco Alma acontece pela mão dos alemães Darkwood, e digo literalmente pela mão porque foi como um passeio que o som deles nos levou por vários momentos de um tempo antigo. Veteranos no género neo-folk europeu Henryk Vogel, de guitarra acústica em mão, cantou temas em alemão e em inglês. Umas vezes com sons suaves – o som do violino sintetizado e os metalofones a encantar – outras com arranjos mais escuros e pesados, a percussão a soar mais forte. Belíssimas e cuidadas composições. Foi bonito começar a noite assim.

No mesmo palco seguiram-se os The Legendary Pink Dots, apelidados pela organização do Festival como “…as estrelas maiores do Entremuralhas 2014”. E de facto, tendo em conta a carreira de 34 anos, numerosa edição discográfica, influência para gerações seguintes de bandas que os citam e outros projetos (como The Tear Garden) a que os músicos dos LPD deram origem, é um epíteto merecido. Contudo, foi um dos concertos mais herméticos a que o público assistiu. Da formação original mantêm-se Edward Ka-Spel e Erik Drost. Para quem os segue há anos e acompanhou desde sempre foi, sem dúvida alguma, um momento especial a oportunidade de os ter em concerto no nosso país; comprova-se a mestria conferida pela experiência e pela idade: Ka-Spel continua a ter uma presença e amplitude vocal ímpar. Para quem foi apanhado de surpresa, este não foi um concerto fácil. O som dos LPD não é de imediatismos, exige várias audições até se instalar e deixar sentir. Durante a primeira metade dos temas tocados, alguns presentes deslocaram-se a outros espaços do recinto. Quem ficou, ficou por gosto e as expectativas não foram defraudadas.

Descemos até ao Palco Corpo para ver as duas últimas bandas do festival. Nomes muito aguardados, como fomos percebendo ao longo do dia pelas pessoas com quem íamos falando. Os britânicos O’Children sobem a palco perante uma multidão expectante e cedo se percebe que foi aposta ganha. Tobi O’Kandi é um excelente comunicador, incitando inúmeras vezes a que se faça a festa e pedindo que o público dance, se divirta e mostre apoio. É interessante ver a desconstrução da imagem séria e introspectiva que nos chega através dos vídeos da banda. Esta noite, O’Kandi revela-se um frontman com uma presença incrível (e não me refiro apenas à sua altura!) bastante extrovertido e com muita simpatia para dar. Dono de uma voz grave inconfundível e com excelentes músicos por companheiros, a banda desfila por temas do álbum homónimo e do mais recente Apnea. O público dança e canta canções como “Radio Waves”, “Holy Wood”, rende-se a “Dead Disco Dancer”, delira com “Ruins”; Gauthier na guitarra, Harry James no baixo e Andi Sleath na bateria estão em perfeita comunhão e a pérola chega com o final perfeito, no encore, com “Ace Breasts”, tema psychobilly dos primórdios da banda.

Para o grand finale, festa suprema com electro-industrial, comandada pelos Hocico. De referir, uma vez mais, como um factor enriquecedor desta edição do Entremuralhas, a troca de públicos na frente do palco que é notória, acontecendo com simpatia e sem que as pessoas desmobilizem ou se afastem do recinto. Uns trocam de lugar com outros, mas todos ficam para a festa. Sobre os primos mexicanos Erk e Racso… o que dizer quando o esperado acontece, superando as expectativas de muitos e sendo sentido como um conforto inenarrável para outros? Apresentaram-se fortes, estão a comemorar os 20 anos de carreira, tocaram temas de várias fases e registos gravados e, apesar da dança frenética de Erk Aircrag durante todo o concerto, ele mostrou ser um bom avaliador do público que tinha pela frente, sempre a interagir e a provocar com movimento corporal e palavras, ajudando a tornar este final de festival num momento verdadeiramente memorável. Clássicos como “Poltergeist”, “Bloodshed”, “Forgotten Tears” ou “Temple of Lies”, temas a chamar quem os sabe desde o início, foram sendo alternados com outros mais recentes, ficando a principal diferença marcada pela crueza da batida industrial característica dos primeiros tempos que não é tão forte no som que fazem atualmente. Impossível ficar imóvel mesmo para quem não faça deste género o eleito para audição diária. Ainda não foi desta que o Castelo veio abaixo, mas tremeu que se fartou!

Chega assim ao fim mais uma edição do Festival Gótico Entremuralhas, um festival com música para vários púbicos, recheado de diferentes estilos e géneros, sendo sobretudo a qualidade das bandas escolhidas o factor unificador. Foi uma oportunidade para ver e ouvir bandas que por si só dificilmente viriam a Portugal, estando os seus públicos-alvo espalhados de norte a sul. Uma oportunidade para reencontrar amigos, num espaço privilegiado com uma beleza e características ímpares, numa cidade que sabe bem receber. Se me pedissem uma descrição resumida eu diria que é um festival para gente elegante e bem educada, gente amante de música que sabe fazer a festa, gente que valoriza as raízes e as memórias de sons de outros tempos, mas que em simultâneo sabe acolher a novidade. Parabéns pela produção e organização, um enorme agradecimento à Associação de Acção Cultural FADE IN pelo trabalho desenvolvido ao longo dos anos, na música e nas outras artes, e pelo sucesso de mais uma Edição do Festival Gótico Entremuralhas. Obrigado Carlos Matos, Obrigado Leiria e até para o ano, se não for antes.