Golden Slumbers @ Casa Independente
Golden Slumbers @ Casa Independente

Golden Slumbers – música de escuteiras, atitude de escoteiras

Apresentação do álbum de estreia, The New Messiah – Fevereiro 26, Casa Independente (Lisboa)

O jogo de palavras do título desta peça talvez seja recuperado algures no texto, porque se a música das meninas Golden Slumbers parece de bandas dos escuteiros, da paróquia como o clássico “Baile” de Rui Veloso, algumas letras delas cada vez mais revelam uma atitude introspectiva digna de escuteiras ateias, mas não necessariamente agnósticas. E esse amadurecimento lírico foi evidenciado na intimista apresentação do álbum de estreia, The New Messiah, acolhida pela Casa Independente na última sexta-feira.

O talento hippie-chic folk

O ambiente era favorável às irmãs Margarida e Cat, Falcão: música smooth-cool, o salão esgotado com mais de  170 almas, uma maioria de mulheres (algumas delas sofisticadamente segurando taças de vinho), vários casais cumplicemente ávidos de música intimista, a primeira fila com um grupo de jovens aprumados tirando ‘selfies‘ e pedindo fotos, e os calmantes jarros com flores no palco. E sozinhas entraram em palco como são: duas jovens ‘chic‘ com Arte intrínseca, mas que discretamente não têm a excentricidade de querer exibir aquela diferença no trajo – o espectáculo é a própria Música (que deu sentido aos jarros no palco, não o inverso).

Tal como no próprio álbum, a introdução no concerto foi feita por “Foreigner”, lenta balada que é uma montra da essência das Golden Slumbers: duas irmãs em adulto amadurecimento, que gostam de se recriar em harmonias e contracantos vocais (sobre as guitarras tocadas por Margarida), pela natural cumplicidade do laço familiar e pela adquirida convergência nas trovadoras dos 90s (Heather Nova ou Laura Veirs) e no conceito de duplas folk com acústicas guitarras clássicas, que trouxe sucesso aos homens Kings Of Convenience e Simon and Garfunkel, mas que quase não se vê com mulheres – e isso foi uma grande diferença inicial das talentosas Golden Slumbers.

A segunda canção foi tocada já com banda (útil para fortalecer as canções): o quarteto de bateria e baixo e guitarra e teclados que muito enriqueceu “Hunt”, com as camadas instrumentais que envolveram as assertivas vozes das manas no manto psicadélico dos acordes do órgão e no dedilhado do baixo, e que também ajudou a contextualizar as próprias Golden Slumbers, porque o blusão ‘sargeantpepperista‘ do baixista oportunamente remeteu para The Beatles, autores de… “Golden Slumbers”. Let it be

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Com toda a banda no palco, “Fading Away” foi a primeira de um conjunto de três canções do EP (I Found The Key, de 2014), cuja triste música country foi tocada numa versão alternativa, na qual o órgão e o baixo deram um tom psy e que facilmente poderia ser de Neko Case. Entre canções, Margarida afirmou que “Gone With The Wind” era para despachar o EP, mas felizmente não despacharam aquela folk-pop com bateria batida por vassouras, para desfrutar ao redor de uma fogueira após uma tempestade (nem que seja emocional). E o trio do EP foi completado com o conhecidíssimo single “My Love Is Drunk”, um previsto momento alto do concerto: as irmãs sempre sorrindo, seguramente cantando em alternância, antes do refrão sabido de cor que foi espontaneamente cantado pelo público – no final, uma claque gritou “Coelho” (Tiago, o muito cool baixista da banda), confirmando a descontracção que grassava na sala.

Após longo aplauso, o retorno ao apresentado The New Messiah foi com “Stubborn”, que Margarida admitiu ser “sobre as discussões entre as irmãs”; cantaram belas harmonias em coro e destacou-se a bateria engenhosamente batida por tubos, gerando um efeito de eco – o peso da consciência lamentando “you are so blind, only find trouble”? Mas para se fixarem no novo álbum, reuniram toda a equipa, chamando ao palco o “produtor e amigoBenjamim (munido com guitarra) e “as Martas” (a irmã Falcão e a Coelho, para serem coro), que ajudaram a encorpar “Mourning Song – Clandestine”, lúgubre balada que, com banda reforçada e o suplemento das vozes de retaguarda (que ofereceram mais tons), foi um dos momentos mais emocionantes e também participados, porque o público foi convidado a cantar o sofrido refrão final. Enquanto os convidados se retiravam (excepto uma das coristas), Margarida anunciou jocosamente “uma história dramática de Catarina”, balada sorumbática iniciada sem a bateria e com o público num expectante silêncio, mas que desvendou ser ‘‘ sobre um desgosto amoroso – um grande desgosto, porque subitamente a fúria dirigida ao ex evadido “Woke Up” na bateria potentemente bombada, para reforçar o desiludido refrão final, dramaticamente cantado a plenos pulmões, que encheu o salão.

Do empático perfecionismo ao final dialogante

Mais uma vez portando a voz do duo, Margarida confessou que não dançava porque “nesta saia (comprida) sinto-me um bocado Amish”, apresentou os músicos da banda e perguntou se o som estava bom, se estava tudo bem, revelando o perfeccionismo empático de quem sabe como é ser público. E prosseguiram com “Don’t Listen”, que arrancou só com uma voz e depois foi crescendo para coro com bateria e órgão quase sem guitarra, até o baixo entrar com o peso da mulher zangada, também posto na bateria espancada com macetas de bombo. “Day By Day” (I Learn To Pray)” foi apresentada como “boa para tocar no silêncio”, antes de Margarida explicitar o muito agrado das Golden Slumbers por o salão parecer esgotado – estariam já cerca de 100 pessoas. Música muito relaxada, ainda mais lenta que a parecida“Harvest Moon” original, que a guitarra acústica fez recordar, teve odor e aroma do vasto Alentejo de vários vinhos que estavam sendo tranquilamente saboreados.

Anunciando “Love” como a penúltima canção do alinhamento, as irmãs afirmaram francamente gostar muito da Casa Independente (onde também tinham apresentado o EP de estreia) e atacaram aquela melancólica balada, de ritmo lento, mas emotivamente cantada até ao derradeiro “How I wish you could stay”, com Catarina tocando um dos teclados que solaram no final do tema. O alinhamento principal começou a ser concluído com Benjamim chamado ao palco outra vez, para ser muito elogiado e classificado como “muito talentoso e que mostrou uma perspectiva diferente das músicas” – algo que foi evidenciado ao longo do concerto, por vários arranjos mais complexos. E passando pela murmurada “Old Messiah”, as irmãs Falcão tocaram um medley com o que Margarida designou “música para dançar”, o muito esperado novo single homónimo do álbum, acelerado garage pop “New Messiah”, cujas referências a bebedeiras escapistas as afastam do paroquial escutismo folk de algumas músicas, para as aproximar do mais introspectivo escutismo, no que parece ser um período de abertura e descoberta, artisticamente guiado por Benjamim.

Para o extasiado público, que imediatamente gritou um repetido “Só mais uma!”, Margarida e Catarina voltaram como iniciaram o espectáculo, sozinhas no palco, e confessando não ter encore ensaiado, foram fechando a cortina com “uma canção que ainda nem está acabada e nem no álbum ficou”, repleta de delicadas harmonias vocais que o cúmplice público ritmou com palmas até ao apoteótico fim. Mesmo com alguns destempos ao longo do concerto, o défice de ensaios após as recentes sessões de gravação do álbum nunca ocultou o talento das irmãs Falcão e o grande potencial das Golden Slumbers, que bem agenciado, poderá levar a banda ao estrangeiro.

Para ouvir e descarregar o disco é seguir para o site da NOS Discos.

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