Holy Fuck
Holy Fuck

Holy Fuck @ Musicbox

O quarteto de Toronto, Canadá, subiu ao palco do Musicbox pouco passava das 22horas. Este concerto é o décimo e último de uma tournée ibérica que começou dia 2 de Outubro em Madrid e contou com duas datas em Portugal. Com a mesma formação desde o último álbum, Latin de 2010, Brian Borcherdt e Graham Walsh são os donos dos sintetizadores, pedais, guitarra, microfones e restante parafernália estranha mas produtora de ruídos interessantes, e Matt Shulz na bateria e Matt McQuaid no baixo. Muita gente para uma banda de música eletrónica? Ná! Sobretudo se quisermos que essa eletrónica prime pela excelência de quem a sabe realmente fazer. Aqui não há lugar a computadores, não há sets, nem loops, pré-gravados; há o momento, o saber fazer dobrar os ruídos juntando-os em melodias, há a mestria de domesticar botões e saber ouvir. Os quatro tocam virados uns para os outros, em quadrado, em constante diálogo de cumplicidades sonoras. A juntar à presença, há projecção cénica em três frentes: por trás do palco e nas paredes laterais, com imagens caleidoscópicas dos quatro elementos da banda em acção. Se alguém presente vinha com ideias de ficar quieto, vendo e ouvindo desengane-se, porque não iria conseguir: na plateia faz-se a festa, toda a gente dança, os aplausos entre temas fazem-se ouvir. Domingo em noite de temporal não convida a sair, mas quem veio hoje ao Musicbox sabia bem ao que vinha.

Ao longo de mais de uma hora presenciámos um desfilar de temas dos dois últimos álbuns e EP editado este ano, aquando da tournée australiana. Apresentaram-nos uma eletrónica analógica fortíssima que nos empurrou para a dança desde as primeiras canções – “Sabbatics” e “Chimes Broken”. Umas vezes piscando o olho ao psicadelismo, outras a uma repetição de percussão quase tribal a evocar o transe. Houve temas com momentos luminosos – “Happy Allen” e “Stay Lit” – e temas escuríssimos fazendo lembrar perseguições sinistras de filmes classe B de outros tempos, como em “Latin America”. Um chiaroscuro estimulante que ofereceu variações de humor enquanto se dançava. Da parafernália sonora usada em palco, foi engraçado ver Brian Borcherdt usar uma espécie de desenrolador de película de 35 mm, se bem que das vezes em que o usou apenas numa delas foi percetível o som. Em vários temas presenciámos um despique vocal, sendo a voz encarada como mais um instrumento a juntar ao som coletivo, com microfones ligados a variados efeitos sonoros.

Já se aproximava o final quando Brian se dirigiu aos presentes agradecendo, mencionando a questão de ser domingo e haver resistentes no nosso país. Chamou-nos grandes, com um sorriso de satisfação que era comum aos quatro, antes de arrancar para a felicidade de todos com “Super Inuit” e “SHT MNT”. No final, ainda voltaram ao palco para mais dois temas. O aplauso era forte, ninguém arredava pé e mesmo depois a plateia ainda ficou a chamar por eles um bom par de minutos. Fazem-se bons sons por terras do Canadá.