Será Alynda Segarra Hurray For The Riff Raff ou será exactamente o oposto? Os nomes confundem-se, enquanto a identidade se forja numa sinergia única e distintiva de todo o mundo que rodeia Segarra. Entre a folk e a americana, entre o art-rock crú descendente directo dos The Velvet Underground e as influências da tradição sonora das ilhas caribenhas – em especial do sangue porto-riquenho que lhe corre nas veias -, entre o doo woop, o blues e a pop refinada e a genética libertária e libertadora do hardcore – cena onde passou boa parte da sua infância (exacto, infância) -, as canções singulares dos Hurray For The Riff Raff destilam-se num caldeirão multicultural espelhado ao longo de seis discos.

Segarra é a alma e o corpo por detrás do projecto nascido em New Orleans. Apesar de crescida na multiculturalidade do Bronx que trouxe para dentro das suas canções, Alynda é uma personagem do mundo, das estradas, daquelas sobre as quais se escrevem canções e se escrevem livros. A norte-americana atravessou os Estados Unidos a salto em comboios de carga, foi punk, é poeta descendente de Patti Smith, é alma latina possuída pelo espírito de Townes Van Zandt, é activista e foi membro da Dead Man Street Orchestra, uma banda que ia tocando por onde passava – fossem casas ocupadas, parques, lavandarias, autocarros, casas de banho públicas e qualquer lugar, por mais bizarro que fosse onde houvesse um ouvido para os escutar.

Em 2007, e mantendo a fidelidade ao DIY da doutrina punk, Alynda lançou o primeiro registo, o EP  Crossing The Rubicon. Durante os anos seguintes, e completamente livre de ligações a editoras, gravou e editou It Don’t Mean I Don’t Love You, em 2008 e Young Blood Blues, em 2010. Foi só em 2011 que se entregou nas mãos do sistema com um disco homónimo, que reunia os seus momentos favoritos dos discos até aí gravados. Hurray For The Riff Raff saía então pela Loose Music, editora onde deixaria, no ano seguinte, Look Out Mama, o disco que colocava um ponto final na relação entre as duas partes.

My Dearest Darkest Neighbor, disco de covers lançado em 2013, via reinterpretadas canções de Billie Holiday, Gillian Welch, Leadbelly, John Lennon, Lucinda Williams, Joni Mitchell, Hank Williams e George Harrison. A bordo desta locomotiva a vapor e poesia em forma de tributo aos personagens que musicavam a sua memória, Alynda atravessava a ponte que a levaria até à ATO, casa de ilustres nomes de uma geração que observa o passado de forma fidedigna mas actualizada, como Benjamin Booker, Alabama Shakers ou Okkervil River.

Seria neste novo lar que nasciam os discos que colocam os Hurray For The Riff Raff e Alynda Segarra definitivamente no mapa de artistas essenciais para o entendimento dos conceitos de fusão e recriação de géneros. Em Small Town Heroes, de 2014 Segarra refina com um altíssimo grau de pureza o cancioneiro norte-americano, e em The Navigator, já deste ano, encontramo-la a construir voodoos unificadores de estilos e vertigens culturais tão díspares como enfeitiçantes.

Disco conceptual e semi-autobiográfico inspirado em The Rise & Fall of Ziggy Stardust & the Spiders from Mars de Bowie, The Navigator é assumidamente transversal e unificador, arquitectado enquanto manifesto socio-político centrado na viagem pessoal da personagem ficcionada Navita Milagros Negrón, menina porto-riquenha criada nas ruas de Nova Iorque, que atravessa uma crise de identidade e acaba por encontrar o conforto na ancestralidade das suas raízes.

Se em “Pa’lante” a sua Nova Iorque natal se mistura com o idioma espanhol, já “Living In The City” tributa “Sweet Jane”, de Lou Reed, enquanto “Life To Save” dá o toque blues ao disco; “Nothing’s Gonna Change That Girl” bebe da mesma garrafa de whiskey dos Cowboy Junkies, na mesma proporção que “The Navigator” e “Rican Beach” produzem um sabor a rum, rumba e cimento na boca que só descansa quando “Finale” fecha o disco, com a consumação absoluta das raízes caribenhas de Segarra, embebidas numa das grandes canções de 2017. Que Papa Legba a permita cruzar os mundos e coexistir dos dois lados.

Os Hurray For The Riff Raff estreiam-se em Portugal numa data única e bem a norte. O Theatro-Circo de Braga recebe assim a norte-americana, no próximo dia 17 de Julho. Os bilhetes estão já disponíveis e custam 12€.