No norte de Londres se perdeu, no sul de Londres se voltou a encontrar… e a perder novamente. No mesmo ano em que os Wolf Alice faziam do rock uma criatura mais ou menos orfã, com a edição de um disco que flutuava os britânicos para fora das fronteiras abrasivas de um género suturado com as guitarras suadas do registo de estreia e os fazia atravessar paisagens mais delicadas, etéreas e expansivas – excepção feita a “Yuk Foo”, tema estrangeiro de Visions Of A Life que paradoxalmente seria o único a conservar alguma da identidade de My Love Is Cool –, os seus compatriotas INHEAVEN saltavam para o campo de focagem dos holofotes apontados aos territórios sonoros mais rugosos e resgatavam, directamente das mãos de Ellie Roswell, a esperança de ver bem representado um rock de guitarras musculosas e pejado de influências noventistas.

Não deixa de ser curioso que os INHEAVEN tenham aparecido diante do grande público com o single de estreia “Regeneration” – editado pela Cult Records de Julian Casablancas, dos The Strokes -, em Agosto de 2015, apenas dois meses depois dos Wolf Alice terem posto oficialmente a rodar o seu primeiro álbum. Agora, volvidos apenas três meses sobre o lançamento do seu longa-duração de estreia homónimo e um dos melhores discos que 2017 colheu – Inheaven destilava em 12 canções o melhor da música brotada das esferas mais alternativas e aguitarradas do rock da década de 90, ainda que capturada com um toque inequivocamente contemporâneo -, os londrinos do sul voltam agora às canções sem perder o norte da década a que se dedicaram, ainda que tenham amaciado de sobremaneira a primazia dos instrumentos que lhes davam à música o tom rebelde.

“Sweet Dreams Baby” marca assim regresso em grande dos INHEAVEN às canções com um tema dotado de um invejável sentido de melodia que assimila muito da essência rítmica das girl bands dos anos 60 e que instiga a não se deixarem diluir as metas e ambições pessoais com a passagem do tempo. Deamy, ao mesmo que grandiosa e triunfante e com os mesmos laivos retro com que são bafejadas as canções dos vizinhos da escócia, os Glasvegas. Ainda é cedo para dizer que é uma das canções do ano? Mas o rock, aquele rock dos registos de estreia tanto dos INHEAVEN como dos Wolf Alice, transmutou-se em algo de diferente, algo doce e arraçado de shoegaze e, até ver o que reservam os lançamentos futuros da banda, voltou a perder-se algures nas águas do Thames.

Numa altura em que o rock, em todos os seus tentáculos, se encontra numa espiral profundamente descendente no que respeita a vendas de discos ou consumo em streaming nos Estados Unidos, tendência seguida, ainda que de forma menos acentuada, nos restantes territórios ocidentais – quem o diz é o relatório anual da Nielsen, que mede os hábitos de consumo dos mais variados produtos -, falta quem o consiga manter à tona de água sem o deixar a fundar. Mas se no reverso da medalha estiveram escritas canções como esta… esquecemos bem por um bocadinho que nos importamos… muito.