Isto Não É Um Recital De Poesia @ Teatro São Luiz

Isto Não É Um Recital De Poesia

Isto não é uma oportunidade qualquer. Já lá vão mais de 5 anos desde que Nuno Artur Silva e Sérgio Godinho se juntaram para este “pingue-pongue” de textos poéticos. Agora, voltam à carga e chamaram ao palco Mitó Mendes, vocalista dos A Naifa, e Noiserv, o alter-ego de David Santos. A escolha, que se poderia pensar ter a ver com o facto de uma cantar os poetas contemporâneos e o outro ter autênticos poemas nos títulos das suas músicas, continuando-as nas letras e na própria explicação de cada uma delas com que nos presenteia durante os espectáculos, teve a ver só com o gosto de Nuno, garante o próprio: “A voz da Mitó é perfeita para acompanhar o Sérgio e a música do David cria o ambiente”.

O “inventor” deste projecto, que reconhece ser aquele que menos se ouve durante o espectáculo (Sérgio refere-se-lhe como sendo “uma espécie de Deus Ex Machina”), trouxe agora ainda outro elemento, precioso, por sinal: o ilustrador António Jorge Gonçalves faz, em tempo real, os desenhos que serão projectados como cenário. Por agora, é só um ensaio. Geral. Mas é maravilhoso poder ver o processo, criativo também, desenrolar-se ali, a dois passos. Ouvimos o poema Liberdade, de Paul Éluard, cuja pioneira tradução para português foi feita por Drummond de Andrade, dito por todos, à vez, ordem Sérgio > David > Mitó > Nuno, termina alguém (não estraguemos a surpresa):

E ao poder de uma palavra
Recomeço a minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

e cada um repete, à vez: “Liberdade”. Para além disso, ficámos também a saber que Mitó fará o coro nas duas últimas estrofes e não apenas na última, como inicialmente previsto, em Endechas A Bárbara Escrava. Como se saber que um poema de Camões, musicado por Zeca e cantado por Sérgio não fosse suficiente para ir já a correr ao São Luiz. Só Hoje. Ou não.

Sim, haverá mais um espectáculo. Só não conseguimos saber se será exactamente igual, se terá outros textos para lá destes de Adília Lopes, Al Berto, Caetano, Chico, Palma, Régio, Leminski, Pina, como hoje. Porque tanto Nuno como Sérgio preferem pensar neste espectáculo como algo que não é fixo. É aberto, efémero, um encontro entre gente que faz isto pelo mero prazer que sentem a partilhar, ensinar, aprender, dizer poesia. “Poesia como algo que pode estar num artigo de jornal, num grafitti, In The Eye Of The Beholder”, como a define Nuno Artur Silva.

Certezas? Uma! Mais logo, no Jardim de Inverno do São Luiz haverá muito, muito amor à Palavra dita, cantada, sussurrada ou gritada a ponto de se ouvir à Graça que Lisboa tem. Ainda cai o Carmo e a Trindade se assim não seja!

“A cultura e a poesia da cultura atravessam fio a fio a distância da terra”
 Sérgio Godinho

“A poesia não está no poema anunciado: agora silêncio que vamos ler poesia”
 Nuno Artur Silva