Pega Monstro @ Jameson Urban Routes 2015

Jameson Urban Routes’ 15 – Cave Story, Galgo & Pega Monstro

No passado dia 22 de Outubro começou outra vez mais uma edição do festival urbano indoors conhecido como Jameson Urban Routes. O evento que ao longo dos anos consolidou o seu estado como uma das propostas mais aliciantes do outono cultural lisboeta regressou ao Music Box para dois fins-de-semana cheios de novas tendências musicais e um desfile dos artistas nacionais e internacionais que mais curiosidade despontam no circuito da música alternativa.

Assim, a inauguração das rotas urbanas deste ano ficaram entregues maioritariamente à casta portuguesa, com especialmente enfâse nos riffs abrasivos e nas pedaleiras exóticas. Ao longo da noite foi possível assistir a solídissimos concertos de Cave Story, Galgo, Pega Monstro e ainda dançar ao som dos xamãs Pilooski e o nosso próprio DJ Magazino.

Com uma casa bastante bem composta, toda fugitiva do frio que se fazia sentir nas ruas e cheia de sede por boa música, foram os caldenses Cave Story a começar a escrever a História deste serão. Muito liberalmente encaixado naquilo que se pode chamar a música psicadélica, o trio é na verdade, confortavelmente mais expansivo que isso nas hostes musicais. Ora oscilando entre um proto-punk à moda antiga e uma sensibilidade mais indie rock, os Cave Story são essencialmente um conjunto pós punk tão bem assente no ritmo como no peso.

Armados com o mais recente Spider Tracks EP, o grupo manteve-se absorvente e fluído ao longo de cerca de uma hora de concerto. As linhas de baixo fervilhantes são o mote para a esquizofrénica voz de Gonçalo Formiga, que nos confere parte a energia punk de uns Nirvana como toda a paranóia do pós punk mais gótico da Inglaterra industrial. Com poucas conversas, mas simpatia suficiente, o grupo ocupou-se de descarregar energias sobre a plateia ao mesmo tempo que mostrava a sua faceta pop que consegue ser instantaneamente apelante.

Houve ainda tempo de entregar a guitarra às mãos de alguns fãs mais devotados na primeira fila para que pudessem livremente solar com a distorção, confirmando ainda mais a postura descontraída e pouco cerimonial da banda. O mais agradável no concerto dos Cave Story foi precisamente a sensação de se estar a ver algo novo que não se está a esforçar em ser muitas coisas ao mesmo tempo mas consegue ter o que interessa: atitude e boas malhas. No fundo, no fundo, um grande concerto rock numa sala que nasceu para receber o que é novo e tem vontade de tocar. Os Cave Story ainda estão a fervilhar e o caminho deles é um que entusiasma.

Pouco tempo depois, estariam os Galgo a subir ao palco. E com o conjunto de Oeiras, muitos devotos seguidores também apareceram, a julgar pelas manifestações de entusiasmo. Foi o primeiro anotamento a tirar mesmo antes do concerto: A banda parece já estar a construir uma boa base de fãs, o que é sempre notável quando ainda nem se lançou o primeiro disco.

Os Galgo parecem ter muito mais características em comum com o atlético bicho para além do nome que partilham. São músicos ágeis, esguios, rápidos e capazes de constituir um desafio em qualquer prova de velocidade que exista. As composições constroem-se em riffs geométricos liderados por uma histérica bateria, base da incrível estabilidade que existe em toda aquela vertigem. Fãs de tempos inortodoxos e complexas estruturas musicais, carregam a sua música através de uma coordenação que é invejável e de uma velocidade aliciante e cheia de adrenalina.

Entre as guitarras que se entrelaçam e emaranham uma na outra, temos um vocalista (absoluto campeão de endomendaria nesta noite, graças ao seu fantástico chapéu) a lançar ritmadamente a sua one liner que serve de letra para a música (ver “Trauma de Lagartixa”), actuando como uma espécie de instrutor de fitness que puxa por nós no meio desta passadeira mecânica que são as canções dos Galgo. Esse estado anímico era visível numa plateia dançante e extremamente calorosa para esta nova matilha lisboeta.

Depois desta autêntica maratona de dança, ficamos com a impressão que, tal como os Cave Story antes deles (e as Pega Monstro a seguir) também os Galgo carregam consigo um potencial que faz o acompanhamento destes novatos algo bastante estimulante. Completamente capazes de manter um elevado ritmo durante todo o espectáculo e donos de uma configuração muito interessante do género do math rock, é seguro dizer que podemos contar com o quarteto para uma boa festa.

São agora 23:30h e depois de arrumada toda a extensa parafernália dos Galgo, é hora de vir a configuração bem mais minimal da nova irmandade favorita de toda a gente. É agora a hora de Pega Monstro, o duo composto pelas irmãs Maria e Júlia Reis. Com os versos soltos de várias canções de Alfarroba presentes nos lábios de muitos presentes, o Music Box estava pronto para receber o lo-fi confessional da banda oriunda da eternamente jovem Cafetra Records.

Ver um espetáculo de Pega Monstro é assistir a uma fantástica demonstração de despretensão e atitude. Seja na ambigua “Branca” ou na bem directa “Braço de Ferro”, as manas extraem o maior número de decibeis em cada arrancada, criando um espectáculo intenso que ora pode ter os seus momentos de introspecção como de comunhão e partilha de energia. A presença do mais recente disco no alinhamento é praticamente integral, não obstante, Alfarroba também se faz sentir e muito na maneira como a banda agora se expressa.

Ainda que conservem toda aquela energia e espontaneidade que tanto charme lhes foi dando ao longo dos anos, a dupla surge agora em palco de uma forma bem mais musculada, concentrada e dinâmica,tal como sugere o disco, comparativamente com registos anteriores. Não foram raros os momentos de destaque ao longo da torrente de som que se fez sentir no Cais. É preciso falar da belíssima harmonia vocal acapella no início de “Não Consegues” (numa rara vez onde se pode testemunhar, sem distracções, os dotes vocais das irmãs). Não se poderá também passar ao lado de uma épica construção de “Amêndoa Amarga”, que eventualmente culminou num devaneio drone épico que já tinha bem mais de psicadélico do que garage e que colocou toda a gente num intenso trance eléctrico.

Com as hostes relativamente animadas onde eventualmente despontou um pouco numeroso mas robusto mosh, também houve oportunidade para apresentar alguns inéditos que indicam que poderemos ter novidades bem em breve. É preciso destacar também o tema desconhecido com o qual se despediram, que aparenta ser, até à data, o som mais pesado a sair das mãos destas garotas (e mais uma vez elogiar Júlia Reis como uma presença verdadeiramente pujante e animalesca nos pratos), bem como a perícia técnica que parece cada vez mais crescente dentro desta fantástica simbiose que formam as duas.

Donas completas da reverberação e excelsas na arte de desenhar emoções na distorção, as Pega Monstro são, no fim de contas, uma grande banda rock, à boa moda. Têm a sua direcção, fazem a sua coisa e são boas nisso. Um espectáculo ao vivo deste duo é, sobretudo, uma catarse, um domínio intenso de energias emocionais para as descarregar com grande textura sobre a sala de espectáculos. As miúdas rockam a sério e merecem que se rocke com elas. E todos ganhamos.

Por fim, a noite continuou madrugada dentro. Já com as guitarras guardadas e dando espaço a sonoridades mais divagantes, o Music Box restaurou a sua configuração clássica de excelso lugar de clubbing com o abrangente e francófono Pilooski e sobre a electrónica mais minimal de Magazino. O Jameson Urban Routes ainda tem muita música para dar com concertos de Holy Nothing, PAUS, Inga Copeland ou El Guincho já nos próximos dias.