Future Islands
Future Islands

Jameson Urban Routes – Future Islands

A banda de Baltimore actuou pela primeira vez em Portugal e deixou rendido o público que esgotou a lotação do Musicbox. Sam Herring foi o herói de uma noite épica. Música com coração, mas sem sentimentalismo. Ele não inventou a roda nem a pop, mas reinventa-se no limite das forças com que se atira a cada canção.

Estava céptico. Um céptico flexível, mas céptico. Até à data, quase tudo nos Future Islands soava-me a new wave dos 80’s com o tal upgrade synth.  O quase é importante porque é nos pormenores que Deus e o Diabo se revelam habitualmente. E os pormenores de luz e trevas manifestam-se, neste caso, na figura aparicional do seu vocalista. Sam Herring não é apenas mais um elemento da banda. Ele é o desequilibrador, o alquimista, a carta fora do baralho que eleva um bom naipe de canções para um patamar de transcendência.

Diante de uma plateia, que esgota o Musicbox, e ansiosa por ver pela primeira vez os Future Islands, questiono-me se por cá ainda são uma banda de culto ou se terão passado à condição de fenómeno viral.  Há efectivamente aqui um happening. Mas, se como estou desconfiado, o vírus já está em acção, o Big-Bang mediático ocorreu durante a sua passagem pelo talk show de David Letterman. Precedidos por um sargento do exército desmembrado que havia perdido todos os seus braços e pernas na Guerra do Iraque, Sam Herring apareceu no plateau a atacar as câmaras com toda a pujança de um corpo frenético. Ironicamente, a mesma guerra de audiências que corta e serve a Humanidade em pedaços de sentimentos servia agora para disparar a popularidade das letras de amor dos Future Islands. Para trás, ficava então o cliché de oito anos de estrada e noites até se tornarem o maior sucesso indie pós-Pulp.

Agora vinha o grande teste ao meu cepticismo. O girascópio, um dos incontáveis números de dança free-style, a voz gutural, o bater no peito misto de redenção misto de sofrimento penitente, os pontapés repentinos e estilhaçados no éter seriam, efectivamente, genuínos? Ou não passariam de maneirismos de expressão e tiques de laboratório? David Letterman não teve preocupações dessa natureza e comprometi-me a fazer o mesmo. Porque uma encenação, quando demasiado mecanizada, extrapola a performance artística. Por isso, nada melhor que vestir a pele dos fãs, também quando sensatos e genuínos, os mais críticos dos críticos. E dançar como se ninguém estivesse a ver.

Público ao rubro, a banda entra e ao fim de poucos segundos temos confirmada a imagem de marca de Sam Herring. A voz que vem das entranhas, o punho no peito, o gingar de ancas. Não restam dúvidas. É o mesmo tipo do talk show de Letterman. Antes do concerto, eram inevitáveis, no estilo, algumas analogias com Ian Curtis ou Peter Hammill. Mas Sam tem identidade muito própria. Não só na forma de cantar, mas na fisicalidade do seu desempenho. Ele canta com o corpo todo, mas este parece estranhamente habitado por uma tensão à beira de um colapso. Em “Before The Bridge” investe um soco na cabeça e golpes de felino, em “Tin Man” descasca o rosto para trás do crânio. E não sabemos se é referência inconsciente a psicodrama analítico ou abismos de filme de terror. Todo o concerto é um desfile de emoções, raiva, dor, luxúria, angústia. E amor, claro. Emoções que aquele corpo endiabrado serpenteia em slalom’s olímpicos, para cima e para baixo, para os lados, em diversos tons e escalas de voz, em gritos malditos vociferados no limite das forças.

Maneirismos ou tiques ensaiados, a verdade é que Sam está sempre à beira da tensão nos momentos mais tranquilos e quando explode leva tudo e todos atrás de si. Suor à beira das lágrimas, bíceps exageradamente descontrolados num corpo de canções. Sem ele, e com todo o respeito pelos restantes elementos, dificilmente os Future Islands seriam notados. Sintetizadores maquinais, robóticos, respirados por uma inspiração humana é muito menos que inventar a roda. Isso teve o seu boom na década de 1980 e fixou um género, o que só poderia ser reinventado, renovado, ou dar origem a um novo movimento, através de um génio.

Sam Herring não é nada disso. É um inquieto. Um inconformado. Um sensitivo. Um cantor soul numa banda de synth-pop. Ele incendeia canções que, de outra forma, passariam despercebidas. Alma, uma palavra mística e em desuso, explica cientificamente o sucesso dos Future Islands. “I’ll take all of that you got”, disse Letterman. E, para sermos contagiados por este vírus, temos mesmo de tirar do seu vocalista tudo a que temos direito. Não há meio termo. Tudo ou nada.

Nuno Calado Costa