Jameson Urban Routes’15 – Sunns & Jerusalem In My Heart, HHY & The Macumbas, Ricardo Remédio

Eis que chegamos ao dia final do Jameson Urban Routes. Ao longo de dois fins de semana foi possível assistir aos espectáculos absorventes de Inga Copeland ou Pega Monstro, e apelar ao corpo e ao passo com a companhia dos sempre viscerais PAUS e os muito latinos El Guincho e Nicola Cruz.

Para a última noite antes de se poder dizer “até para o ano”, o Musicbox programou mais um certame cheio que foi desde o óbvio destaque para o concerto colaborativo de Suuns com os Jerusalem in My Heart, até aos sons sui generis de Ricardo Remédio e HHY & The Macumbas, havendo ainda tempo para descobrir o step de RP Boo.

Num sossegado Halloween onde houve quem apostasse em indumentária mais extravagante, coube a Ricardo Remédio abrir o acolhedor palco do clube lisboeta com música que não destoaria de todo com a festividade do dia. Algo reminiscente do set de Andy Stott na semana passada, Remédio fez a sua hora de ágeis drones e prolongadas sequências rítmicas de índole apocalíptica.

Oscilando entre um peso mais industrialmente obscuro e uma componente mais suave e sonhadora, o set de Remédio continuou a tendência exploratória e introspectiva que havia sido vista em passados alinhamentos desta edição do festival. Sem propriamente chamar destacada atenção pelo seu som, o artista manteve um espectáculo discreto e competente.

Seguido de uma breve pausa alongada pelos preparativos mais intricados do espectáculo, entre os quais se incluiu um projector a bobinas, era agora hora de um espectáculo de travo especial e exótico. Dentro de momentos subiriam aos palcos os Suuns com o projecto do compatriota Radwan Ghazi Moumneh, produtor canadiano descendente do Líbano, que para além de partilhar espaço de gravações com os Godspeed! You Black Emperor, apresenta-se em palco como Jerusalem in My Heart.

Foi ainda este ano que as duas faces, à partida imensamente diversas, decidiram juntar-se para uma colaboração. Daí surgiu Jerusalem in My Heart, um compêndio de canções onde a limpeza geométrica e condutora dos Suuns se deixou sujar (e bem) pelo exotismo árido e poeirento da visão transgressiva de Moumneh da música etnográfica da sua região. Figura também, como uma das propostas sónicas mais interessantes de 2015 pela experiência profundamente sensorial e experimental que representa.

Todos estes eram factores de peso para ter em conta este espectáculo, bastante aguardado, tendo em conta a afluência que surgiu para os receber. Dito isto, quem testemunhou a passada noite de sábado com certeza não saiu desiludido com um concerto sólido e estimulante, que não obstante beneficiaria de um outro andamento.

Com a bobina a correr e por entre visuais francamente interessantes e bem orquestrados, muito em linha com a tal sujidade de sabor a terra e poeira que preenche as texturas do disco, o espectáculo inaugurou-se com uma longa e progressiva intro a mostrar os dotes vocais de Radwan Ghazi, que por sinal, foram dos elementos mais impressionantes do espectáculo.

Guiando-se por um alinhamento que obviamente não conteve muitas surpresas, o grupo híbrido teve cerca de uma hora para apresentar o seu espólio através de extensas jams e analíticos e suaves drones que eventualmente, e consoante o caso, explodiam numa salva de guitarras ou culminavam em hipnotizantes padrões percussivos. Entre o beat minimalista da saborosa “In Touch”, ou a pancada da mais sugestiva “Metal” (que abriu o concerto), a qualidade de som manteve-se polida e intricada, com os dedilhares cerebrais próprios dos Suuns a abrir alas para os riffs mais estorricados e estrangeiros da outra metade (que se disparavam directamente para as orelhas e rápido invadiam o resto do corpo).

Visualmente muito concentrados e pouco dados a interacções ou sequer a muito movimento corporal, os Suuns agiram como introspectivos fazedores de canções e beats ao serviço da alma mais volátil de Ghazi. Este coloria com dança o já minúsculo palco à medida que fintava o imenso equipamento que praticamente transbordava do mesmo, fazendo o papel de anfitrião entertainer para este novo mundo feito de exploração e diferença. Mas nem tudo é vertigem…

Ainda que progressivo e subtil em estúdio, a encarnação física deste disco nesta noite beneficiaria, lá está, de um pouco mais de ginga semelhante à que se via no vocalista. Mais interessados em construir texturas e deixar as suas músicas respirar, o grupo optou por uma abordagem mais construtivista e solene em vez de capitalizar o ritmo.

Assim, não foram raras as vezes em que se alongaram certos momentos (desnecessariamente) em extensas sessões instrumentais onde a natureza minimal dos padrões e das melodias se gastava de forma rápida (o disco, de índole casual e experimental, foi feito numa semana), introduzindo alguma monotonia a um concerto, que mesmo assim, beneficiaria de menos builds ups música após música, como se de um reset se tratasse.

Entender-se-á esta escolha talvez como uma forma de explorar e tentar perceber até que ponto podem levar estas sonoridades e composições e daí encontrar novas ideias. Contudo, o concerto acabou por sofrer de constantes quebras de ritmo entre músicas, elas próprias presentes no disco, que poderiam ser colmatadas e disfarçadas no seu registo orgânico de modo a oferecer uma experiência mais fluída que nos levasse no seu balanço.

Para o fim, um agradecimento pelo apoio português e uma sentida homenagem a “um projecto muito especial”, precedidos por uma “Gazelles In Flight” intensa e desperta que nos fez pensar o que mais seria este concerto se o nível se mantivesse sempre assim tão volátil. (Quase) transcendental e muito interessante, esta colaboração dos Suuns com os Jerusalem in My Heart destacar-se-á sempre pela sua ousadia cultural e vontade de explorar e desconstruir sonoridades já conhecidas (ainda que pouco familiares).

Com eles lembramos-nos da importância da colaboração e do intercâmbio e o quão vital é para a música e para a arte, levar a cultura para novos e entusiasmantes sítios, fazendo-lhe sempre a devida justiça. Um bom concerto e um bom laboratório sobretudo. Foi bom vê-los juntos e resta agora esperar que outros excitantes trilhos haverá para percorrerem, seja em conjunto ou não.

Mantendo-nos ainda numa paleta muito multi cultural, os ritmos dançantes e psicadélicos obteriam a sua extensão com HHY & The Macumbas, projecto oriundo do norte, de travo internacional e comandado por Jonathan Saldanha (o HHY do estaminé). O grupo ficou com a tarefa de prolongar a festa, algo que à partida estaria garantido face às sonoridades quentes e húmidas que criam.

Com Throat Permission Cut como principal exosqueleto para este verdadeiro ritual, os Macumbas fizeram do seu espectáculo uma mostra de bizarria e abordagens sui generis. Cuidando as atmosféricas paisagens naturalistas com uma panóplia de elementos de percussão, levaram o Musicbox à tribo e cortaram a corda, encurralando os presentes num autêntico labirinto de sons que pede para que nele se percam os raciocínios.

Tal como o grupo que os procedeu, também estes Macumbas fazem um convite ao embrenhamento e à paciência à medida que vão escalando nas suas longas composições, fortuitas para os bem recebidos prolongamentos e improvisos que mais ainda acentuam a noção de psicanalítico e exótico. Claramente bem acolhidos no espaço mínimo e compactador do Musicbox, os HHY & The Macumbas tiveram aqui uma excelente oportunidade para mostrar mais a sul do país, o porquê de serem um dos projectos psicadélicos mais interessantes do certame luso.

Para os mais resistentes e inconsoláveis pelo inexorável fim que se aproximaria, restariam ainda RP Boo e Blastah para aquecer a noite e o Cais. Quer pelo pioneiro trabalho no footwork do primeiro ou pela batida lusa do segundo. Resta agora beber o último copo de Jameson e aproveitar o que resta. Para o ano lá virá o providencial refill.