Jay-Jay Johanson @ Musicbox Lisboa

Jay-Jay Johanson, o perene melancólico desajustado (X Aniversário MusicBox, Janeiro 30)

A dupla nacional Lavoisier já tinha tocado as suas versões bluesy de temas da música tradicional portuguesa, quando no MusicBox as vozes de Gene Kelly e outros clássicos do easy listening massajavam os ouvidos do público que na véspera esgotou a bilheteira daquele clube, para assistir a mais um regresso de Jay-Jay Johanson a Lisboa. Resistente bem sucedido do 90s trip hop, após duas décadas e alguns concertos em Lisboa, o crooner sueco com angelical voz de menino do coro ainda mantém a fidelidade de uma multidão suficiente para lotar aquela sala, prova de um concerto desejado e por isso tranquilo para o artista que pisou o palco poucos minutos depois da meia-noite do último sábado.

Geek is sad, but cool

E (re)ver Jay-Jay Johanson é sobretudo escutar aquela peculiar voz, sem esperar grande variação da sonoridade daquele artista, que tem sido fiel ao conceito musical que o tornou famoso. Magríssimo e elegante como sempre, com o mesmo ar ‘geeky’, quase perverso, de 20 anos atrás (a sinistra “So Tell The Girls That I Am Back In Town” é de 1996) e acompanhado por um único instrumentista que tocou dois teclados electrónicos e os sons pré-gravados, Jay-Jay iniciou o concerto com a recente “I Love Him So”, refinada balada downtempo que confirmou o intimista som típico do sueco e permitiu sentir que a voz dele permanece muito límpida, além de habilmente colocada e projectada. E para cativar definitivamente o público, Johansson continuou com “It Hurts Me So”, bem recebido clássico antigo da carreira dele e do próprio género trip hop, que é uma canção cinemática e perturbadora, cujo sujeito obsessivamente persegue a deprimida ex-amante que o deixou sem ele entender porquê – tema que assentou bem no frágil ar do sueco.

Sugerindo um alinhamento de temas coerente, Jay-Jay como que justificou a vitimização da canção anterior com “Dilemma”, relato de um fiel amante que rejeita trair num encontro casual, em registo musical burlesco, de ‘bas fond’, que elegantemente transitou para um sofisticado medley com “Escape”, soturna, introspectiva, numa escapista estrutura electrónica de cadência simples, adornada pelo piano sintetizado.

Após hidratar as cordas vocais, Johanson introduziu “NDE”, do mais recente Opium, outra balada (apesar da batida mais encorpada e indutora de dança, com efeitos de vocoder) sobre uma experiência de quase morte (near death experience), que grande parte do público cantou, provando estar a par das novidades do artista que continuou o ensaio crítico sobre relacionamentos cantando a melancólica “She Doesn’t Live Here Anymore”, solitária, carente, mais um descrente ‘fado’ de abandono.

No centro dos desencontros esteve…

Transitando para o que foi o troço mais mexido do alinhamento, Johanson cantou “I don’t Know Much About Love”, sonoramente próxima do breakbeat, narrativa de um jovem inexperiente e acanhado – “Will you teach me? I’ve never been a seducer” -, que com ele na sala, facilmente se supõe ter sido o jovem Jay-Jay, franzino e inseguro, ainda no anonimato antes da fama. Após a minimal e optimista “Tomorrow”, veio “Milan, Madrid, Chicago, Paris”, mais rápida, com vívidos solos ‘jazzy’ de piano, momento no qual grande parte do público já esboçava passos de dança e que o sueco aproveitou para apresentar Erik (Jonsson), o instrumentista que o acompanhou no palco. A colectânea de desencontros (físicos e/ou emocionais), continuou em “I Miss You Most Of All”, cuja letra triste, mas não derrotista, Jay-Jay cantou harmoniosamente, com segurança, lúcido na tristeza de “Gotta try to move on / Get back on the right track“, amparado por uma batida facilmente dançável, pontuada por harmonias de piano e decorada com arranjos de cordas.

Para não variar, outra pessoa ausente é tema de “I Fantasize Of You”, uma canção que Johanson cantou num modo retro, com qualquer coisa de comédia amorosa dos anos 50, em contraste com a contemporânea batida breakbeat, mas combinando com os aveludados solos do teclado Fender Rhodes. E no meio de tantos desencontros, após Jay-Jay ter alertado “I need more whiskey”, surgiu a única letra sobre duas pessoas em sintonia: nem “Rocks In Pockets” impediram que, coerentemente, Jay-Jay se sentasse junto a Erik, para juntos tocarem a música mais ‘uptempo’ do concerto, urgente, encorajadora nos eufóricos “We can” da letra, facilmente imaginada sendo dançada na rua por dois jovens, que também pelos arranjos de cordas fez recordar várias canções de Sebastien Tellier. Era sensível a satisfação geral entre as pessoas que assistiam ao espectáculo.

Adeus, euforia.

O final do concerto começou com o regresso à tristeza e aos desencontros, emocional no caso da balada “Far Away” (conversa terminal de um casal), que antecedeu “Driftwood”, outra balada, que poderia ser ressaca emocional da anterior, na qual o arrependimento da letra foi sensível no comovente cante de Johanson. E a coerente lista de canções continuou na indagada (how come that you don’t) “Believe In Us”, um breakbeat lento, recheado com frases do Rhodes e do piano sintetizado, sobre outro relacionamento falhado, ao qual Jay-Jay conferiu a última interpretação emocionada da noite.

Para fechar o alinhamento, o sueco escolheu a catártica “I’m Older Now”, que começou por cantar ‘a capella’, num modo autobiográfico, melancolicamente como se fosse ele o sujeito já maduro que recordou pretéritas glórias de sedução, segurando o copo com o whisky que foi bebendo enquanto Erik tocou a instrumental introdução e que não largou até ao fim, para brindar e agradecer às pessoas que esgotaram o MusicBox para o ver e que ruidosamente pediram ‘encore’ – um pedido satisfeito com “On The Other Side”, só voz e piano que lentamente deslizaram por aquela ‘lullaby’ de despedida unilateral (para pater ou mater falecido recentemente), até ao ocaso do concerto. Sintetizando numa frase, a obra de Johanson pode já não ser (considerada) ‘notícia’, por ser pouco variada, mas escutar Jay-Jay é sempre bom, pela qualidade do talentoso ‘cantautor’ sueco.

E o ‘show’ seguiu em frente, tendo a maior parte do público ficado na sala, para assistir ao Clubbing estrelado pelos britânicos The Correspondents, um melodioso tributo electro ao swing e ao jive, impressionante pela presença em palco de Mr. Bruce, um hiperactivo ‘compère’ do século XXI, sempre cantando com o aristocrático sotaque cockney de Alan Cummings, trajado como um super-herói ‘nerdy’, com o colorido fato-de-macaco colado ao corpo e os espessos óculos de massa, numa dupla (com DJ Chucks) que se adequará muito bem a qualquer tenda Electro de festival de verão – confiemos na experiente competência dos promotores portugueses.

Confere a fotogaleria do concerto aqui:

Jay Jay Johansen Musicbox