Damien Jurado passou pelo Musicbox na última quarta-feira, quando está num momento da carreira em que já não tem nada a provar. Aos 43 anos, o artista de Seattle contemporâneo de Beck não lhe fica atrás em talento e faz parecer que só não criou hits clássicos como “Loser” ou “Sexx Laws” por opção própria; talvez a de não ficar demasiado refém da própria carreira, de forma manter algum tempo para a família, cuja falta ele lamentou em Lisboa.

A maturidade da música pela música

Para a comunidade alternativa, Damien Jurado ainda é uma estrela luminosa, facto evidenciado pela variedade de línguas faladas pelo público maduro e multinacional que a meio de uma semana encheu a maior parte do Musicbox porque quem lá estava sabia bem ao que ia. E Jurado continua a criar boa música. De facto, o recente décimo primeiro álbum – Visions Of Us On The Land, lançado este ano -, e as canções escolhidas para a banda sonora de uma longa metragem no ano passado, constituiram a maior parte do alinhamento do concerto em Lisboa, após aquecimento feito pelos The Weather Station que vierem apresentar a sua folk-pop dreamy. Mesmo assim, houve tempo para recordar álbuns anteriores, como Brothers And Sisters Of The Eternal Sun na psicadélica abertura do concerto ao som de “Silver Timothy”, recheada com o groove da secção rítmica e dos efeitos synth e dos teclados, e de “Magic Numbers”, a canção que abre aquele disco de 2014. Um olhar geral durante o ruidoso aplauso àquela canção, permitiu observar que o público estava conquistado por um Damien à guitarra acústica, comodamente sentado numa cadeira e confortavelmente acompanhado por uma banda com bateria, baixo, guitarra, teclados e sintetizador que tornam a sua música psicadélica, às vezes onomatopaica, algo mais e melhor que só shoegaze e folk.

Um bom exemplo de que Jurado se sente mais californiano que filho da grungy Seattle é a terceira canção do concerto, o novo single “Exit 353”, melodia pop ligeiramente parecida com algum som dos Beach Boys pelos adereços ambientais do sintetizador. E apesar de algumas das letras serem tristes, aquela boa onda musical prosseguiu em “Lon Bella”, durante a qual o bom tratamento do som realçou a mútua adequação entre a música e a dimensão da sala, possibilitando uma muito agradável experiência auditiva. Continuando a apresentar o último álbum, a bucólica “Mellow Blue Polka Dot” fechou o primeiro troço do concerto, como se a guitarra de Jurado estivesse a galopar montada nos efeitos dos teclados e do sintetizador.

Sem que o alinhamento deixasse de estar muito cool, Damien abrandou o ritmo na balada “This Time Next Year”, uma quase bossa nova do álbum Maraqopa (2012), com um pífaro sintetizado a remeter as almas para areais de praia num desempenho que agradou muito ao público, que no fim retribuiu o maior aplauso até àquele momento. Mas o pretexto da actual digressão é o novo Visions Of Us On The Land, o que justificou um avanço para ouvir “Sam And Davy”, um dos temas em que o timbre vocal de Jurado brilhou mais, antes do final cheio de efeitos de theremin. Seguiu-se um dos melhores momentos do concerto, a interpretação de “Silver Donna”. Porque se é verdade que a canção ajudou devido à sua estrutura psicadélica semelhante ao clássico “Sympathy For The Devil”, não é menos verdade que o groove animado com que a banda tocou a longa jam final empolgou o público até um longo aplauso com alguns gritos que provaram que um repertório pouco efusivo também pode ser entusiasmante.

O crescendo emocional até à mútua empatia

Talvez pela qualidade da sequência anterior, tanto “Nothing Is The News” como “Qashina” – outra canção do álbum deste ano -, soaram algo mornas apesar da qualidade instrumental da primeira onde uma competente guitarrista se destacou no longo solo – o instante mais emocionado foi mesmo um gritado pedido por Caught In The Trees – álbum de 2008 que Jurado não tinha ainda recordado -, sem resposta. O momento era de contenção no palco, onde foi interpretada a distanciada introdução de “Onalaska”, tema cujo final fluído como no disco serviu de ponte para “Taqoma” – mais duas do último disco -, durante a qual os elementos da banda foram apresentadados e que talvez tenha sido o melhor pedaço xamanístico de música do concerto, somando o solo dos teclados e os efeitos de eco na voz e o zumbido solo da guitarra. E o vigor de toda a banda, que entretanto saiu do palco, foi correspondido pela persistente e ruidosa exigência de encore, atestando a qualidade do desempenho.

Damien regressou sozinho com a guitarra acústica para tocar a singela e melancólica “Kola” que fecha o novo álbum e, numa rara pausa do concerto, confessou o gosto pelo regresso a Portugal e que a digressão com banda tem sido tranquila, “porque eles são mesmo bons! Muito mais bem disposto que alguns acessos de mau feito pelos quais é conhecido, embalou para “Museum Of Flight” e o timbre delicado da voz estava a soar ainda melhor sem o “ruído” da banda, mas Jurado parou subitamente – “por favor, podem desligar esta ventoinha? É demasiado ruidosa e eu quero tocar o melhor possível para vocês!” Tanta honestidade e respeito pelo público foram logicamente agradecidas com uma fortíssima salva de palmas muito empática antes do norte-americano ter retomado a canção, ainda mais delicadamente que na primeira tentativa.

Caught In The Trees voltou a ser exigido pela mesma pessoa do público, e naquela fase intimista do concerto um sorridente Damien respondeu “Ao menos disse ‘por favor’, mas não, tendo acrescentado para o público, “apesar de estar muito tempo longe da esposa e da filha, o meu trabalho é bom e com público é melhor.” A banda reentrou em palco para a interpretação de “Working Titles” – de Maraqopa –, e, num encerramento magnânimo, Damien lá aquiesceu para uma canção de Caught In The Trees: com um riso quase gargalhado pelo meio, a saudosista folk de “Everything Trying” foi a canção mais antiga do alinhamento (2008) e sintetizou bem a boa onda musical do momento com a frase “I’ll be saying in your deep blue eyes.” Não foi um dos concertos do ano nem se previa que o fosse, entre os aparatosos espectáculos de Muse e AC/CD), mas quem esperava uma hora e tal de música da boa, com certeza saíram satisfeitos e desejosos que Damien Jurado regresse a Portugal.

As imagens e o olhar de Calos Mendes sobre as terras de Jurado e sobre os The Weather Station a quem coube as honras de abertura da noite.

Damien Jurado @ Musicbox

The Weather Station @ Musicbox