La Luz @ Casa Independente

La Luz @ Casa Independente

As La Luz são um agradável quarteto composto por Shana Cleveland (nas guitarras), Marian Li Pino (no kit), Alice Sandahl (no orgão) e Lena Simon (no baixo). Juntas fazem um power pop tão soalheiro como ocasionalmente caleidoscópico a lembrar as heranças de gentes como os Beach Boys ou Man Or Astro-man?, na forma despida e autêntica como fazem a sua marca de surf rock airoso, ondulado e marcadamente suave e feel good.

Em 2015 já se destacaram com Weirdo Shrine, o brioso segundo disco que viu as jovens explorar outras águas mais progressivamente psicadélicas e a fazerem amizades sónicas com Ty Segall, que se encarregou dos deveres de produção. Não obstante, o groove nato que carregam é mais bem sentido no seu formato ao vivo e foi precisamente isto que as La Luz nos vieram ensinar nesta noite de estreia em Portugal, levada a cabo na muito aconchegante Casa Indepedente.

Num fim de tarde domingueiro e nebulado, a lembrar exactamente a famosa condição climática de Seattle, (de onde são oriundas), as La Luz chegaram a Lisboa para iluminarem as redondezas com as suas doces vozes e riffs balançantes, fazendo toda a gente esquecer o leve aguaceiro que se fazia sentir lá fora. Liderada pela desinibida e carismaticamente desajeitada frontwoman Shana Cleveland, a banda apresentou-se à Casa Independente com uma boa disposição contagiante e uma postura descontraída que certamente consquistou novos fãs.

Com um repertório a centrar-se sobretudo no último álbum e com um espaço respeitável para outros trabalhos, as La Luz mostram em palco uma dinâmica bem mais musculada do que os registos de estúdio dariam a pensar. Quer estejam coordenadamente a dominar um curto instrumental surf circa 60’s, ou a dançar alegremente por cima de temas sobre amor e diversão com pequenos acessos sci-fi, estas raparigas fazem questão de tomar conta do palco da forma mais despreconceituosa e genuinamente divertida possível.

Na verdade, diversão e boa disposição são a dávida maior que as raparigas trazem na bagagem; a certo ponto, houve um breve momento para promover Soul Train como “a maior invenção americana” e procederam a uma brincadeira inspirada na série televisiva: amavelmente, a banda pediu para se formar um corredor de uma ponta a outra da sala para que as pessoas de trás progressivamente dançassem em fila até à frente do palco. Apesar de alguma timidez inicial, a plateia aderiu ao pedido e o ambiente aqueceu quando a banda decidiu entrar com as faces mais aguerridas que mostram que as La Luz vão para além da faceta açucarada que mostram à primeira vista.

Por esta altura já estávamos embrenhados num clima que tanto lembrava uma festa com muita cerveja, como um cenário idílico para um qualquer filme de Quentin Tarantino. Entre composições simplistas e upbeat como “It’s Alive” e “Don’t Wanna Be Anywhere”, a música das La Luz fez-se através de belíssimas e flutuantes harmonias vocais onde todas cantam e pequenas e concisas jams lideradas por uma divertida e irrequieta guitarra apretchada de um suave reverb. Destaque para a presença de palco da guitarrista e da teclista, cujos dance mooves exímios com os instrumentos mais ainda contribuiram para o belo ambiente de pé solto. Mesmo quando o tempo estava marcadamente acelerado, as raparigas nunca desistiam de fazer uso do seu charme nato em palco, sendo apenas confrontadas com grande sucesso nos momentos de maior desinibição.

O que mais alegra no som do quarteto é como todas as intervenientes são capazes de dar o seu cunho individual ao mesmo tempo que mantêm um tocar consistente e fluentemente acertado. As La Luz conseguem ser simultaneamente velozes e acertivas como sensuais e descontraídas, deixando as secções ritmicas tratar do movimento de corpo da plateia à medida que a guitarra nos vai banhando de riffs orelhudos com a dose certa de psicadelia. Esta última qualidade foi especialmente flagrante na rendição desta noite de “Sleep Till’ They Die”, cujo emaranhado de teclados, baixo, bateria e guitarra criou uma bela teia para ornamentar a Casa Independente.

Houve ainda tempo para uma muito traquina “Don’t Wanna Be Anywhere” e o nosso desejo por um belo surf rock à verdadeira moda antiga já estava a ser satisfeito por muito boas medidas. A passear por sons que nos iam lembrando alguns filmes série B de artes marciais e por outros que eram autênticas festanças mariachi, a banda claramente tem uma vibe que sabe executar bem e que lhes favorece ao charme. Apenas uma especial pena para o som do orgão que por vezes parecia inexplicavelmente baixo em comparação com os restante elementos, algo que privou a banda de se direccionar para sabores um pouco mais exóticos.

Foi ao longo de pouco mais de uma hora, com direito a encore, que as La Luz foram bem recebidas e bem tratadas por um público dançarino que em troca obteve uma estreia intimista e de sabor especial. Por fim, houve ainda um rapaz que conseguiu levar merchandise da banda à sua escolha por ter acedido ao pedido de fazer um crowdsurfing de uma ponta à outra da comprida sala, e uma sensação de satisfação por ter sido este o programa de fim de tarde. Tirámos finalmente a teima e a conclusão a que chegamos é que as jovens de Seattle são um excelente tesouro a ser descoberto e que a sua melhor configuração sónica, é deveras ao vivo. Autênticas, confiantes e divertidas, agora resta só esperar um regresso. Talvez com mais confetti e golfinhos de borracha.