Lisa Mitchell

Alternando aleatoriamente entre uma Bebel Gilberto mais dreamy e uma Corinne Bailey Rae menos soul com a ligeireza dos passeios de bicicletas à la Verão Azul, corridas de patins em linha no calçadão em Copacabana, tardes quentes passadas em campos de malmequeres a desenhar figuras nas nuvens ou percorrer álbuns de fotografias alteradas pelo tempo, “Wah Ha” da australiana Lisa Mitchell aconchega-nos na memória tempos nunca vividos e a nostalgia de uma realidade que nunca chegámos a conhecer.

Apesar das influências que remetem para Sufjan Stevens, Sharon Van Etten e War On Drugs, é na bossa-nova carioca bordada a geometria sessentista em tons de sépia onde habita um revivalismo delicodoce que se ancora o enigma onomatopaico do título que encontra tradução num simples, mas peremptório “fuck it”. Ou, para quem gosta de delineações mais alongadas,

I find it hard to be in my shadowy moods, I feel like I have to hide away and not let anyone see me, but lately I’ve been experimenting with owning them. I don’t want to be the vibe-kill, I just want to be honest and let go of the fear of being judged as ‘crazy’ or ‘depressed’.

E remata com um,

Do you ever get tired of having to be ok all the time?

Longe dos tempos e do formato Australian Idol que a deu a conhecer ao mundo, o álbum de estreia de Lisa arrecadou um Australian Music Prize em 2010, o prémio homólogo do Mercury Prize. Co-produzido por Tim Harvey (Hot Little Hands) e remisturado por Eric J (Chet Faker, Flume), “Wah Ha” tem colorido as emissões da BBC Radio 2 e da BBC 6, mas Lisa Mitchell avisa que o primeiro single do próximo álbum com edição ainda para este verão  não serve de exemplo, e promete mais experimentalismo nos temas que ainda se encontram no segredo dos deuses.

rosana rocha sig

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