Foi durante uma sucessão de entrevistas, em evidente azáfama pré-novidade, que dois dos The Loafing Heroes (o fundador irlândês Bartholomew Ryan e a italiana Giulia Gallina) pacientemente se encontraram ontem com um repórter da Tracker Magazine e destaparam ligeiramente tudo sobre o novo álbum, The Baron In The Trees, que hoje será apresentado, com um concerto no Musicbox da capital.

Chegados ao bucólico cenário do Jardim da Estrela, aspirando a bons augúrios dos espíritos britânicos daquele território, Bartholomew e Giulia responderam a algumas questões da Tracker também sobre a banda, além da inevitável curiosidade sobre o concerto de hoje e o álbum The Baron In The Trees, numa entrevista bilingue àquele combo tão exemplar do multiculturalismo e da cooperação entre povos europeus: além das nacionalidades irlandesa e italiana, integra mais três, entre as quais a portuguesa, de João Tordo, que na banda toca contrabaixo e às vezes guitarras.

Para aliviar parte da curiosidade, o que podemos esperar do concerto de sexta-feira que apresenta o novo disco? Como têm corrido os ensaios?

Vamos interpretar todas as 12 canções deste nosso quinto álbum e talvez mais duas canções. Vamos começar com uma canção completamente nova, que escrevemos há um mês, e depois tocaremos as do The Baron In The Trees. Este álbum é mais dreamy, usámos mais sons ambientais ao estilo de Brian Eno por orientação do produtor (Tad Klimp) e porque a Giulia e eu estávamos a ouvir muita música na onda Can e Brian Eno dos nos 70, mas também coisas mais acústicas, como Van Morrison. Podem prever um óptimo concerto, porque temos ensaiado muito bem, todos juntos, durante os cinco dias que passámos numa casa algarvia. E esperamos um público bom, que gosta da banda. Depois haverá set da DJ Cat Noir, a nossa Giulia, que é convidada habitual do Incógnito.

E já sabem o que vão fazer à canção nova? Além de ser parte do alinhamento dos concertos, será um single? Será o início do próximo álbum?

Talvez fique para o próximo álbum… É muito diferente, é um cântico do paganismo, como uma oração, bom para iniciar concertos nossos – um “encantamento” (citando Giulia).

O que acham que melhoraram do disco anterior para este The Baron In The Trees?

O disco anterior era muito directo, mais acústico, focado na substância das canções… talvez faltassem sons; este é mais orquestral, mais elaborado, adicionámos o piano e a concertina e o trompete, com alguma electrónica porque o nosso produtor Tad – que é também um fantástico músico, faz sons como o John Cage, experimentais… – e nós quisemos adicionar aquele tipo de sons, dar mais atenção àqueles detalhes que talvez faltassem em discos anteriores. E desta vez conseguimos estar mais tempo juntos, colaborámos ainda mais na criação das canções. A Giulia canta dois temas. E até a integração do violino deu mais coesão e unidade à banda, acentuando a identidade folk.

Houve mudanças profundas nos processos de composição e gravação, para este The Baron In The Trees?

Como já dissemos, conseguimos criar mais em conjunto, porque é suposto os The Loafing Heroes serem um projecto o mais colaborativo possível. Na escrita das letras, dois poemas são de outras pessoas: um, “Collapsing Star”, é de um falecido grande amigo – o produtor do nosso primeiro álbum, que tocava muito com Barth desde os nos 90 e estava sempre escrever canções -, e o outro, “Crossing Roads”, foi escrito por uma amiga e nós fizemos a música. E há mais quatro ou cinco letras que foram escritas pela banda, não só por Bartholomew. Além disso, para este disco, pela primeira vez reservámos o produtor com um ano de avanço (porque o Tad é muito ocupado e requisitado) e vivemos no estúdio durante as duas semanas anteriores ao início das gravações, com um espírito excelente, familiar. E  o Tad, além de um excelente músico, é muito paciente, dedica-se a aperfeiçoar detalhes e planifica mais – desta vez, tivemos uma planificação que fez muita diferença, porque acelerou processos e tornou o trabalho mais focado nas doze canções. Gravámos sabendo muito bem o que queríamos fazer.

O Bartholomew tem um modo de escrita muito próprio… Como emergem aquelas bizarros personagens? Algum tipo de meditação ou trip? Ou são só as musas e algum brainstorming?

(risos) De facto, bizarra é a maioria das pessoas que revelam quase todas algo que é extraordinário. Toda a gente é excêntrica à sua maneira! E nós somos viajantes, gostamos de estar na estrada e gostamos de observar. No álbum a imagem da estrada aberta dá sempre uma sensação de liberdade, é quase um mantra. Muitas personagens são mesmo pessoas reais, alguns são recriações de nós mesmos. E somos inspirados pelos poetas e os vadios, os vagabundos e, claro, a tradição dos trovadores. No álbum há uma canção chamada “Caitlin Maude”, poetiza irlandesa que costumava escrever em gaélico e é uma personalidade que nos agrada muito porque era inconformada, foi uma rebelde, adiante do, muito à frente tempo dela, uma feminista. E nós gostamos de incluir personalidades e personagens interessantes nas narrativas. E há outra canção no disco, “Rag And Bone”, cujo refrão é a frase final de um dos últimos poemas do famoso W. B. Yeats – “Circus Animals Desertion” -, tal como no último disco musicámos um poema de Fernando Pessoa.

E quem é “The Baron In the Trees”?

É o protagonista do livro de Italo Calvino; uma pessoa muito abastada, mas saturada pelo excesso de normas familiares e sociais e que decide subir para as árvores e nunca mais descer, vivendo de árvore em árvore. O livro descreve a vida do barão de um modo muito interessante, que fala a sério com cómica ironia, e gostamos muito da rebeldia do personagem

Quais são as vossas canções favoritas do álbum?

(Giulia) “Javali”, a última, e (Bartholomew) “Collapsing Stars” e “God Spies”, que é uma espécie de resposta à “Collapsing Stars” do querido amigo que morreu, pelo valor emocional de ambas.

Uma questão mais geral sobre como vocês sentem a própria banda: quando os media vos apresentam, o que é que vocês acham que costuma faltar ou não é suficientemente realçado sobre a essência e os traços dos The Loafing Heroes?

As letras são muito importantes. Não queremos ser reconhecidos só pelo som. Na Irlanda destacam mais as letras, talvez por ser a nossa língua materna. É fácil cantar más letras em inglês – por exemplo, só “hey baby, let’s go outside” funciona, mas é idiota, não queremos fazer só isso, gastar palavras; queremos dizer algo relevante e também divulgar as palavras de bons poetas, fazer o que queremos. E relacionado com a importância das letras, às vezes falta alguma atenção a nomes e títulos que são publicados. E o nome da banda, que sintetiza a nossa filosofia, as nossas crenças, o nosso apreço pelas liberdades.

E estando a banda a residir em Lisboa há alguns anos, Lisboa é já a cidade onde deram mais concertos? E onde foram os melhores?

Já deve ser Lisboa. Antes, foi Berlim, onde a banda residiu de 2007 a 2011, mas agora é Lisboa, que juntamente com a Irlanda é onde demos os melhores concertos – os irlandeses também gostam muito de música ao vivo e a adição do violino deu mais emotividade à banda que atraiu mais atenção. Mas na Irlanda fizemos uma digressão pela costa oeste, que é um belo território, muito inspirador para nós.