Maio Maduro Desmaio – O Mês Mais Cósmico

Por vezes há alinhamentos cósmicos que proporcionam um conjunto de eventos quase inarráveis. Seja um ano específico em que são lançados álbuns que se tornam clássicos, estreados filmes que se tornam referência futura inescapável ou um festival com um alinhamento que é mais do que histórico – é lendário. Maio de 2014 fica marcado como um mês com uma oferta de tão elevado calibre que deixa qualquer um perplexo com a questão “Como é que este mês aconteceu?”

The Entrance Band – Stairway Club, Cascais

Ainda os dias do mês não tinham atingido os dois dígitos, fomos atingidos pelo furacão sónico com toques garage e teutónicos The Entrance Band. O Stairway Club em Cascais foi o primeiro protagonista da peregrinação que teve lugar no quinto mês deste ano de 2014. Os The Entrance Band entraram a matar com uma sucessão de temas rápidos e directos que cativaram a audiência de imediato. Cruzando géneros através das décadas, os The Entrance Band foram capazes de tanto estar numa viagem garageira, como de rebentar em peso à Birmingham no espaço de uma simples passagem. Um dos fortes responsáveis foi uma bateria que tanto se mantinha fixa a um ritmo básico e troglodita (comprovado na selvática versão de “I Want You” dos The Troggs), como fluía num misto de John Bonham com Mitch Mitchell com Paul Whaley. O baixo, eficaz mas não simples, conferia uma base sólida mas intrínseca e a guitarra fluía lânguida num oceano de delay, reverb e wah wahs magicamente bem colocados. Eventualmente, o ataque directo inicial deu lugar a divagações mais exploratórias e só então o público percebeu ao certo onde é que estava a entrar. A noite tomou o lugar dos temas mais “soalheiros” e fomos todos hipnotizados em viagem por locais desconhecidos. O caminho de entrada foi mostrado, mas o de saída não estava à vista. No entanto, ninguém se preocupou porque estávamos em boa companhia de três despreocupados guias que pareciam também eles não saber onde estava a saída.

Pontiak – Sabotage Rock Club, Lisboa

Dez dias mais tarde, três irmãos da Virginia de nome Carney e mais conhecidos como Pontiak, trouxeram o seu saturado mas refinado som a Lisboa, mais precisamente ao Sabotage Club. Um evento organizado pela Nariz Entupido a propósito da festa de um dos programas de referência do momento na rádio portuguesa, A Floresta Encantada (Rádio Radar), o concerto dos Pontiak atingiu as expectativas de um público ávido de se perder por campos não percorridos das planícies da Virginia. Arrancando com uma pujança sonora que obrigatoriamente põe o público em modo zombie bamboleante com ritmo, os Pontiak não deixam pedra por virar enquanto lavram esta terra. Promovendo o seu último álbum Innocense, provaram ser uma poderosa banda ao vivo. Além de que três irmãos semelhantes provocam um efeito Cerberus como se estivéssemos a assistir a uma besta mitológica tricéfala munida de guitarra, baixo e bateria. Simples, mas deveras eficazes, os Pontiak trouxeram à vida temas como “Surrounded By Diamonds”, “Shell Skull” e “We’ve Got It Wrong” com um abandono tal que qualquer inibição no público caiu por terra e podemos todos dançaricar ao ritmo seguro e sólido das músicas desta telepática irmandade.

Kaleidoscope – Sabotage Rock Club, Lisboa

Na semana seguinte, o Sabotage Club foi de novo palco de um evento que confirma o apelo corrente das massas de quem não liga ao Top + mas sim a sonoridades psicadélicas. À frente dessa festa estava a Kaleidoscope e não faltou nada para transportar quem apareceu até outros tempos, em que candeeiros de lava estavam presentes em muitos lares e os concertos eram visualmente bafejados por luzes e cores circulares com tonalidades que se transformam em formas mutáveis e nunca estáticas. A juntar ao espectáculo visual, escutaram-se músicas que percorrem décadas e desfazem a distância temporal entre o passado e o presente.

Radio Moscow –  Stairway Club, Cascais

Num dos grandes eventos de Maio, o local foi uma vez mais o Stairway Club no dia 26. De volta a Portugal, e na segunda vinda a terras mais próximas da capital, os Radio Moscow foram um dos maiores chamarizes de público, presenteando-nos com alguns temas do seu próximo álbum Magical Dirt. Num Stairway Club esgotado, o trio veio destilar classe e mostrar como é que se faz bom rock setenteiro com a dose perfeita de azeite. Apesar dos ligeiros temperos de Hendrix, os Radio Moscow vão buscar nomes esquecidos como Randy Holden ou John Nitzinger, dois mestres do uso do fuzz,sustain e distorção. Fazem-no com uma mestria monstra dos seus instrumentos, sendo capazes de transformar um blues boogie básico, que na mão de pessoas menos hábeis não passaria disso mesmo, num desenrolar de passagens complexas e muitas vezes sem que nada o faça esperar. Como se os King Crimson quisessem unicamente tocar blues ou como se os Blue Cheer tivessem pretensões a ser uma banda de rock progressivo.

Stone Dead + The Blue Drones – Sabotage Rock Club, Lisboa

Para terminar o mês, dia 30 tivemos o comedown simpático de dois projectos ainda a dar os primeiros passos nestas lides, os Stone Dead e os The Blue Drones, desta feita de novo no Sabotage Club. No caso dos Stone Dead assistimos a um rock musculado e já com alguma maturidade e um poder ao vivo que não é possível entender ao escutarmos as gravações disponibilizadas no mundo virtual. Em relação aos The Blue Drones há promessa, embora ainda tenham que ir mais longe na sua viagem pela Ribeira das Jardas abaixo. Donos de um gosto mais exploratório, os The Blue Drones têm ainda de delirar um pouco mais com um universo psych mais directo antes de se lançarem em viagens mais profundas ao âmago da questão.

Sálon Fuzz – Lounge, Lisboa

Após este concerto, os últimos cartuchos foram queimados no templo de fritaria que é o Salón Fuzz, evento que tem lugar no Lounge. Carregado de música frita-miolos, houve a aparição no comando dos pratos e da sonoridade de um vocalista de uma banda canadiana que ia tocar num festival menor que estava a decorrer na mesma altura e que desviou um pouco o verdadeiro propósito do Salón Fuzz: destruir mentes e abrir novos horizontes nas mesmas.

Em jeito de conclusão, Maio de 2014 vai ficar na história como um mês que tão cedo não se vai repetir. Talvez por terem havido tantos concertos de calibre tão elevado num curto espaço de tempo, nos esqueçamos que já estamos um pouco esquecidos do que é ter só concertos e não festivais em que bandas que admiramos ficam algo perdidas numa imensidão de gente e limitadas em tempo para realizar o desejo de quem só quer ver um simples concerto ou ir a uma simples festa num bar com boa música, beber um copo, relaxar e dançar até de madrugada.