O trajecto musical de Mark Lanegan é decerto indissociável das últimas três décadas de composições rock. Protagonista e sobrevivente do renascimento da sonoridade alternativa americana, é detentor de um currículo invejável, com diversos projetos e colaborações que o definem como uma referência no panorama musical actual. Distanciado dos longos anos de excessos, Lanegan assume-se agora num registo mais tranquilo e intimista, motivo da sua apresentação no Theatro Circo de Braga.

As primeiras partes foram asseguradas por dois elementos da sua banda, que ambientaram o público para um concerto reservado mas caloroso. A estrear o palco Lyenn, baixista na banda do artista principal, apresentou “Slow Healer”, o terceiro álbum em nome próprio. Numa atmosfera frágil e minimalista, resultante da escassa iluminação e de uma guitarra eléctrica deleitável, desfilaram melodias emotivas que se desdobraram entre o terno e o ríspido. Guiada por harmonias dedilhadas, a voz acentuada do artista pregou reflexões sobre a existência humana, a perda e o amor num diálogo honesto com o público.

A segunda parte do espectáculo introduziu Duke Garwood, guitarrista e colaborador de Lanegan em “Black Pudding” de 2013 em que este manteve o registo singelo do concerto anterior. Mais comunicativo e espirituoso, submergiu em sonoridades blues que resvalavam por vezes o country. A voz grave e sussurrada, pouca entoada mas sempre expressiva, evocava a memória do travador sombrio desfeito em meditações quebrantadas. “Suppertime in Hell”, “Honey in the Ear” e “Disco Lights” foram alguns dos temas que sobressaíram em acordes dedilhados, potentes e perfeitamente calculados na extensão temporal, capazes de mimetizar uma banda inteira numa só guitarra.

Concluídos os aquecimentos, era esperada a figura crucial da noite. Mark Lanegan surge sobre um cenário soturno, iluminado por uma acentuada luz vermelha que permaneceria estática durante todo o concerto. Acompanhado por Lyenn no baixo, Duke Garwood e Jeff Fielder nas guitarras, o músico fixou-se no microfone, despertando a sua voz rouca num barítono afogado com “When Your Number Isn’t Up” e “One Way Street”. Recordação do aclamado “Blues Funeral” de 2012, “The Gravedigger’s Song”, testemunhou um dos momentos mais celebrados da noite, alimentado por acordes tónicos e versos segredados em francês.

Lanegan permanecia discreto, compenetrado nas suas interpretações obscuras. A partilha dos temas num enquadramento intimista parecia tratar-se de uma terapia emocional, algo passível de expulsar os demónios internos do espírito. E se de exorcizar demónios de paixões se tratava, “I’ll Take Care of You”, original de Brook Benton, e “Torn Red Heart”, ilustravam na perfeição o desalento do desamor e a mágoa permanente do desabrigo. A melancolia prosseguiu por “One Hundred Days” e “Deepest Shade”, odes cépticas à felicidade, conduzidas por arranjos sóbrios e melodias amenas. Antes de se retirar pela primeira vez, houve ainda tempo para mais duas covers. A sonhadora e mais próspera “You Only Live Twice”, imortalizada na voz de Nancy Sinatra e “On Jesus’ Program”, reflexão dos juízos divinos profetizados por O. V. Wright.

O encore trouxe um caloroso agradecimento prévio por parte da banda, ao qual o público respondeu com aplausos e ovações que conduziram à interpretação de “Driver”, recuperada do projecto conjunto com Duke Garwood. “I am the Wolf”, biografia autorizada, confiante e esclarecida, recuperou as sonoridades mais rock em interlúdios de guitarras sincronizadas. Para o final, apenas com a voz áspera de Lanegan e a guitarra de Jeff Fielder surge “Bombed”, melodia serena de apenas dois minutos e a derradeira “Halo of Ashes”, glória guardada na memória do último álbum dos Screaming Trees.

Com nota positiva, Mark Lanegan provou continuar igual a si próprio. Vocalista rock ou intérprete introspectivo, a sua voz será sempre a arrepiante lamúria de angústia melancólica ou a consolação nos períodos mais sombrios. Agradecemos.

A fotogaleria de Henrique Almeida:

Mark Lanegan @ Theatro Circo