Mayra Andrade @ C.C.B.

Mayra Andrade @ Misty ’15

O que escrever sobre um concerto no qual a artista tem o mérito de, em certos momentos, fazer o repórter esquecer que tem que tirar notas, ou seja, que está trabalhando? Sim, Mayra Andrade tem aquele dom, de ninfa cujo cante faz levitar as almas, acima da gravidade da consciência, e balouçar os corpos muito levemente, como jangada em pacatas águas de Cabo Verde (pátria étnica da cantora) – ou Cuba, onde Mayra nasceu, ou de uma baía em Guadalupe, francófona como vários poemas da artista, ou Jamaica, que ‘fala’ Inglês como outras canções dela.

Todavia, Mayra Andrade é hoje uma artista ancorada à pop instrumental do Norte musical, que sem excluir as muitas influências folk, veio ao Misty Fest acompanhada por um quarteto de guitarra e baixo e bateria (sem percussionista) mais teclados electrónicos, que na última quinta-feira foram avidamente recebidos no Centro Cultural de Belém, para o concerto num Grande Auditório quase cheio, bem composto por apreciadores e amigos da cantora – facto que ela confessou que a angustiou ainda mais, naquela que foi a primeira prestação da artista em Lisboa desde que ela passou a residir na capital portuguesa, após mais que 10 anos radicada em Paris.

A riqueza harmoniosa da mestiçagem

Foi numa calmante fusão atlântica, de coladera e bossa nova, que o concerto foi iniciado, pela consistente banda multicultural como Mayra, com a cantora cantando em crioulo, naquele seu timbre tão centrado, tão smooth, enquanto timidamente desfilava pelo palco, em curtos passos de gueixa, com a humildade emocionada do seu agradecimento às pessoas que reservaram para ela aquela noite, após “Ilha de Santiago”, single do último álbum Lovely Difficult, que no seu ritmo sincopado homenageia a comunidade e as artes e ritmos daquela ilha de Cabo Verde e que motivou o primeiro grande aplauso ao alinhamento de canções, após ter sido muito beneficiado pela excelente acústica da sala, que encorpou a reverberação do baixo e da baqueta de bombo usada pelo baterista.

“Trés Mininu” foi oportunamente a terceira canção interpretada, em muito actual estilo rock, com frases de palmas (acompanhadas pelo público) como várias canções de David Fonseca, mas ainda no crioulo da inspiradora afirmação “Nhós vivi ku verdádi, Ku jenerozidádi i djuda ken ki mesti di nhó”.

O ‘meio mundo’ nas canções de Mayra

É uma sorte o belo rosto mestiço de Mayra não a ter limitado a uma carreira de modelo ou actriz, porque assim a atraente serenidade no olhar dela é, como no “Simplement” (primeiro tema cantado em Francês), um instrumento de interpretação que serve e reforça a doçura da voz da cantora, que naquele bolero contemporâneo (recordando o vintage dos 30s do século passado) foi amparada por uma guitarra psicadélica distorcida por pedais e efeitos wah-wah. Mudado o ritmo, para o reggae e com típico solo de teclados, “Les Mots d’Amour”, ainda do último álbum, foi interpretada em grande cumplicidade com o público, transportada para “Tunuka”, do album de estreia Navega, um funky sincopado com frases jazzy de guitarra que transitou para o funaná, tocado também por Mayra (com reco-reco), que pediu ao público para também cantar o título, embalando o final para uma apoteose com alegre astral afro-brasileiro, que mereceu respectivo aplauso eufórico da plateia.

“Tempu Ki Bai” foi explicada como a primeira letra escrita para o último disco, na habitual reflexão existencial de quem estava à beira de completar 30 anos e respectivas recordações de ocorrências dela e de pessoas próprias – com expectável melancolia, mas mantendo o optimismo relativista de que “o tempo cura quase todas as dores”, como Mayra afirmou já ter aprendido. E foi num ritmo balancé, tranquilo mas literalmente bombado como locomotiva a vapor – o comboio do tempo… -, que subitamente entrou em palco Sara Tavares, para realizar um dueto no final do tema, cantado num modo que lembrou Elis Regina, tendo ambas concluído quase acapella, em harmonias vocais só almofadadas pelo órgão – para gáudio do público, que retribuiu com muitas palmas e berros. Após “Minha Estrela Mãe”, cantada por Sara liderando um recreativo dueto repleto de improvisos, Mayra confirmou mesmo a afinidade artística entre ambas, confessando que Sara é das raras pessoas com quem consegue brincar em palco. A viagem rítmica entre os dois hemisférios do Atlântico foi completada com o cabaret jazz de “We Used To Call It Love”, que poderia ter sido composto pelos Vaya Con Dios, excepto pelo interlúdio em crioulo, antes do derradeiro solo funky de guitarra, que a assistência acompanhou com ritmadas palmas, num dos êxtases do concerto.

Uma árvore de maturidade

A evolução artística e psicológica de Mayra resultou numa precoce maturidade cujos ramos transcendem a arte e alcançam os âmbitos social e político, fazendo os concertos mais (e melhor) que apenas entreter. Exemplar disso foi a muito saudada “Dimokránsa”, do inicial Navega, um cadente chorinho de reflexão sobre o próprio amadurecimento da democracia em Cabo Verde, cantado por muitas pessoas na plateia. E foi com madura simpatia que Pedro Moutinho foi recebido por Mayra, com um bem humorado “Tás tão bonito!”, antes de ambos cantarem em dueto “Alfama”, como no primeiro longa duração do convidado, dueto que permitiu a Mayra gracejar a promessa de o próximo concerto em Lisboa ser de fado.

Regressando ao último disco, a visceral letra do samba “Rosa” foi marcada com o apelo de Mayra a que o público cantasse o “Rosa vem viver!” do refrão com raiva, “mas aquela raiva boa”. Uma raiva boa (de mulher madura) também sensível em “Build It Up”, balada de rock tropical, sobre um casal numa península Key da Florida que, para desnorte do marido, foi desalojado por uma das sucessivas tempestades das Caraíbas, cujos ventos ’embalaram’ Mayra para uma aleatória dança go-go durante o seu final. Ainda com os pés nas Caraíbas, banda e cantora desfilaram no elegante axé de “Comme S’il en Pleuvait” (de Navega) que animou a assistência para o final do alinhamento, ao ritmo da pop afro-beat de “Téra Lonji”, que o público também cantou, dirigido por maestra Mayra que comandou o coro enquanto cantava, antes de reinvidicar “Música não é fácil! É uma profissão.” que iniciou um improvisado momento de scat – em derradeira apoteose, com muitas pessoas em pé, algumas das quais dançando à beira do palco.

O encore, euforicamente exigido (inclusivamente com pedidos de canções), foi iniciado num inédito Português e com dedicatória à mãe de Mayra, para a qual “Meu farol” foi escrita, para uma balada familiar, tocada em frases de guitarra acústica que lembraram a suave rebentação numa foz, de diálogo das águas de um rio com o oceano, à qual são devolvidas pelo ciclo da água. O concerto foi concluído com a muito aguardada “Lua”, cujo espírito hip hop entre o funk e o reggae, mantém actual aquela canção com quase 10 anos, que a cantora finalizou em enérgico ragga. Mayra Andrade, com carisma no palco e bem acompanhada por uma banda de virtuosos músicos, ofereceu ao público um concerto competente, intimista e bem humorado, que confirmou no Misty Fest a pertinência de Mayra no festival e, sobretudo, na actual cena pop, onde a world music está cada vez mais integrada.