Em 1972 Luis Buñuel lançava O Discreto Charme da Burguesia, uma das obras maiores do surrealismo cinematográfico onde se contava a história de um grupo de amigos burgueses que tentam ter um refeição em conjunto apesar dos mais variados, disparatados, inesperados e inverosímeis acontecimentos que teimam em interromper o rendez-vouz. Há também por lá uma terrorista latino-americana da fictícia República de Miranda. Estranha introdução para um texto sobre um concerto de Muse? Ou mesmo de qualquer outra mega-titânica-estrela do rock? É, com certeza, mas vamos por partes!

Depois de tantos concertos de Muse terem passado pela retina de tanta gente ao longo de tantos anos e de tantas espécies e faunas lhes terem prestado vassalagem, admiração e amor eterno, sobra a questão sintomática da estranha sensação de antiguidade. A mesma sensação que se tem sobre uns Rolling Stones, AC/DC, Metallica e afins. São transversais, cruzam gerações, agregam tribos, juntam elementos da mesma família, quase clamam por um pic-nic sem ser na avenida. Sobra também a questão de como foi isto acontecer a uma banda que tem o seu primeiro longa-duração lançado em 1999, uma ascensão meteórica sim, mas sempre apostada em não manter uma sonoridade facilitadora de apopzamentos – apesar das estruturas e da abordagem ser feita para abraçar o mundo todo – e principalmente a uma banda que, salvo raras excepções, sempre fez questão de pela mão, boca e mente do seu óbvio e incontestável líder ter algo mais a dizer.

Daqui se parte para o paralelismo surrealista com o filme de Buñuel. Das duas uma (ou várias) possibilidades se levantam. Ou estamos perante uma farsa em forma de banda – e de todo isso parece ser plausível pois não há ninguém que revista tanto a sua música de mensagens, informações, camadas e intenções para ser apenas uma charada de Showbizz – ou os Muse não estão a conseguir passar a sua mensagem que é, na verdade, a base de toda a sua criação. Ou, a alternativa mais realista, embora a mais triste e desesperançosa de todas, é os Drones’R’Us. Adormecidos, embasbacados para monitores, marionetas das tecnologias com pouco de humano e menos de seres globais. Não é contornável a questão de se montar um espectáculo desta envergadura para passar uma mensagem de Amor, Humanidade, Alerta, União, Revolução e esbarrar numa letargia Androidinesca de contemplação do sex-symbol, da miserável (e cada vez mais necessariamente punível por lei) selfie dos infernos que teima em não parar de ocupar espaço físico e metafísico nos concertos, no acotovelar a testa do vizinho de forma a apanhar a melhor fotografia #1975 do concerto, chateando o tal vizinho que efectivamente está também a tentar tirar a fotografia #1975  e se esquece que alguém está ali em cima do palco a passar-te algo que foi montado, pensado e estruturado com o tal Amor com o objectivo de difundir a tal mensagem de União e Revolução. Mas, pelos vistos, a revolução vai ser televisionada, Gil Scott Heron. Alguém te lixou a revolução, meu!

Bom, mas Buracos Negros à parte, o que os Muse trazem na cartola é sempre visualmente incrível! Com a estrutura do palco rotativo e centrado na arena a fazer a principal diferença do que vimos no Verão passado em Algés no NOS Alive – do alinhamento de 2015 só mesmo “Supremacy” ficou de fora -, o concerto da MEO Arena foi uma passagem pela obra completa de Matt, Dom e Chris. Excepção feita, como sempre, ao disco de estreia Showbiz que parece continuar ausente da discografia passível de palco desde há algum tempo. Vai uma aposta como em 2019 vai haver celebração em torno dos 20 anos do disco e encher as setlists?!

Depois de uma entrada absolutamente mística e a roçar um sentimento espiritual/divino com esferas de luz cândida – aquilo que eventualmente será o mais aproximado aos ovnis que Matt, em tempos, quis construir especificamente para os concertos de Muse -, a sobrevoarem a multidão e a deixarem um alvo sentimento de estarmos presentes no início de uma cerimónia sensorial, “Psycho” e “Reaper” largam um tsunami de som e um flow de energia rock digna dos tempos dourados em que o rock fazia arrastões e abria espaço para o corpo salvar a alma. Os Muse arrancam a todo o gás, ou lá a que material se movem os drones, a primeira das duas noites lisboetas. “Plug In Baby”, como clássico que já é desde que Origin Of Symmetry cai no mundo em 2001, mantém os níveis a bater no vermelho e parece lançar logo desde muito cedo o concerto para velocidades arrasadoras tanto dentro como fora do palco. O virtuosismo de Matt choca de frente com as milhares de vozes e enreda-se no mar de mãos que se elevam em direcção ao palco. É assim que funcionam as fés, certo!?

“Dead Inside” traz a sensualidade marcial dos drones de novo a jogo, arrepia e faz pensar que é possível ressuscitar de novo à vida uma esperança perdida entre os despojos de todos-os-dias-cinzentos.  Vamos todos acreditar que novas leis são possíveis?! Vamos?! Vamos, e assim arranca a lindíssima e mais que sci-fi “The 2nd Law”. Um dos riffs mais bonitos da carreira da banda de Devon, aliado a um beat religiosamente espacial e épico, traçam o caminho para viagens interplanetárias em direcção ao novo mundo. Mas é aqui exactamente que o novo mundo se começa a desligar do que ainda agora e tão somente apenas tinha começado a receber. Um tema incompreendido e entendido de alguma forma como um separador entre hits demasiado longo e intenso que se transformou entretanto em “The Handler” e no seu delírio de guitarras e diferentes partes sinfónicas. Algo se quebrou aqui, e o super groove de supernova de “Supermassive Black Hole” ameaça trazer de novo a sintonia entre o palco e os milhares de pequenos exoplanetas que o rodeiam.

Mais um prelúdio digno das bandas sonoras dos romances clássicos de Hollywood e arrancamos novamente em direcção ao macro-cosmos dos hits gigantes. “Starlight” primeiro, o hino mais aparentemente pop da carreira dos Muse, constrói  uma aura de leveza e luz em volta das palavras de libertação e, mais uma vez, de esperança de Matt. Um público que parece cansado e distante ainda reage ao poder pop de “Starlight”, mas com a passagem para ambientes mais densos em “Apocalypse Please”, outros dos hits mais fortes da banda, aparenta diminuir tanto a velocidade e entrega ao tanto de imenso e intenso que vem de cima da cabine da nave-mãe. “Munich Jam” acentua. As palmas que não conseguem aguentar o ritmo e vivem em constante fade out, as pessoas de telemóvel na mão a ver feeds de facelessbook e todo um aparente desinteresse começa a surgir um pouco por todo o lado. O mal amado “Madness” acentua as conversas paralelas em vez do romance, e mais selfies em vez de entrega.

Os primeiros acordes de “Map Of The Problematique” com os seus hints ao synth-pop dos Depeche Mode e ao activismo sonoro dos U2 em tempos muito muito idos, faz regressar a possibilidade de trazer de novo a osmose necessária a um bom concerto. Não aconteceu, e aquele que é efectivamente um dos temas mais fortes em termos de composição e vibração dos Muse, foi mais um ser em decomposição numa altura em que a banda parecia mais preocupada em manter o autopilot do espectaculus fantasticus do que a trazer de novo à vida os drones robotificados que tinham pela frente.  É mais que incompreensível dares tanto e receberes tão pouco e não se pense que este é um discurso rabugento de velho-do-restelo, mas atenção: andar aos saltos pode, muitas vezes, não ser suficiente. Long live, Drones’R’Us!

Curiosamente, sobe aos monitores e aos speakers a voz de JFK e do discurso lendário sobre o domínio e a manipulação das sociedades secretas. A ler e a interiorizar, meninos, a ler e a interiorizar. Foi por isto que ele levou um tiro nos cornos. Foi pela verdade e por todos nós! E não, rapaz da camisa branca e penteado à Paulo Portas, isto não é uma música dos Muse e não, isto não é a voz do Matthew, rapaz da camisa branca e penteado à Paulo Portas! Questiona-te antes de comprares um bilhete para um concerto para onde vais e ao que vais. A música, como qualquer arte, tem um conteúdo; a música, enquanto arte que não pode ser perdida, tem de ser e deve ser veículo condutor de mensagem; tem forma e, neste caso, tem côr política. Não é complacente, não é reduzida e acima de tudo merece ser lida, escutada, observada e analisada. E não só o discurso de John Fitzgerald Kennedy faz todo o sentido no conceito interventivo dos Muse, ele faz sentido no dia-a-dia de todos e na impossível recuperação da intimidade e da privacidade e dos núcleos fechados mas comunitários onde se pensavam novas formas de estar e de criar. A evolução parou quando a globalização se tornou pandémica e anorética. Sim, a realidade é toda ela mentira, e tal como Bellamy canta no tema que sucede a voz de Kennedy, “Hysteria”, I’m breaking out/Last chance to lose control! Longe estará o factor acaso na sequência de músicas. Depois disto vem “Time Is Runnig Out” e as palavras You can’t push it underground/We can’t stop it screaming out, segue-se o mais que claro apelo à tomada das ruas e do desenvolvimento das consciências de “Uprising” e que termina num momento imensamente simbólico com a enorme “The Globalist”, a penúltima amostra de Drones que ecoaria nas paredes da arena.

“The Globalist”, envolta numa magia pink-floydiana faz sentido acompanhada das imagem de palco. Os átomos que no espaço negro acabam por formar uma Humana ou uma mãe de toda a humanidade, os protótipos de naves e equipamentos cósmicos, os símbolos crípticos, o armamento projectado, o bombardeiro que efectivamente sobrevoa as nossas cabeças ao mesmo tempo que as batidas marciais de Dom marcam de vermelho as imagens nas telas como a red death from above de Nostradamus até que tudo explode e volta aos mesmos átomos e ao mesmo local sagrado onde renasce um novo mundo, onde a mesma entidade feminina olha pelo renascer de tudo dos escombros do Apocalipse. Isto devia ser o The Wall do novo milénio… infelizmente vai ser apenas uma foto numa wall de alguém! Demasiado longo para a capacidade de concentração dos revolucionários burgueses.

Para acabar uma trilogia de peso. “Take A Bow” leva-nos no tempo para Black Holes And Revelations e clama novamente pela vox da liberdade, clama novamente pelo despertar das mentes e é sónico, tão sónico, tão grande, tão simplesmente Muse. O último drone sobe ao palco em forma de “Mercy”, em forma de festa, na forma das linhas de teclas que já se tornaram emblemáticas para o último disco, o apelo sempre constante aos mais puro e belo que temos na nossa genética. “Mercy” faz subir aquela vontade primária de gritar e cantar até amanhã ou até as cordas vocais dizerem – “já chega, não?!” Mas como não chegava, Chris saca da sua Harmonica e encarna Morricone, abrindo as portas do saloon do inferno de par em par para a guitarra de Matt se montar no cavalo da bateria de Dom e arrancarem a galope deserto afora até à madrugada de um novo mundo. IN-TEN-SO!

O facto é que não há quem faça frente aos Muse no que toca ao saber montar um espectáculo sem descurar nada. Se a mensagem além dos efeitos visuais passa ou não? Talvez não passe para as massas a quem eles mesmos querem alertar que precisam de acordar. Mas quem faz o que pode a mais não é obrigado, e eles fazem como ninguém e sabem o quanto são enormes e como sabem dominar um público que não está ali para receber lições. Com menos de um ano de diferença desde o concerto do Alive, traz-se a sensação que a enormidade dos Muse funcionou sobejamente melhor em Algés com um concerto muito menos cheio em termos visuais mas muito mais in your face, não permitindo ao público desertar para o telemóvel e para espaços vazios dentro da sua cabeça. As águas do Tejo são nitidamente diferentes para os lados orientais da cidade.

Antes do trio, os belgas De Staat fizeram bem o papel de aproveitar a oportunidade que lhes foi oferecida. A banda de Nijmegen veio mostrar o seu rock com laivos funkalicious e o recente lançado em Janeiro passado. Este, que é o quinto disco dos De Staat. Pelo palco da Arena passaram “Make A Call, Leave It All”, “Murder Death”, “Peptalk”, “Witch Doctor” e “Help Yourself”, entre outras. Sempre entre as sonoridades que caracterizaram os trabalhos dos Cake, os Electric Six, The Raconteurs, Soulwax e os – não, não vou dizer dEUS, mas vou dizer dEUSMillionaires, banda paralela de membros dos dEUS e que a memória já não permite mais detalhes.

A Burguesia Revolucionária venceu esta batalha… é hora de limpar as armas e voltar à guerra! Um dia, um dia….

Death, you bring death
And destruction to all that you touch
Pay, you must pay
You must pay for your crimes against the earth

“Take a Bow”