Noiserv - Entrevista

Noiserv

Durante a edição de 2014 do NOS Alive, estivemos à conversa com Noiserv. O multi instrumentista David Santos, que não só se dedica ao seu projecto a solo, mas também oferece o seu talento e criatividade como integrante da banda You Can’t Win Charlie Brown. Subiu ao palco por duas vezes durante o evento e é um dos artistas portugueses, de música alternativa, com mais concertos dados pelo país. Claramente habituado a ser entrevistado, respondeu com segurança, eloquência e assertividade às perguntas da Tracker Magazine, sem perder alguma emotividade que ainda remete ao “sonho de pequeno”.

És multi-instrumentalista, singer-songwriter. Há algum objecto do qual ainda não tenhas tirado som?

Deve haver, de certeza. Por norma, todos aqueles que pensei se davam para tirar alguma coisa, acabei sempre por usar. Mas, claramente, deve haver instrumentos que ainda não usei.

Há algum que quisesses usar mas ainda não tiveste oportunidade?

Quando é um processo para um disco novo, faço um apanhado de tudo o que fui descobrindo ao longo dos tempos. E penso que podem ser objectos estranhos, mas que o som pode ser engraçado. No último disco, em Outubro, acabei por usar tudo, e agora não tenho nenhum em vista ainda.

O nome do teu álbum de 2013 Almost Visible Orchestra, nasceu dessa mesma explicação?

Sim, é quase como se fosse uma orquestra. Se ouvires aquilo de olhos fechados, parecem muitas pessoas a tocar muitas coisas. Parece uma orquestra, não de violinos e violoncelos, mas dos meus instrumentos pequeninos e apontamentos de várias coisas.

Como está a correr a promoção e aceitação do novo álbum? Tens tocado em todo o lado. 

Tem corrido muito bem. Desde Outubro que toco uma ou duas vezes por fim-de-semana, o que é uma surpresa boa. Já com o outro disco tive uma regularidade grande de concertos, mas tive sempre medo que com o segundo disco a coisa pudesse vir abaixo e pudesse não haver interesse em repetir alguns sítios. Mas, pelo contrário, tenho repetido grande parte dos sítios onde toquei antes.

Conquistaste um público fiel exactamente pela originalidade e criatividade do teu projecto.

É por seres uma pessoa só em palco a enfrentar o público. Estás meio despido. Isso faz com que as pessoas sintam uma identificação com quem está ali a tocar e com quem fez a música. Naquele momento, és uma pessoa igual às outras que simplesmente está a mostrar aquilo que fez.

O momento mais emotivo da tua carreira foi quando fizeste a banda sonora do filme José e Pilar?

Não sei se foi o mais emotivo porque todas as pequenas conquistas e vitórias que vou tendo fazem parte de um bolo enorme e emotivo da realização de um sonho que tenho desde pequeno. Aquilo foi o sonho do José Gonçalves Mendes de fazer o documentário e acabou por ser também uma homenagem ao Saramago porque ele morreu muito pouco tempo antes do lançamento do documentário. Então, houve o misto dessa emotividade com a conquista por aquilo que eu fiz, e uma grande responsabilidade por este ser, para algumas pessoas, o último objecto que vão ver dele e talvez para outras, o primeiro. Por isso, não sei se foi o mais emotivo, mas foi um dos principais de entre as coisas em que participei.

Também fazes parte dos You Can’t Win Charlie Brown. Numa declaração, numa entrevista anterior, o Luís Costa disse que tentaram encontrar uma forma de que a tua participação musical na banda não fizesse as pessoas chorar, mas fizesse as pessoas dançar. O que é que tens a responder ao Luís?

Por a música ser um pouco diferente? (risos) As minhas músicas, sozinhas, têm uma carga, não diria triste, mas melancólica. Nos Charlie Brown, essa melancolia é posta num registo mais dançante. Então, acho que o Luís tem razão.

Dentro do que é possível fazer no mercado de música em Portugal, sentes que já fizeste tudo?

Eu acho que nunca se faz tudo. Mas cheguei a um ponto que, se de hoje para amanhã não fizesse mais nada, já me sentia preenchido. A questão daquilo que me falta fazer é sempre muito relativa. Se queres continuar a viver da música, o que te falta fazer é preencher todos anos da tua vida até à altura em que a deixas de fazer, a produzir novos discos, novas ideias e mais concertos.