Pharmakon, termo descendente do grego, é um conceito filosófico ligado à capacidade de comunicação e à linguagem, segundo o qual esta pode ser um remédio, um veneno ou um cosmético. Um remédio porque a palavra ou qualquer outra forma de expressão, à semelhança de um verdadeiro fármaco, pode ajudar a recuperar, a regenerar, a remendar. Um veneno porque na mesma medida a palavra, consegue conspurcar e intoxicar a mente e o corpo. Um cosmético porque esta tem ainda a capacidade de ocultar, de maquilhar a realidade numa fantasia completamente díspar.

Pharmakon é um conceito nascido no seio da filosofia grega para tentar explicar a força da palavra e o efeito que esta pode ter, o que ainda hoje continua a ser uma realidade e se aplica às formas como comunicamos e interagimos – as ligações pessoais efémeras, as redes sociais, os media, a imprensa. É uma corrente que tenta explicar as várias formas como a nossa interação pode ser e é manipulável, consoante os interesses por detrás do agente principal. Pharmakon tem todo este conceito filosófico por detrás. Tem o seu lado médico. Tem o seu lado leigo.

Mas Pharmakon, é também Margaret Chardiet.

Oriunda de Nova Iorque, desde os 17 anos que se viu envolvida no mundo underground e experimental norte-americano a consumir e a produzir música sempre  em torno da sonoridade electrónica, industrial, experimental e noise, navegando neste ambiente até se tornar fluente, o que se veio a manifestar neste seu alter-ego que pretende mostrar ao público a complexidade do ser humano em termos biológicos e psicológicos, usando a decadência como um ponto de vista e ao mesmo tempo um ponto fulcral da sua música.

Como forma preferencial de se expressar, Margaret usa sons muito crus, seguidos de ruído constante, ritmos fortes que podem envolver sintetizadores e ao mesmo tempo chapas de zinco para produzir caos sonoro, tudo isto acompanhado de gritos angustiantes que fazem o ouvinte sair da sua zona de conforto e entrar no inferno sonoro que a mesma criou para nos fazer descer à realidade.

Com um EP (2009 – Pharmakon, lançado pela Bloodlust) e três álbuns editados (2013 – Abandon; 2014 – Bestial Burden; 2017 – Contact, todos pela Sacred Bones), Pharmakon tem vindo a construir o seu conceito que nos transmite o quão pequeno e frágil o ser humano é apesar da sua mania hegemónica. Abandon foi uma tentativa de nos trazer à realidade, de apagar a fronteira entre aquilo que imaginamos e a própria realidade. Um valente pontapé no estômago que traz o ouvinte para o seu verdadeiro extrato, onde nem tudo é idílico e onde o caos é uma realidade.

Bestial Burden, nascido de uma urgência que levou Margaret ao hospital, apresenta-nos a realidade da fragilidade do corpo, e como quando menos esperamos este pode falhar. Um disco introspectivo que se foca na decadência do corpo e que nos leva a perceber o quão vulnerável o ser humano de facto é. Um registo pessoal que nos faz pensar por nós em nós mesmos, no que somos e viremos a ser.

Contact, mantendo o registo industrial, é um disco que explora a interacção, a ligação que estabelecemos com outros seres que se identificam como iguais, e a dificuldade que advém dessa interacção. Este último registo, no meio do caos que é Pharmakon, é um farol, uma esperança de entender o que é o ser humano, e como este se relaciona, enaltecendo o lado negro, porque mesmo que não queiramos, este é o que sobressai. Mas sempre com umas luzes ao fundo do túnel apesar de todo o ruído que encontremos pelo meio.

Presente pela terceira vez em Portugal – anteriormente no Amplifest 2014 e Primavera Sound 2015 -, Pharmakon apresenta hoje pela primeira vez o seu mais recente trabalho na ZDB, e promete não só trazer um concerto marcante, como também gravar o seu nome na história na mítica Galeria Lisboeta.